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Com telões de LED na Ipiranga com a São João, São Paulo flerta com uma Times Square, reacende disputa sobre publicidade, gentrificação e põe a Lei Cidade Limpa em xeque

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Escrito por Carla Teles Publicado em 12/03/2026 às 09:59
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Telões reacendem publicidade, revitalização e Lei Cidade Limpa no centro de São Paulo.
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Os telões reacendem no centro de São Paulo um debate sobre publicidade, revitalização e Lei Cidade Limpa.

No papel, o projeto promete atrair visitantes, reforçar a sensação de segurança e impulsionar melhorias em áreas próximas. Na prática, porém, os telões jogam luz sobre um conflito mais profundo: que tipo de cidade São Paulo quer construir para o seu centro histórico e quem realmente será beneficiado por essa transformação.

A discussão sobre os telões não se resume a gostar ou não de uma paisagem mais iluminada e chamativa. O que está em jogo é a forma como o espaço urbano passa a ser usado, regulado e valorizado. Quando um cruzamento simbólico da cidade começa a ser tratado como vitrine visual e ativo econômico, a pergunta inevitável surge: isso melhora a vida cotidiana de quem vive e circula ali ou apenas muda a embalagem do problema?

A polêmica cresce porque o projeto surge em uma área carregada de memória, infraestrutura, comércio popular, circulação intensa e também vulnerabilidades urbanas. Por isso, os telões acabam funcionando como símbolo de uma disputa entre dois modelos de cidade: um centrado na imagem, no consumo e na valorização do solo, e outro focado em moradia, transporte, permanência e qualidade ambiental.

Como funciona o projeto dos telões na região central

A proposta aprovada prevê a instalação de cinco grandes telões de LED em prédios localizados no cruzamento da Ipiranga com a São João.

Segundo a base anexada, esses painéis só poderão ser colocados em edifícios que não sejam protegidos pelo patrimônio histórico.

No caso do prédio do Bar Brahma, por exemplo, a solução prevista seria projeção de luz na fachada, e não a instalação direta do equipamento.

O modelo apresentado funciona por contrapartida. A empresa envolvida se comprometeu a investir R$ 2 milhões por ano, durante três anos, em melhorias na região central.

O custo total estimado do projeto, junto com a implantação e humanização dos painéis, foi apontado em R$ 53 milhões. Ou seja, não se trata de uma simples intervenção visual, mas de uma operação urbana com efeitos econômicos e políticos relevantes.

Entre os espaços incluídos nas melhorias estão a Praça Júlio Mesquita, o Largo do Paiçandu, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e o relógio da região.

O argumento oficial é que os telões ajudariam a impulsionar uma renovação urbana mais ampla, com ganhos para o centro histórico.

O conteúdo exibido nos telões é um dos pontos mais sensíveis

Um dos aspectos mais polêmicos do projeto envolve justamente o que poderá aparecer nos telões. No início, segundo a base, a prefeitura afirmou que não haveria publicidade comercial direta. Depois, a formatação final indicou outro desenho.

Pelo arranjo aprovado, 70% do conteúdo exibido deverá ser cultural e institucional. Os 30% restantes poderão ser destinados aos apoiadores do projeto, o que na prática abre espaço para publicidade empresarial.

É exatamente nesse ponto que a tensão aumenta, porque a proposta deixa de ser apenas um experimento de comunicação urbana e passa a tocar de frente na lógica da Lei Cidade Limpa.

Lei Cidade Limpa entra no centro da controvérsia

Os telões reacendem o debate sobre uma das legislações urbanas mais conhecidas de São Paulo. Criada em 2006, a Lei Cidade Limpa ficou marcada por restringir outdoors e limitar a publicidade em fachadas, reduzindo drasticamente a poluição visual da cidade.

A nova proposta levanta receios porque pode abrir uma brecha simbólica e prática nessa legislação. Se hoje os telões aparecem como exceção em um ponto específico e com justificativa de revitalização, amanhã outras áreas poderão reivindicar o mesmo tratamento.

É por isso que a discussão não fica presa à esquina da Ipiranga com a São João. O que se teme é a criação de precedente.

A base menciona ainda o Projeto de Lei 239 de 2023, que propõe mudanças na Lei Cidade Limpa e amplia possibilidades de instalação publicitária em determinadas situações.

Entre os pontos levantados estão alterações em regras sobre reflexo, brilho, visualização de bens de valor cultural e tamanho permitido de anúncios. Nesse contexto, os telões aparecem como peça de um movimento maior de flexibilização.

A disputa urbana vai além da publicidade

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A reação crítica ao projeto não nasce apenas da defesa do patrimônio ou da legislação. O problema, para muitos urbanistas e especialistas, é que os telões podem atuar como catalisadores de um processo mais amplo de valorização imobiliária e transformação do centro em produto visual.

Quando uma área degradada ou subutilizada recebe investimentos que a tornam mais atraente para turistas, marcas e novos empreendimentos, ela passa a ser vista também como oportunidade de lucro. É aí que a revitalização pode virar gatilho para gentrificação.

O solo valoriza, os aluguéis sobem, os impostos pesam mais e a população original começa a ser pressionada a sair.

No caso do centro de São Paulo, essa preocupação é ainda maior porque a região abriga moradores de baixa renda, pequenos comerciantes, ocupações e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Os telões, nesse cenário, não seriam apenas instrumentos de modernização visual, mas parte de uma reconfiguração social e econômica mais profunda.

