Encontrado durante obras em Paderborn, na atual Alemanha, o caderno de cera de 8,6 por 5,6 centímetros permaneceu protegido por uma bolsa de couro dentro de uma latrina selada, preservando escrita em latim, páginas intactas e possíveis registros comerciais ligados à elite urbana medieval
Achado em uma fossa medieval selada durante obras em Paderborn, na Alemanha, o pequeno caderno de madeira e cera preservou escrita latina, indícios de atividade comercial e sinais de vida urbana de elite, oferecendo aos arqueólogos uma rara cápsula do tempo de 800 anos.
Caderno de cera achado em uma latrina medieval de Paderborn, na atual Alemanha, permaneceu intacto por cerca de 800 anos e revelou anotações em latim que podem ajudar arqueólogos a reconstruir hábitos, comércio e escrita da elite urbana.
Caderno de cera preservado em uma latrina selada
A descoberta ocorreu durante a construção de um novo edifício municipal em Paderborn. No terreno, arqueólogos localizaram cinco latrinas medievais seladas, ambientes úmidos e pobres em oxigênio, capazes de preservar materiais orgânicos que normalmente desapareceriam.
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A ausência de oxigênio dificultou a ação das bactérias que decompõem madeira, couro e outros resíduos. Por isso, a fossa acabou funcionando como uma cápsula do tempo, embora tenha sido originalmente um espaço de descarte cotidiano.
No interior de uma das câmaras, a equipe encontrou um pequeno volume coberto por terra. A limpeza em laboratório revelou uma bolsa de couro preservada, marcada com uma flor-de-lis, símbolo associado ao favor divino.
Dentro da bolsa estava o caderno de cera, com 8,6 por 5,6 centímetros. O objeto reúne dez páginas de madeira revestidas de cera e protegidas por uma encadernação firme de couro.
A conservadora Susanne Bretzel, da LWL, relatou que bastou limpar a parte externa do livro. As páginas internas estavam bem fechadas, sem sujeira, e a madeira não havia deformado, mantendo a cera intacta e a escrita legível.
Como funcionava o bloco de notas medieval
O artefato era uma espécie de bloco de notas reutilizável. O usuário riscava a cera macia com um estilete afiado e depois podia alisar a superfície para apagar registros e escrever novamente.
Esse uso ajuda a explicar a aparência complexa do texto. As inscrições foram feitas sobre marcas anteriores parcialmente apagadas, em diferentes direções e com sobreposição de palavras, pensamentos e possíveis transações.
A escrita está em latim, dado que indica um proprietário alfabetizado e socialmente destacado. Na sociedade medieval, a capacidade de ler e escrever nesse idioma era restrita, mas podia estar presente entre comerciantes de posição elevada.
A arqueóloga Sveva Gai, da LWL, levantou a hipótese de que o dono tenha sido um comerciante de Paderborn. Ele poderia ter usado o caderno para registrar negócios, compromissos e notas pessoais do cotidiano.
Outros achados da mesma escavação reforçam a possibilidade de um proprietário rico. Entre os resíduos, os arqueólogos identificaram pedaços de seda finamente tecida e decorada, material que teria sido descartado após uso anterior mais nobre.
Escrita em latim ainda desafia os especialistas
O conteúdo do caderno permanece parcialmente enigmático. A pressa do autor, as camadas de registros reaproveitados e erros ortográficos medievais dificultam a leitura, mesmo para especialistas habituados a documentos antigos.
A equipe pretende avançar na decifração ao longo do próximo ano. O trabalho exige reconhecer palavras isoladas, comparar traços e reconstruir sequências de escrita que se cruzam sobre a cera preservada.
O objetivo maior é ligar o objeto a uma pessoa real. Para isso, os pesquisadores precisam primeiro associar a latrina a um terreno específico da cidade medieval.
Com essa identificação, arquivos históricos poderão indicar quem morava ou trabalhava naquele lote. No melhor cenário, o caderno de cera poderá deixar de ser apenas um achado raro e ganhar o nome de seu antigo proprietário.
A descoberta também mostra como objetos simples, perdidos em situações banais, podem sobreviver em condições inesperadas. Um caderno descartado ou derrubado em uma latrina se tornou uma janela direta para práticas de escrita e comércio de 800 anos atrás.
Para os pesquisadores, o achado combina conservação incomum, escrita cotidiana e contexto urbano preservado. Essa soma permite observar não apenas um objeto raro, mas a rotina intelectual e econômica de uma cidade medieval.

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