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Combustíveis fósseis viram alvo: cidades começam a proibir publicidade climática no mundo

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 07/03/2026 às 13:52
Atualizado em 07/03/2026 às 13:53
Medidas contra publicidade de combustíveis fósseis avançam em cidades da Europa e Oceania como parte de novas políticas climáticas.
Foto: IA
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Medidas contra publicidade de combustíveis fósseis avançam em cidades da Europa e Oceania como parte de novas políticas climáticas.

Diversas cidades ao redor do mundo começaram a proibir anúncios ligados a combustíveis fósseis em espaços públicos como outdoors, pontos de ônibus e telas digitais.

A iniciativa envolve administrações municipais na Europa, Oceania e outras regiões, que adotam novas políticas climáticas para reduzir o incentivo ao consumo de produtos altamente poluentes.

As medidas começaram a ganhar força entre 2024 e 2026 em cidades como Haia e Amsterdã, na Holanda, além de Estocolmo, Florença e Edimburgo.

O objetivo é combater a crise climática limitando a publicidade climática que promove combustíveis fósseis, voos de longa distância e veículos altamente emissores de carbono. 

A decisão tem sido impulsionada por governos locais, organizações ambientais e especialistas em saúde pública.

Eles argumentam que a propaganda ambiental ligada a combustíveis fósseis contribui para normalizar atividades poluentes e dificulta o avanço de estratégias globais de sustentabilidade. 

Cidades começam a restringir publicidade de combustíveis fósseis 

A cidade de Haia, na Holanda, foi uma das pioneiras ao aprovar, em 2024, uma lei municipal que proíbe anúncios de produtos com alto impacto climático. 

Sete meses após a decisão, quem circulava pela cidade já percebia a diferença.

Outdoors e painéis publicitários deixaram de exibir anúncios de carros movidos a diesel ou gasolina, além de propagandas de cruzeiros e voos para destinos distantes. 

A medida colocou Haia na liderança de uma tendência que agora se espalha por outros municípios. 

Entre os exemplos estão: 

Saint-Gilles, na Bélgica;

Estocolmo, na Suécia;

Florença, na Itália.

Além disso, em janeiro de 2026, Amsterdã se tornou a primeira capital do mundo a aprovar em lei a proibição de publicidade ligada a combustíveis fósseis

Segundo o vice-prefeito de Haia, Robert Barker, a decisão reflete um compromisso político com o clima. 

“Como Cidade Internacional da Paz e da Justiça e importante centro das Nações Unidas, consideramos importante demonstrar que falamos sério ao lidar com a crise climática.” 

Ele também ressaltou uma contradição que motivou a nova política. 

“Por isso, é realmente um tanto estranho se, em um espaço público, tivermos muitos anúncios de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, dissermos para as pessoas que ‘precisamos reduzi-los’.” 

Publicidade climática entra no centro do debate global 

O papel da publicidade no incentivo ao consumo de combustíveis fósseis passou a ser discutido com mais intensidade nos últimos anos. 

Um relatório do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas aponta que campanhas publicitárias podem normalizar atividades poluentes e minimizar seus impactos ambientais e de saúde

O tema ganhou ainda mais visibilidade em 2024, quando o secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou o setor publicitário em um discurso em Nova York. 

Segundo ele, a desinformação climática foi amplificada por campanhas promovidas pela indústria energética. 

Guterres chegou a pedir que governos ao redor do mundo proíbam a publicidade de combustíveis fósseis

A comparação também foi reforçada por especialistas da área de saúde pública. 

Maria Neira, diretora de saúde pública e clima da Organização Mundial da Saúde, descreveu os combustíveis fósseis como “o novo cigarro”

Estudo aponta impacto da propaganda ambiental no consumo 

Pesquisas acadêmicas também reforçam a preocupação com a influência da publicidade. 

Um estudo científico de 2023, elaborado para legisladores holandeses, concluiu que anúncios ligados a combustíveis fósseis: 

incentivam comportamentos insustentáveis;

reforçam padrões de consumo poluentes;

dificultam a implementação de políticas climáticas.

A diretora da rede internacional de cidades C40, Cassie Sutherland, afirma que a influência da publicidade é significativa. 

“Sabemos que a propaganda realmente é uma grande promotora do consumo insustentável.” 

Ela acrescenta: 

“Os anunciantes não gastariam bilhões e mais bilhões de dólares todos os anos, se não estivessem influenciando o comportamento das pessoas.” 

Novas políticas climáticas se espalham por outras cidades 

O movimento de restrição à publicidade climática está avançando rapidamente em diversos países. 

