A capacidade solar do Brasil é oito vezes maior que há cinco anos e a eólica dobrou — mas a rede de transmissão cresceu apenas 29%, e o resultado é um desperdício bilionário de energia limpa que já gerou R$ 5 bilhões em prejuízos
O Brasil se tornou uma potência em energia solar e eólica. A capacidade instalada de energia solar saltou de 1.283 MW em 2018 para mais de 10.141 MW — um aumento de oito vezes em cinco anos.
No mesmo período, a energia eólica dobrou, passando de 13.240 MW para 27.529 MW.
A geração distribuída — aquela dos painéis no telhado das casas — já ultrapassa 37 gigawatts de potência instalada, beneficiando mais de 20 milhões de brasileiros.
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Mas há um problema grave escondido por trás desses números impressionantes.
Segundo reportagens de 2024, o Brasil desperdiçou cerca de 10% de toda a energia gerada no país, representando um prejuízo de aproximadamente R$ 2 bilhões em um único ano.
O setor eólico estima que os prejuízos acumulados por cortes de geração já chegaram a R$ 5 bilhões nos últimos três anos.

Por que o Brasil joga energia limpa fora todos os dias
O fenômeno tem um nome técnico: curtailment. Em termos simples, significa que usinas são desligadas mesmo quando estão gerando energia.
Isso acontece porque a rede de transmissão não consegue transportar toda a eletricidade produzida.
A expansão das usinas solares e eólicas foi muito mais rápida do que a construção de novas linhas.
Segundo Nivalde de Castro, professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador-geral do GESEL, o problema se agravou exatamente por essa diferença de velocidade.
O Brasil possui hoje 179.311 km de linhas de transmissão no sistema interligado nacional.
Parece muito, mas o sistema cresceu apenas 29% em seis anos — enquanto a capacidade renovável multiplicou várias vezes.
A malha foi projetada para um perfil de geração que não existe mais.
Os polos de geração solar e eólica — concentrados no Nordeste — ficam longe dos grandes centros de consumo.
O Operador Nacional do Sistema corta usinas todos os dias
Para evitar sobrecargas e risco de apagões, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) adotou critérios rigorosos.
Na prática, usinas eólicas e solares do Nordeste são desligadas diariamente.
Segundo Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica: “O problema é maior agora pelo fato da energia de telhado estar gerando muito e ocupando todo o espaço do sistema.”
A geração distribuída flui de forma descentralizada.
O ONS não consegue controlar nem prever essas oscilações ao longo do dia.
Quando o vento sopra forte e o sol está alto, mas a demanda está baixa, a consequência é o corte técnico.
É como ter uma torneira aberta com a caixa d’água já transbordando.

O impacto financeiro: R$ 5 bilhões em três anos
Cada vez que uma usina é desligada, o dono perde receita.
O setor eólico estima que os prejuízos acumulados chegam a R$ 5 bilhões em três anos.
Só em 2024, o desperdício representou cerca de R$ 2 bilhões.
Empresas do setor entraram na Justiça pedindo ressarcimento.
Projetos eólicos e solares veem sua receita cair nas horas em que deveriam capturar o melhor preço.
Isso altera projeções financeiras, alonga o payback e pode paralisar novos leilões.
O consumidor também perde: a energia barata que deveria chegar à conta de luz é descartada.
O Nordeste é o mais afetado
A região concentra a maior parte dos parques eólicos e grandes usinas solares do Brasil.
Mas é também onde os cortes são mais frequentes.
A energia é produzida onde a demanda é menor e precisa percorrer milhares de quilômetros até onde é consumida.
Sem linhas de transmissão suficientes, o excedente é simplesmente descartado.
As soluções existem — mas dependem de investimento
Especialistas apontam três caminhos principais.
O primeiro: acelerar a construção de linhas de transmissão entre Nordeste e Sudeste.
Segundo Renata Francisco, assessora da EPE, as expansões recomendadas vão reforçar corredores estratégicos.
O segundo: baterias de armazenamento em larga escala para guardar excedentes durante o dia e devolver à noite.
O terceiro: resposta da demanda — incentivar consumidores a usar mais energia nos horários de abundância.
Com transmissão reforçada, baterias e demanda flexível, a energia solar e eólica deixa de ser cortada e passa a baratear a conta.

O paradoxo da transição energética brasileira
O Brasil está numa situação contraditória.
É um dos países que mais cresce em energia renovável no mundo.
Tem sol abundante, vento constante e uma matriz elétrica 83% limpa.
Mas desperdiça energia porque a infraestrutura não acompanhou.
Cada megawatt cortado é um passo atrás na descarbonização.
O ONS prometeu apresentar um plano de gestão de excedentes, mas o setor cobra urgência.
O que falta para resolver
Construir linhas de transmissão leva anos entre licenciamento e obra.
Baterias industriais ainda são caras, embora os custos caiam globalmente.
Representantes da geração distribuída contestam que o crescimento solar seja o vilão.
O que ninguém contesta é o resultado: o Brasil gera energia limpa e a joga fora, enquanto ainda queima fóssil em termelétricas nos horários de pico.
É como ter comida sobrando na geladeira e pedir delivery — e jogar a comida fora no dia seguinte.

Isso tudo é culpa do governo Bolsonaro. A lei da taxação do Sol (Lei nº 14.300/2022) foi sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2022, após aprovação pelo Congresso Nacional.
Embora o ex-presidente tenha feito declarações públicas contrárias à cobrança em anos anteriores (como em 2020), ele acabou sancionando o projeto de lei que regulamentou o setor.
Criaram um imposto novo e não usaram o dinheiro disso pra investir em infraestrutura e linhas novas que poderiam aproveitar a energia solar
A energia solar é uma verdadeira maravilha, simples e barata de ser produzida, quem diria que estariamos um dia com excesso de energia, o problema é que as companhias (operadoras) juntamente com os governos municipais, estaduais e federal não tiveram visão do que iria acontecer com o sistema das placas solares (células fotovoltaicas), provavelmente pessoas ****, o que vai acontecer é que as hidrelétricas terão que sumir do mapa.
Boa observação, Nildemar. A energia solar colocou o sistema diante de um problema novo: excesso de geração distribuída em horários de pico solar, sem infraestrutura para absorver ou armazenar. As hidrelétricas, com reservatório, vão acabar sendo o complemento ideal — a água armazenada vira bateria natural, despachada quando o sol cai. É um redesenho do papel das hidros, não o seu fim.
Já que os parques geradores do nordeste são os mais afetados, uma alternativa é gerar mais demanda no polo gerador. Que tal incentivar mais indústrias na região?
Sugestão excelente, Paulo — é uma das ideias mais técnicas no debate. Atrair indústrias eletro-intensivas (data centers, hidrogênio verde, alumínio, ferroligas) para o Nordeste resolveria o gargalo na origem, sem depender de linhas de transmissão de longa distância. Pernambuco e Ceará já estão fazendo isso com hubs de hidrogênio verde. A política de incentivo regional precisa escalar.