Um relatório da FAO mostra que a oferta mundial de carne saltou de 25 kg para 47 kg por pessoa em seis décadas, puxada pelo frango. O consumo dispara, a pecuária deve responder por 80% da alta nas emissões agrícolas da próxima década e cientistas cobram dietas com menos carne.
O prato do mundo mudou de forma radical em apenas duas gerações. O consumidor médio hoje come seis vezes mais frango e o dobro de carne de porco do que a geração dos próprios avós, segundo um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apresentado em reportagem da Exame.
Essa transformação nos hábitos alimentares vem acompanhada de uma fatura cada vez mais visível: a do clima. O mesmo levantamento aponta que a produção de proteína animal deve continuar crescendo, e que a pecuária responde por boa parte das emissões que pressionam o aquecimento global. É a conta invisível que chega junto com a comida.
O frango lidera a explosão do consumo
Os números mostram onde a mudança foi mais intensa. O fornecimento de aves saltou de menos de 3 kg por pessoa em 1961 para 17 kg em 2022, o maior salto entre todas as proteínas. A carne suína dobrou no mesmo período, chegando a 15 kg per capita, enquanto a bovina ficou praticamente estável, em torno de 9 kg por pessoa.
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No conjunto, a oferta média mundial de carne passou de 25 kg para 47 kg por pessoa em seis décadas. E, segundo a FAO, a tendência não dá sinais de desaceleração: a expectativa é de crescimento contínuo na produção e no consumo de proteína animal em todo o mundo, o que mantém a pressão sobre recursos naturais e clima nas próximas décadas.
A conta climática que vem no prato
O problema é que cada quilo a mais tem um custo ambiental. A agricultura é o segundo setor mais poluente da economia global, e suas emissões devem crescer 7,6% na próxima década, de acordo com o relatório. A maior parte dessa alta, cerca de 80%, é atribuída à pecuária.
A atividade já é apontada como uma das principais causas da perda de biodiversidade e responde, sozinha, por algo entre 12% e 20% das emissões globais de gases de efeito estufa. Não por acaso, a carne bovina, embora estável no consumo, é citada como a mais poluente das três, o que ajuda a explicar por que o tema entrou de vez na agenda climática.
O peso do Brasil nessa conta

No Brasil, a relação entre comida e clima é ainda mais direta. O setor agropecuário responde por cerca de 74% a 76% das emissões nacionais, segundo o levantamento, uma fatia muito acima da média global. Isso coloca o país em uma posição peculiar.
Esse mesmo peso que torna a produção de carne o maior desafio climático brasileiro a transforma também na maior oportunidade de descarbonização. Reduzir as emissões do campo, no caso brasileiro, tem potencial de impacto que poucos outros setores conseguiriam igualar, o que coloca a agropecuária no centro de qualquer estratégia ambiental do país.
A recomendação que a FAO não fez
Há um ponto em que o relatório dividiu opiniões. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já identificou a transição para dietas com menos carne como uma das ações mais eficazes contra a crise climática. A FAO, no entanto, documenta o problema, mas não chega a recomendar essa redução, e é justamente aí que mora a crítica da comunidade científica.
Para Cleo Verkuijl, cientista sênior do Instituto Ambiental de Estocolmo, o documento descreve o problema com clareza, mas fica muito aquém dessa conclusão. Na avaliação dela, recomendar cortar o consumo pode ser inadequado para populações em insegurança alimentar, mas é a premissa correta para nações ricas, onde os argumentos de saúde e de meio ambiente apontam na mesma direção.
A desigualdade no prato
Se o consumo de carne explodiu no agregado global, esse crescimento está longe de ser uniforme. Nos países de baixa e média renda, onde a insegurança alimentar é mais comum, os alimentos de origem animal seguem proporcionalmente muito mais caros em relação à renda do que nos países ricos, o que limita o acesso.
Daniela Battaglia, oficial de desenvolvimento pecuário da FAO e coautora do estudo, resume que a distribuição e o acesso regionais ainda são muito desiguais. Enquanto as nações de alta renda mantêm um consumo elevado e estável, as mais pobres continuam restritas pela acessibilidade, num desequilíbrio que mistura questões ambientais, econômicas e de justiça alimentar.
O desperdício e o que vem a seguir
Outro dado expõe uma contradição no sistema. Cerca de 14% da carne e do leite produzidos globalmente se perdem na produção ou são desperdiçados antes de chegar ao consumidor final. No Brasil, segundo dados anteriores da ONU, o volume desperdiçado seria suficiente para alimentar um quarto da população que passa fome no país.
O debate, porém, ainda não está fechado. A própria FAO informou que publicará ainda este ano um segundo relatório, dedicado especificamente à sustentabilidade ambiental na pecuária. Será nesse documento que muitos esperam ver respostas mais concretas sobre como conciliar a demanda crescente por carne com as metas climáticas.
Agora queremos ouvir você. Você reduziria o consumo de carne por causa do clima, ou acha que a responsabilidade deveria recair sobre a indústria e as políticas públicas, não sobre o prato individual? Onde fica o limite entre escolha pessoal e meio ambiente?
Comente aqui embaixo a sua opinião, conte como é a sua relação com a carne e compartilhe esta matéria com quem precisa entrar nesse debate.

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