Em Saragoça, o aquífero ligado ao Ebro mantém água a cerca de 18°C o ano inteiro e alimenta dezenas de sistemas de energia geotérmica. O método THERMAL busca coordenar instalações, economizar mais de € 7.500 anuais por unidade e evitar quase 15 toneladas de CO₂, antes de incorporar inteligência artificial.
O aquífero escondido sob Saragoça, na Espanha, transformou uma camada subterrânea de água em peça central da energia geotérmica urbana. Localizado com nível freático a cerca de 11 metros de profundidade, o recurso mantém temperatura próxima de 18°C durante todo o ano e vem sendo aproveitado há quase três décadas para aquecer e resfriar grandes edifícios.
A solução voltou a chamar atenção porque já permitiu reduzir em 52% o consumo de energia de um edifício público e agora entra em uma nova fase. Pesquisadores do Instituto Geológico e Mineiro da Espanha, ligado ao CSIC, testaram um método de gestão capaz de coordenar melhor as instalações existentes e preparar o uso de inteligência artificial para evitar interferências no subsolo.
Aquífero funciona como reserva térmica sob a cidade
Debaixo das ruas de Saragoça se estende o aquífero Aluvial do Ebro, uma massa de água subterrânea conectada ao rio e com espessura estimada entre 20 e 30 metros. O nível da água aparece a cerca de 11 metros abaixo da superfície, distância suficiente para manter o recurso invisível à rotina urbana, mas acessível a sistemas de climatização.
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A principal vantagem não está apenas na existência da água, mas em sua estabilidade térmica. Enquanto o ar externo pode ultrapassar 35°C durante o verão aragonês ou cair para aproximadamente 2°C em dias frios, a água subterrânea permanece próxima de 18°C ao longo do ano.
Essa constância torna o aquífero especialmente útil para bombas de calor geotérmicas. Em vez de depender diretamente de um ar externo sujeito a grandes variações de temperatura, os equipamentos trabalham com uma fonte térmica mais equilibrada e previsível.
Na prática, Saragoça passou a contar com uma espécie de infraestrutura energética silenciosa. Sem turbinas visíveis ou grandes placas nas coberturas, parte da cidade utiliza a água escondida sob o asfalto para diminuir o esforço necessário na climatização de edifícios.
Sistema aquece no inverno e resfria no verão
O funcionamento lembra a lógica de um refrigerador doméstico: o equipamento não cria frio de forma isolada, mas transfere calor de um ponto para outro. Nas instalações de Saragoça, essa troca ocorre entre os edifícios e o aquífero.
No inverno, a água é retirada do subsolo a cerca de 18°C. Um sistema de troca térmica aproveita parte desse calor e o amplia para aquecer os ambientes internos. Depois da operação, a água, ligeiramente mais fria, retorna ao aquífero.
No verão, o caminho se inverte. O calor acumulado dentro dos prédios é retirado e transferido para a água subterrânea, que permanece muito mais fria do que o ar externo em períodos de calor intenso. O aquífero passa a atuar como fonte de calor no frio e como destino de calor nos meses quentes.
Esse mecanismo reduz o esforço das bombas de calor. Para manter uma casa ou edifício a 22°C em um dia de inverno com ar externo a 5°C, um sistema baseado no ar precisa superar diferença térmica bem maior do que um equipamento que parte de água a 18°C.
Cidade acumula quase 30 anos de experiência geotérmica

O aproveitamento do aquífero de Saragoça não surgiu de forma recente. A cidade vem utilizando essa fonte subterrânea de climatização há quase três décadas, período em que o número de instalações cresceu gradualmente.
Atualmente, são cerca de 60 grandes instalações, principalmente em edifícios públicos, hospitais, campus universitários, centros comerciais e conjuntos residenciais. Somente para refrigeração, a potência instalada chega a aproximadamente 110 megawatts térmicos.