Centro histórico já vive uma disputa por valorização

A base lembra que o centro de São Paulo passou por vários ciclos ao longo do tempo. Durante boa parte do século passado, concentrou bancos, empresas, poder político e serviços de alto valor.

Depois, com a migração dos investimentos para outras regiões, como Paulista, Faria Lima e Berrini, a área perdeu parte do protagonismo econômico.

Essa mudança abriu espaço para novas ocupações urbanas, com moradores atraídos pela infraestrutura existente, pela rede de transporte e pela proximidade do trabalho. Hoje, o centro reúne uma mistura intensa de usos, conflitos e interesses.

Nesse quadro, os telões aparecem como um possível capítulo de uma nova onda de revalorização, agora ancorada em turismo, espetáculo e consumo.

A base também relaciona o caso ao PIU Setor Central, projeto que prevê atrair cerca de 220 mil novos moradores e levantar arrecadação com instrumentos urbanísticos.

O ponto crítico é que, embora haja previsão de recursos para habitação de interesse social, faltariam garantias mais concretas para proteger quem já vive na região.

Sem essa proteção, qualquer revitalização corre o risco de expulsar justamente quem manteve o centro vivo em períodos de abandono.

Poluição luminosa e impacto ambiental entram no debate

Outro ponto levantado é o efeito dos telões sobre a paisagem noturna e o ambiente urbano. A crítica não se resume ao gosto visual.

A base menciona impactos associados à poluição luminosa, como perturbação do sono, aumento de estresse, desorientação de aves, alteração em insetos polinizadores e mudanças no comportamento das plantas.

Há também uma preocupação térmica. Os telões somam emissão de luz e calor em uma área já marcada por asfalto, superfícies duras, ar-condicionado e pouca arborização em vários trechos.

Em uma cidade que já sofre com ilhas de calor, adicionar mais carga luminosa e térmica não parece um detalhe menor.

Nesse sentido, a proposta entra em choque com uma visão mais contemporânea de urbanismo, que valoriza sombreamento, áreas verdes, permeabilidade, conforto ambiental e permanência cotidiana. O risco é trocar qualidade urbana real por impacto visual de curto prazo.

O fantasma do urbanismo de espetáculo

A crítica mais ampla presente na base é a de que os telões se encaixam em um modelo de urbanismo de espetáculo.

Nesse tipo de lógica, a cidade passa a ser tratada como vitrine, produto turístico e mercadoria visual, organizada para atrair visitantes, investidores e consumo.

O problema é que, quando isso acontece, o espaço público pode deixar de ser planejado prioritariamente para quem mora e vive a cidade no dia a dia. Ele passa a funcionar mais como cenário do que como lugar de convivência.

A paisagem vira plataforma de publicidade e entretenimento, enquanto necessidades estruturais seguem sem resposta equivalente.

A menção ao Vale do Anhangabaú reforça essa desconfiança. A base cita que uma grande revitalização recente acabou sendo percebida como excessivamente concretada, com menos vegetação e foco mais forte em eventos do que em permanência cotidiana.

Para quem olha com cautela, os telões podem repetir essa lógica de transformação visual com resultados urbanos limitados.

Há alternativas mais profundas para revitalizar o centro

Em vez de apostar apenas em telões e impacto midiático, a base sugere olhar para modelos urbanos que reorganizam a cidade a partir da convivência, do pedestre e da redução de carros.

O exemplo citado é o das superquadras de Barcelona, que limitam o tráfego em áreas internas, ampliam espaços públicos e favorecem arborização, uso comunitário e bem-estar.

A lógica é outra. Em vez de transformar a cidade em espetáculo, a proposta é transformá-la em lugar de uso diário mais qualificado.

Menos ruído, menos poluição, mais áreas verdes, mais segurança cotidiana e mais convivência entre moradores. É uma ideia de revitalização que atua sobre a vida urbana concreta, e não apenas sobre a imagem da cidade.

Se algo semelhante fosse aplicado em partes do centro de São Paulo, os ganhos poderiam vir da caminhabilidade, da redução do trânsito intenso, da criação de espaços de convivência e de uma infraestrutura mais inclusiva.

Nesse tipo de abordagem, os telões deixam de ser solução principal e passam a parecer um recurso bastante limitado diante da escala dos problemas.

O que os telões realmente revelam sobre São Paulo

No fim, a polêmica não é só sobre LED, publicidade ou referência visual à Times Square. Os telões revelam uma disputa sobre prioridades urbanas.

Eles colocam frente a frente a cidade como valor de troca, impulsionada por mercado, turismo e visibilidade, e a cidade como valor de uso, voltada para moradia, bem-estar, transporte e permanência.

Isso não significa negar qualquer intervenção privada ou rejeitar toda tentativa de requalificação visual. Significa perguntar se o caminho escolhido responde aos problemas reais da região ou apenas cria uma nova camada de marketing sobre velhas contradições. Revitalizar não é o mesmo que iluminar mais.

Se o objetivo for de fato fortalecer o centro histórico, talvez São Paulo precise discutir menos a sedução dos telões e mais o tipo de cidade que quer oferecer a quem mora, trabalha e circula ali todos os dias.

Você acha que os telões podem realmente revitalizar o centro de São Paulo ou eles só devem acelerar publicidade e gentrificação?

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Carla Teles

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