No Reino Unido, várias cidades já adotaram medidas semelhantes. 

Entre elas: 

Edimburgo, que proibiu anúncios de companhias aéreas, SUVs e empresas de combustíveis fósseis;

Sheffield, que restringiu publicidade que incentive aumento de voos;

Portsmouth, que aprovou uma política similar em 2026.

Enquanto isso, na Austrália, 19 jurisdições já votaram ou implementaram restrições à propaganda ambiental ligada aos combustíveis fósseis, incluindo a cidade de Sydney. 

Na Nova Zelândia, o conselho regional de Wellington suspendeu anúncios desse tipo no transporte público. 

Belinda Noble, fundadora da organização Comms Declare, defende o papel das cidades na mudança. 

Segundo ela, os governos locais possuem grande influência sobre o que os cidadãos veem diariamente. 

“Eles reagem mais às necessidades da comunidade e, normalmente, estão menos sujeitos aos interesses da indústria ou de grandes doadores de gás e carvão.” 

Proibições enfrentam desafios legais e políticos 

Apesar do avanço da iniciativa, nem todas as cidades conseguiram implementar restrições. 

Em Toronto, no Canadá, uma proposta semelhante foi rejeitada em 2025. 

Assim, as autoridades locais argumentaram que seria difícil definir se determinados anúncios poderiam ser considerados enganosos ou prejudiciais. 

Nos Estados Unidos, o desafio é ainda maior. 

Assim, a professora de direito Ellen Goodman, da Faculdade de Direito Rutgers, explica que a Primeira Emenda da Constituição americana protege a publicidade, o que torna qualquer restrição sujeita a rigorosa análise judicial. 

Por isso, ativistas climáticos no país têm concentrado esforços em ações legais contra empresas de combustíveis fósseis. 

Proibir publicidade de combustíveis fósseis realmente funciona? 

Embora as medidas ainda sejam recentes, especialistas analisam experiências semelhantes em outras áreas. 

Em Londres, por exemplo, a operadora de transporte público Transport for London (TfL) proibiu anúncios de alimentos não saudáveis em 2019. 

O resultado foi significativo. 

Famílias passaram a comprar cerca de 1 mil calorias a menos por semana, com redução no consumo de doces e chocolates. 

Outros exemplos também indicam resultados positivos: 

No Chile, restrições à publicidade de fast food reduziram em 24% a compra de bebidas açucaradas

A proibição de propaganda de cigarros contribuiu para queda global no consumo de tabaco. 

Segundo Sutherland, esses dados indicam que limitar anúncios pode alterar comportamentos de consumo. 

“Existem claras evidências de que as proibições à publicidade realmente causam impacto.” 

Ela ressalta, no entanto: 

“Ainda não temos os dados sobre as proibições de anúncios de combustíveis fósseis… mas esperamos ver algo similar.” 

Críticos alertam para riscos de greenwashing 

Assim, apesar dos benefícios potenciais, especialistas também apontam desafios. 

Um deles é o chamado greenwashing, quando empresas promovem produtos mais sustentáveis para melhorar sua imagem sem reduzir de fato suas atividades poluentes. 

Além disso, anúncios proibidos em um espaço podem migrar para outros meios, especialmente na internet. 

Outro desafio é definir limites claros para as regras. 

O vice-prefeito de Haia levanta um exemplo. 

“Se você tiver um anúncio de um dado país que só pode ser visitado de avião, é permitido?” 

Combate à crise climática exige mais que restrições publicitárias 

Então especialistas destacam que a proibição de publicidade de combustíveis fósseis não resolve o problema sozinha. 

As cidades que adotam a medida geralmente combinam a restrição com outras iniciativas. 

Em Haia, por exemplo, o governo municipal investe na expansão de pontos de carregamento para carros elétricos e oferece empréstimos sem juros para instalação de sistemas de aquecimento mais eficientes. 

Segundo Barker, a comunicação pública também foi fundamental. 

“Nós nos concentramos em explicar por que é importante enfrentar a crise climática e que os anúncios nos espaços públicos estimulam o oposto.” 

Portanto para muitos especialistas, o objetivo principal das restrições é questionar a presença normalizada dos combustíveis fósseis na vida cotidiana

“Acho que a comparação com o cigarro é muito precisa”, afirma Barker. 
“Fumar destrói os nossos pulmões e os combustíveis fósseis destroem os pulmões do planeta.” 

E conclui: 

“Por que incentivar algo que tem efeitos devastadores para a Terra?” 

Veja mais em: Novo cigarro? As cidades que estão proibindo propagandas ligadas aos combustíveis fósseis – BBC News Brasil

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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