Segundo os dados apresentados, essa capacidade seria equivalente ao necessário para climatizar mais de 15 mil residências. O número coloca Saragoça como uma referência urbana no uso de energia geotérmica associada a aquíferos.
A cidade não apenas encontrou um recurso favorável sob suas ruas. Ela também acumulou conhecimento operacional sobre perfuração, extração, reinjeção e uso compartilhado da água em uma área densamente ocupada.
Edifício público consome 52% menos energia
Entre os exemplos mais representativos está o Edifício Cero Emisiones da prefeitura de Saragoça. Com uso do sistema geotérmico, o imóvel consome 52% menos energia do que um edifício convencional comparável.
O resultado mostra por que a solução desperta interesse em outras cidades. Climatizar grandes edifícios públicos, hospitais ou estruturas comerciais costuma exigir elevado consumo elétrico, especialmente durante períodos de calor ou frio intensos.
Quando o subsolo oferece água a temperatura constante, a climatização precisa gastar menos energia para atingir o conforto interno desejado. Essa diferença pode diminuir despesas de operação e reduzir emissões associadas ao consumo energético.
Outro exemplo citado está na indústria papeleira Saica, que possui um campo com 12 perfurações integradas às fundações de sua estrutura. A aplicação mostra que o uso do aquífero não se limita a prédios administrativos ou residenciais, podendo alcançar operações maiores.
Sucesso do aquífero também criou um novo risco
Quanto mais edifícios utilizam a mesma fonte subterrânea, maior se torna o desafio de coordenar o sistema. Cada instalação extrai água, troca calor e devolve essa água ao subsolo com temperatura alterada.
Se muitas operações devolverem água aquecida em excesso ao aquífero, especialmente durante longos períodos, a temperatura subterrânea pode subir. Nesse cenário, o recurso não desaparece, mas perde parte da eficiência que o tornou tão valioso.
O problema também pode ocorrer quando instalações próximas interferem umas nas outras. Um sistema que injeta água mais quente ou mais fria pode afetar o desempenho de outro ponto de captação localizado na mesma massa subterrânea.
Por isso, o desafio atual de Saragoça não é encontrar mais água ou perfurar novos poços. O foco está em organizar o uso de uma infraestrutura existente para que o crescimento da demanda não comprometa o equilíbrio térmico do aquífero.
Método THERMAL tenta organizar o uso sem abrir novos poços
Para enfrentar esse desafio, pesquisadores do Grupo de Sistemas Hidrogeológicos e Geotérmicos Avançados do IGME-CSIC desenvolveram e testaram em Saragoça o método THERMAL, voltado à gestão inteligente de aquíferos urbanos.
A proposta é coordenar melhor os fluxos e as temperaturas das instalações já em funcionamento, reduzindo interferências e mantendo a capacidade do sistema ao longo do tempo. O método não depende da abertura de um novo poço para ampliar os benefícios energéticos.
Segundo os resultados apresentados, uma coordenação mais eficiente das bombas de calor existentes pode gerar economia superior a € 7.500 por ano em cada instalação. Além disso, a gestão otimizada pode evitar a emissão de quase 15 toneladas de CO₂ por unidade anualmente.
A lógica é aproveitar melhor o que já existe. Em vez de expandir indiscriminadamente a exploração do subsolo, o projeto busca fazer com que instalações próximas funcionem como parte de uma rede coordenada.
Inteligência artificial deve antecipar demanda e mudanças térmicas
O próximo passo previsto para o sistema é incorporar inteligência artificial e aprendizado automático. A tecnologia deverá ajudar a prever a demanda energética dos edifícios e acompanhar alterações de temperatura no subsolo.
Essa previsão pode ser importante em períodos de uso intenso, como ondas de calor, quando várias instalações precisam resfriar prédios ao mesmo tempo. Ao antecipar picos de demanda, a gestão pode ajustar captação e reinjeção antes que os sistemas passem a interferir de forma prejudicial.
