Aldecino Oliveira pesca na Lagoa do Pinicão, em Rio Branco, acompanhado da cachorrinha Amora e do jacaré Tião, em uma convivência incomum que começou há cerca de cinco anos
Em Rio Branco, capital do Acre, uma cena curiosa chama atenção: um psicólogo, professor universitário e pescador nas horas vagas se aproxima da margem de uma lagoa, chama um jacaré pelo nome e vê o animal sair da água em sua direção.
O homem é Aldecino Oliveira. O jacaré é Tião. À primeira vista, o encontro parece perigoso. No entanto, a história revelada mostra uma convivência construída aos poucos, marcada por rotina, reconhecimento e muitos cuidados.
Tudo começou há cerca de cinco anos, quando Aldecino passou a pescar por recomendação médica, após enfrentar uma crise de estresse. Nascido em região de seringal, na floresta amazônica, ele cresceu acostumado a ver animais selvagens como ameaça. Mesmo assim, a vida urbana o levou de volta à natureza.
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Relação entre psicólogo e jacaré começou durante pescaria em Rio Branco
A aproximação ocorreu de forma inesperada. Durante as pescarias, um pequeno jacaré passou a observar Aldecino de longe. Aos poucos, o animal chegou mais perto, atraído pelos peixes.
Em uma dessas ocasiões, o jacaré pegou um peixe preso no anzol e acabou ferindo a boca. Aldecino, com ajuda de um compadre, segurou o animal ainda pequeno e retirou o anzol com cuidado.
Depois desse episódio, a presença do jacaré se tornou cada vez mais frequente. Aldecino passou a chamá-lo de Tião e, desde então, começou a separar peixes para oferecer ao animal.
Lagoa do Pinicão virou ponto de encontro entre Aldecino, Amora e Tião
A rotina acontece cerca de três vezes por semana. Aldecino sai de casa com a vara de pesca, uma sacola com peixes ou miúdos de frango e a cachorrinha Amora.
Depois de uma caminhada curta, ele chega à Lagoa do Pinicão, chama Tião pelo nome e faz um som com a boca. Segundo o relato, o jacaré reconhece a voz do psicólogo e costuma aparecer em poucos minutos.
Em algumas ocasiões, Tião sobe a barreira de concreto e fica ao lado de Aldecino. O psicólogo chega a acariciar o animal, embora reconheça o risco envolvido.
Jacaré-tinga vive em água doce e pode chegar a 2,5 metros
Tião foi identificado como um jacaré-tinga, espécie presente em ambientes de água doce na região amazônica. Esse tipo de animal pode atingir até 2,5 metros de comprimento.
No caso de Tião, ele ainda é jovem e mede cerca de 1,5 metro. Mesmo assim, o porte já exige atenção. Um movimento brusco pode provocar reação defensiva.
Segundo biólogos especialistas em comportamento de jacarés, esses animais são inteligentes e podem reconhecer pessoas. Porém, a relação não deve ser interpretada como amizade humana.
Especialista alerta que vínculo com jacaré ocorre por condicionamento
De acordo com o especialista, Tião se aproxima porque associa Aldecino a algo positivo, principalmente alimento. Portanto, o comportamento está ligado ao condicionamento.
Ainda assim, o biólogo reforça um alerta importante: não é recomendado se aproximar de animais selvagens. Mesmo quando parecem calmos, eles continuam guiados por instintos naturais.
A esposa de Aldecino também demonstra medo da situação. Ela acompanha a história com distância e preocupação, especialmente quando o marido se aproxima demais do jacaré.
Antiga área de decantação de esgoto foi recuperada pela comunidade
A Lagoa do Pinicão também tem uma história curiosa. O nome surgiu porque, no passado, o espaço era usado como área de decantação de esgoto.
Segundo o relato, o local foi limpo há mais de dez anos. Depois disso, moradores começaram a reativar a lagoa, levando peixes e devolvendo vida ao ambiente.
Com a água recuperada, animais voltaram a circular pela região. Entre eles, apareceram os jacarés, incluindo Tião.
Convivência com Tião mudou a forma como Aldecino vê os próprios medos
Para Aldecino, a experiência vai além da curiosidade. Ele afirma que aprendeu com Tião uma lição sobre confiança, barreiras e convivência.
O psicólogo diz que o animal, mesmo tendo instinto de defesa, precisou “se desarmar” para permitir a aproximação. A partir disso, ele passou a refletir sobre as relações humanas.
A história, portanto, não deve ser vista como incentivo para contato com animais selvagens. Ao contrário, ela mostra uma convivência rara, específica e arriscada, construída ao longo de anos entre um homem, um jacaré e uma lagoa recuperada em Rio Branco.

