A reportagem acompanha pesquisas em Fernando de Noronha e no Pantanal, mostrando como drones, radiotelemetria e investimentos internacionais sustentam o monitoramento de tubarões e tamanduás ameaçados, revelando desafios, métodos científicos e a urgência da conservação no Brasil
Uma reportagem do Domingo Espetacular e uma matéria mais recente do G1, publicada em dezembro de 2025, revelam dados atualizados do monitoramento de tubarões na Baía do Sueste, em Fernando de Noronha, e conectam ciência, risco ambiental e conservação.
O G1 detalha resultados obtidos entre julho de 2024 e dezembro de 2025, período em que um receptor acústico registrou 16.120 detecções de tubarões com transmissores na área da Baía do Sueste.
Tecnologia acústica e identificação de animais no Sueste
O equipamento usado identifica a passagem de animais marcados, permitindo mapear presença e frequência sem contato direto, ampliando a compreensão sobre como tubarões utilizam áreas costeiras sensíveis do arquipélago.
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Segundo os pesquisadores, o receptor acústico identificou um tubarão-limão e sete tubarões-tigres que estavam previamente marcados com transmissores acústicos instalados pelos cientistas.
Alguns indivíduos aparecem com muito mais frequência na Baía do Sueste, indicando padrões específicos de uso do local ao longo do tempo, inclusive com retornos recorrentes à área monitorada.
A bióloga Bianca Rangel, coordenadora do Projeto Tubarões e Raias de Noronha, informou que duas fêmeas de tubarão-tigre se destacaram no número de registros.
Uma dessas fêmeas acumulou 7.353 registros, enquanto outra somou 3.686 detecções em um período aproximado de um ano e meio de monitoramento contínuo.
Parcerias científicas e escopo da pesquisa
O monitoramento utiliza tecnologia de telemetria acústica e é realizado em parceria com o professor Jones Santander Neto, do Instituto Federal do Espírito Santo, ampliando a base científica do projeto.
Ao todo, a pesquisa já marcou 62 tubarões com rastreadores acústicos, permitindo acompanhar deslocamentos e permanência em diferentes pontos do arquipélago.
Desse total, 48 são tubarões-tigres, sete tubarões-bico-fino, três tubarões-lixas, dois tubarões-martelos e dois tubarões-limão, compondo um painel diverso de espécies monitoradas.
Esses dados complementam o trabalho apresentado pelo Domingo Espetacular, que mostrou procedimentos de marcação, exames rápidos e devolução dos animais ao mar em poucos minutos.
Incidentes e mudança no uso da Baía do Sueste
A Baía do Sueste passou a receber atenção especial após dois incidentes graves registrados na região, ambos atribuídos a tubarões-tigres, segundo investigações oficiais.
O primeiro caso ocorreu em dezembro de 2015, quando o turista Márcio de Castro Palma foi mordido, perdendo a mão e parte do braço direito durante o ataque.
O segundo episódio aconteceu em janeiro de 2022, quando uma menina de 8 anos foi mordida por um tubarão e teve a perna amputada após o incidente.
Após esses eventos, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade proibiu o banho e o mergulho na Baía do Sueste, medida que permanece em vigor.
Os dados gerados pelo monitoramento acústico são repassados ao órgão, servindo de base técnica para decisões de manejo e restrições de uso da área.
Comparação com outros pontos de Fernando de Noronha
Além do Sueste, outros 19 receptores acústicos estão distribuídos em diferentes pontos da ilha, permitindo uma análise comparativa da presença de tubarões.
As maiores detecções de tubarões-tigres ocorreram em áreas como Laje Dois Irmãos, Praia do Leão, Baía dos Golfinhos, Ponta da Sapata, Ilha Rasa e Ilha do Meio.
A Laje Dois Irmãos concentrou o maior número de registros, com 37 tubarões gerando mais de 30 mil detecções em um único ano de monitoramento.
Esse número é significativamente superior ao registrado no Sueste, indicando que a baía não é o principal ponto de permanência da espécie no arquipélago.
