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Enquanto o Brasil bate recordes em energia solar e eólica, o sistema elétrico corta usinas todos os dias porque as linhas de transmissão não aguentam — e o prejuízo já passa de R$ 5 bilhões em três anos

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 21/04/2026 às 11:00
Painéis solares em usina fotovoltaica no Nordeste do Brasil
A capacidade solar do Brasil é oito vezes maior que há cinco anos, mas a rede de transmissão não acompanhou o crescimento.
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A capacidade solar do Brasil é oito vezes maior que há cinco anos e a eólica dobrou — mas a rede de transmissão cresceu apenas 29%, e o resultado é um desperdício bilionário de energia limpa que já gerou R$ 5 bilhões em prejuízos

O Brasil se tornou uma potência em energia solar e eólica. A capacidade instalada de energia solar saltou de 1.283 MW em 2018 para mais de 10.141 MW — um aumento de oito vezes em cinco anos.

No mesmo período, a energia eólica dobrou, passando de 13.240 MW para 27.529 MW.

A geração distribuída — aquela dos painéis no telhado das casas — já ultrapassa 37 gigawatts de potência instalada, beneficiando mais de 20 milhões de brasileiros.

Mas há um problema grave escondido por trás desses números impressionantes.

Segundo reportagens de 2024, o Brasil desperdiçou cerca de 10% de toda a energia gerada no país, representando um prejuízo de aproximadamente R$ 2 bilhões em um único ano.

O setor eólico estima que os prejuízos acumulados por cortes de geração já chegaram a R$ 5 bilhões nos últimos três anos.

Linhas de transmissão de alta tensão no sertão brasileiro
O Brasil possui 179.311 km de linhas de transmissão, mas a rede cresceu apenas 29% em seis anos — insuficiente para a expansão renovável.

Por que o Brasil joga energia limpa fora todos os dias

O fenômeno tem um nome técnico: curtailment. Em termos simples, significa que usinas são desligadas mesmo quando estão gerando energia.

Isso acontece porque a rede de transmissão não consegue transportar toda a eletricidade produzida.

A expansão das usinas solares e eólicas foi muito mais rápida do que a construção de novas linhas.

Segundo Nivalde de Castro, professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador-geral do GESEL, o problema se agravou exatamente por essa diferença de velocidade.

O Brasil possui hoje 179.311 km de linhas de transmissão no sistema interligado nacional.

Parece muito, mas o sistema cresceu apenas 29% em seis anos — enquanto a capacidade renovável multiplicou várias vezes.

A malha foi projetada para um perfil de geração que não existe mais.

Os polos de geração solar e eólica — concentrados no Nordeste — ficam longe dos grandes centros de consumo.

O Operador Nacional do Sistema corta usinas todos os dias

Para evitar sobrecargas e risco de apagões, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) adotou critérios rigorosos.

Na prática, usinas eólicas e solares do Nordeste são desligadas diariamente.

Segundo Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica: “O problema é maior agora pelo fato da energia de telhado estar gerando muito e ocupando todo o espaço do sistema.”

A geração distribuída flui de forma descentralizada.

O ONS não consegue controlar nem prever essas oscilações ao longo do dia.

Quando o vento sopra forte e o sol está alto, mas a demanda está baixa, a consequência é o corte técnico.

É como ter uma torneira aberta com a caixa d’água já transbordando.

Turbinas eólicas em parque eólico no Nordeste
A capacidade eólica dobrou em cinco anos, mas o ONS corta usinas diariamente por excesso de geração sem escoamento.

O impacto financeiro: R$ 5 bilhões em três anos

Cada vez que uma usina é desligada, o dono perde receita.

O setor eólico estima que os prejuízos acumulados chegam a R$ 5 bilhões em três anos.

Só em 2024, o desperdício representou cerca de R$ 2 bilhões.

Empresas do setor entraram na Justiça pedindo ressarcimento.

Projetos eólicos e solares veem sua receita cair nas horas em que deveriam capturar o melhor preço.

Isso altera projeções financeiras, alonga o payback e pode paralisar novos leilões.

O consumidor também perde: a energia barata que deveria chegar à conta de luz é descartada.

O Nordeste é o mais afetado

A região concentra a maior parte dos parques eólicos e grandes usinas solares do Brasil.

Mas é também onde os cortes são mais frequentes.

A energia é produzida onde a demanda é menor e precisa percorrer milhares de quilômetros até onde é consumida.

Sem linhas de transmissão suficientes, o excedente é simplesmente descartado.

As soluções existem — mas dependem de investimento

Especialistas apontam três caminhos principais.

O primeiro: acelerar a construção de linhas de transmissão entre Nordeste e Sudeste.

Segundo Renata Francisco, assessora da EPE, as expansões recomendadas vão reforçar corredores estratégicos.

O segundo: baterias de armazenamento em larga escala para guardar excedentes durante o dia e devolver à noite.

O terceiro: resposta da demanda — incentivar consumidores a usar mais energia nos horários de abundância.

Com transmissão reforçada, baterias e demanda flexível, a energia solar e eólica deixa de ser cortada e passa a baratear a conta.

Baterias industriais de armazenamento de energia
Baterias em larga escala podem guardar excedentes renováveis e evitar o corte de usinas.

O paradoxo da transição energética brasileira

O Brasil está numa situação contraditória.

É um dos países que mais cresce em energia renovável no mundo.

Tem sol abundante, vento constante e uma matriz elétrica 83% limpa.

Mas desperdiça energia porque a infraestrutura não acompanhou.

Cada megawatt cortado é um passo atrás na descarbonização.

O ONS prometeu apresentar um plano de gestão de excedentes, mas o setor cobra urgência.

O que falta para resolver

Construir linhas de transmissão leva anos entre licenciamento e obra.

Baterias industriais ainda são caras, embora os custos caiam globalmente.

Representantes da geração distribuída contestam que o crescimento solar seja o vilão.

O que ninguém contesta é o resultado: o Brasil gera energia limpa e a joga fora, enquanto ainda queima fóssil em termelétricas nos horários de pico.

É como ter comida sobrando na geladeira e pedir delivery — e jogar a comida fora no dia seguinte.

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Junior Shneld
Junior Shneld
27/04/2026 21:36

Isso tudo é culpa do governo Bolsonaro. A lei da taxação do Sol (Lei nº 14.300/2022) foi sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2022, após aprovação pelo Congresso Nacional.
Embora o ex-presidente tenha feito declarações públicas contrárias à cobrança em anos anteriores (como em 2020), ele acabou sancionando o projeto de lei que regulamentou o setor.
Criaram um imposto novo e não usaram o dinheiro disso pra investir em infraestrutura e linhas novas que poderiam aproveitar a energia solar

Nildemar Ramos
Nildemar Ramos
27/04/2026 20:27

A energia solar é uma verdadeira maravilha, simples e barata de ser produzida, quem diria que estariamos um dia com excesso de energia, o problema é que as companhias (operadoras) juntamente com os governos municipais, estaduais e federal não tiveram visão do que iria acontecer com o sistema das placas solares (células fotovoltaicas), provavelmente pessoas ****, o que vai acontecer é que as hidrelétricas terão que sumir do mapa.

Paulo
Paulo
27/04/2026 07:40

Já que os parques geradores do nordeste são os mais afetados, uma alternativa é gerar mais demanda no polo gerador. Que tal incentivar mais indústrias na região?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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