A IA também pode ajudar a observar como o aquífero reage ao uso acumulado ao longo dos anos. Com dados de temperatura, vazão e funcionamento das bombas, seria possível identificar tendências e tomar decisões antes que a eficiência seja reduzida.
O objetivo não é substituir o conhecimento geológico, mas ampliar sua capacidade de controle. Em uma cidade com dezenas de instalações ligadas ao mesmo recurso, a combinação entre ciência do subsolo e análise automatizada pode definir a sustentabilidade da solução.
Modelo de Saragoça já mira outras cidades europeias
A experiência espanhola passou a ser observada como possível modelo para outros centros urbanos. O método THERMAL foi desenvolvido com a intenção de tornar a gestão de aquíferos geotérmicos mais eficiente e replicável em diferentes contextos europeus.
Saragoça tem uma condição favorável por estar sobre o aquífero ligado ao Ebro, mas não é o único local interessado em fontes térmicas subterrâneas. Paris utiliza uma ampla rede baseada no aquífero do Dogger, enquanto Vantaa, perto de Helsinque, desenvolve um grande sistema de armazenamento térmico sazonal.
Na própria Espanha, Mieres, nas Astúrias, transformou uma antiga mina de carvão inundada em rede geotérmica capaz de abastecer hospital, universidade e centenas de residências. Esses casos mostram que energia subterrânea pode surgir tanto de aquíferos naturais quanto de estruturas industriais abandonadas.
O diferencial de Saragoça está em tentar administrar coletivamente um recurso urbano que já opera em grande escala. A cidade não está apenas demonstrando que a geotermia funciona, mas enfrentando a questão mais difícil: como expandi-la sem degradar sua própria vantagem.
Energia invisível enfrenta barreira da falta de visibilidade
Apesar dos resultados, a geotermia urbana enfrenta um desafio de comunicação. Painéis solares aparecem em telhados e turbinas eólicas transformam a paisagem. Um aquífero trabalhando abaixo das ruas não produz o mesmo impacto visual.
Essa invisibilidade ajuda a explicar por que soluções subterrâneas recebem menos atenção pública, mesmo quando apresentam ganhos expressivos de eficiência. Em Saragoça, boa parte da infraestrutura energética está escondida, embora contribua diretamente para reduzir consumo e emissões.
Outro obstáculo é o investimento inicial em perfurações e sistemas específicos. De acordo com as informações apresentadas, especialistas estimam que esse custo possa ser compensado em um prazo entre cinco e oito anos graças à economia contínua de energia.
Com fundos europeus e incentivos voltados à eficiência energética, esse tipo de projeto pode ganhar mais espaço. Ainda assim, sua expansão depende de planejamento técnico, conhecimento hidrogeológico e capacidade institucional para gerir um recurso compartilhado.
Aquífero coloca Saragoça diante de nova etapa energética
Durante quase 30 anos, o aquífero de Saragoça permaneceu abaixo da cidade ajudando a climatizar prédios, hospitais e instalações de grande porte sem ocupar espaço visível no cenário urbano. Sua água estável a cerca de 18°C permitiu reduzir consumo, diminuir emissões e consolidar a capital aragonesa como referência geotérmica.
Agora, o próprio sucesso do sistema exige mais controle. Com dezenas de instalações extraindo e devolvendo água ao subsolo, a cidade precisa impedir que a falta de coordenação aqueça demais a reserva térmica e reduza sua eficiência.
A aposta no método THERMAL e na inteligência artificial mostra que a próxima fronteira da energia urbana pode estar na gestão inteligente do que já existe debaixo das cidades. Em vez de buscar apenas novas fontes, Saragoça tenta preservar e ampliar o valor de uma solução silenciosa que já funciona há décadas.
E você, acredita que cidades brasileiras também deveriam investigar melhor o potencial energético escondido no subsolo antes de ampliar sistemas tradicionais de climatização? Comente sua opinião.


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