Segundo Bianca Rangel, uma análise geral dos receptores mostrou que a frequência de tubarões-tigres no Sueste é baixa em relação a outros locais de Noronha.
Uso de drones e comportamento de predação
Além da telemetria acústica, os pesquisadores utilizam drones para acompanhar a movimentação dos tubarões na Baía do Sueste e em áreas adjacentes.
De acordo com Fábio Borges, coordenador do Projeto Tubarões e Raias, os tubarões-tigres entram no Sueste principalmente para caçar.
Segundo ele, o local funciona como área de predação, sobretudo de tartarugas, o que explica a presença pontual e estratégica dos animais.
Esse comportamento reforça, na avaliação dos pesquisadores, que a proibição do banho na baía é uma medida adequada do ponto de vista preventivo.
Até que o comportamento dos animais seja completamente compreendido, a decisão reduz riscos ao banhista em uma área onde o tubarão está em atividade de caça.
Risco ao banhista e percepção pública
Fábio Borges explicou que o risco é um pouco maior para o banhista no Sueste justamente pelo contexto de predação observado pelos pesquisadores.
O animal, ao tentar caçar, pode investigar um ser humano caso haja encontro, o que aumenta a chance de incidentes, mesmo sem intenção alimentar.
O coordenador ressaltou que seres humanos não fazem parte da dieta dos tubarões, argumento reforçado pela baixa frequência de ataques.
Segundo ele, se pessoas fizessem parte da alimentação, os incidentes seriam muito mais comuns, já que há tubarões e humanos no mar diariamente.
Conexão com a conservação mostrada no Domingo Espetacular
A reportagem do Domingo Espetacular contextualizou o monitoramento de Noronha dentro de uma agenda mais ampla de conservação no Brasil.
O programa mostrou que os tubarões monitorados não são uma ameaça direta, mas sim espécies ameaçadas pela pesca e pela pressão humana.
Pesquisadores realizam pequenas cirurgias na água para instalar transmissores, identificam todos os animais que aparecem na costa e acompanham sua saúde.
O trabalho científico busca garantir que esses tubarões se desenvolvam, se multipliquem e não desapareçam de áreas consideradas refúgios naturais.
Pantanal e o monitoramento do tamanduá-bandeira
A mesma viagem jornalística seguiu para o Pantanal Sul-Mato-Grossense, onde outro projeto de conservação acompanha o tamanduá-bandeira ameaçado de extinção.
Utilizando radiotelemetria, pesquisadores monitoram indivíduos com transmissores instalados em colares ou coletes, rastreando seus deslocamentos em áreas extensas.
O trabalho revelou encontros raros com fêmeas e filhotes, cenas consideradas cada vez mais incomuns em regiões onde a espécie já desapareceu.
O tamanduá-bandeira enfrenta riscos como caça ilegal, incêndios florestais e atropelamentos em rodovias que avançam sobre seu habitat natural.
Dados científicos e decisões de gestão
Assim como em Noronha, os dados coletados no Pantanal subsidiam estudos ecológicos e decisões de manejo voltadas à conservação das espécies.
No caso dos tubarões, os números recentes divulgados pelo G1 reforçam que o Sueste não é área de maior permanência, mas sim de uso específico. Essa distinção é fundamental para orientar políticas públicas, comunicação com turistas e manutenção de restrições em pontos sensíveis do arquipélago.
A integração entre monitoramento acústico, drones e análise comparativa de áreas amplia a precisão das conclusões obtidas pelos pesquisadores.
Ciência, risco e preservação em equilíbrio
Os dados mais recentes do G1, somados à reportagem televisiva, mostram que ciência e prevenção caminham juntas em Fernando de Noronha.
A Baía do Sueste permanece fechada aos banhistas, respaldada por evidências técnicas, enquanto pesquisadores aprofundam o entendimento do comportamento dos tubarões.
Ao mesmo tempo, o monitoramento contínuo reforça que os animais estão ameaçados e precisam de áreas seguras para sobreviver.
Esse equilíbrio entre proteção humana e preservação ambiental define os rumos da gestão em Noronha e em outros biomas brasileiros monitorados pela ciência.


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