Um galpão de 750 m² na Marginal Tietê produz 2 toneladas de alfaces e ervas por mês sem solo, sem sol e com colheita diária para supermercados da capital.
Em meio ao concreto e ao tráfego incessante da Marginal Tietê, na Vila Leopoldina, um galpão de 750 metros quadrados abriga a primeira fazenda vertical comercial da América Latina.
Ali, a Pink Farms opera como um laboratório vivo, onde alfaces, rúculas e ervas aromáticas crescem em torres de oito andares, sem um grama de solo ou exposição ao sol.
Fundada em 2016 por três engenheiros – os gêmeos Mateus e Rafael Delalibera, formados em engenharia elétrica pela USP, e Geraldo Maia, engenheiro de produção pela UFSCar –, a operação transformou um espaço urbano ocioso em uma unidade produtiva que entrega 2 toneladas de folhas por mês diretamente aos supermercados paulistanos.
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Essa abordagem, que combina hidroponia com iluminação artificial, permite colheitas contínuas ao longo do ano, eliminando as perdas pós-colheita que chegam a 40% na agricultura tradicional brasileira.
Como a fazenda vertical corta emissões e entrega no mesmo dia
A inovação surge de uma necessidade urbana palpável: com a população de São Paulo ultrapassando 12 milhões de habitantes e a demanda por alimentos frescos crescendo 5% ao ano, segundo dados do IBGE, o transporte de hortaliças do interior para a capital gera emissões de CO2 equivalentes a 1,5 tonelada por tonelada de produto.
A Pink Farms corta essa cadeia pela raiz, produzindo a 5 quilômetros de distância dos pontos de venda como Mambo, Oba Hortifrutti e Eataly.
Os produtos chegam às prateleiras no mesmo dia da colheita, embalados e prontos para consumo, sem necessidade de lavagem.
“Tudo que produzimos é vendido; não há estoque ou desperdício”, explica Rafael Delalibera, cofundador da empresa, em entrevista ao Projeto Draft em agosto de 2025.
Essa logística zero km reduz as emissões de carbono em 90%, conforme cálculos internos validados por relatórios da FAO sobre agricultura urbana.
Hidroponia e economia de 95% no consumo de água

O coração da operação está no sistema hidropônico, onde as raízes das plantas flutuam em soluções nutritivas recirculantes.
Água e minerais – como nitrogênio, potássio e fósforo – são dosados por sensores automatizados que monitoram pH, salinidade e umidade em tempo real.
Diferente das lavouras de campo, que demandam 300 litros de água por quilo de alface, aqui o consumo cai para 15 litros por quilo, uma economia de 95% confirmada por estudos da Embrapa Hortaliças em parcerias semelhantes com fazendas indoor.
A solução é reciclada continuamente, com apenas 5% de reposição semanal, evitando o descarte de efluentes e minimizando o impacto em recursos hídricos escassos, como o Sistema Cantareira, que atende a metrópole paulista.
Torres de 8 andares e produtividade 75 vezes maior
Acima das raízes, as plantas se erguem em camadas empilhadas, otimizando cada centímetro quadrado.
As torres, com 7 metros de altura, abrigam oito níveis de cultivo, permitindo que 750 metros quadrados de galpão equivalham a 5.250 metros quadrados de área plantada horizontal.
Essa verticalização eleva a produtividade em 75 vezes por metro quadrado de piso, de acordo com métricas divulgadas pela empresa e corroboradas por relatórios da ONU sobre fazendas verticais.
Em uma safra tradicional no interior de São Paulo, um hectare rende cerca de 20 toneladas de folhosas por ano; na Pink Farms, os 600 metros quadrados de área produtiva geram o equivalente a 3 hectares convencionais.
Espécies como alface hidropônica, rúcula selvagem e microgreens de manjericão completam o ciclo em 25 a 35 dias, contra 45 dias no campo, graças ao controle ambiental que simula estações ideais: 22 graus Celsius de temperatura, 70% de umidade e ciclos de 16 horas de luz.
Luzes LED rosa que substituem o sol
As luzes LED, importadas dos Estados Unidos e instaladas em painéis rosados – resultado da combinação de comprimentos de onda azul (para crescimento foliar) e vermelho (para fotossíntese) –, substituem o sol de forma precisa.
Elas consomem 60% menos energia que lâmpadas convencionais e emitem pouco calor, evitando a evaporação excessiva.

“A luz rosa não é só estética; ela acelera o desenvolvimento em 20% e aumenta o teor de nutrientes nas folhas”, detalha Geraldo Maia em reportagem da Globo Rural de abril de 2024.
Sensores IoT, integrados a um software proprietário, ajustam a intensidade luminosa por planta: rúculas recebem mais azul para folhas crocantes, enquanto ervas como coentro ganham vermelho extra para óleos essenciais.
Essa automação, desenvolvida pela equipe de P&D da Pink Farms, inclui alertas para patógenos, eliminando 99% do uso de agrotóxicos – o Brasil é o maior consumidor mundial desses produtos, com 500 mil toneladas anuais, segundo a Anvisa.
Ambiente esterilizado e colheita sem pragas
O ambiente fechado vai além da eficiência: ele cria uma barreira natural contra pragas e variações climáticas.
Visitantes entram vestindo toucas, máscaras e protetores de calçados para manter a esterilidade, semelhante a um centro cirúrgico.
Sem solo, fungos como Fusarium ou insetos como pulgões não proliferam, reduzindo perdas para menos de 1%.
Os fertilizantes, 60% menores que no convencional, são de origem mineral precisa, evitando excessos que poluem rios como o Tietê.
Em 2024, a fazenda compostou 148 toneladas de resíduos orgânicos localmente, transformando-os em adubo para hortas comunitárias na Zona Oeste, conforme balanço divulgado pela empresa em janeiro de 2025.
Expansão com R$ 15 milhões e nova unidade em 2026
A expansão reforça o impacto.
Em agosto de 2025, a Pink Farms captou R$ 15 milhões em uma rodada Série A liderada pela SLC Ventures, braço de inovação da maior produtora agrícola do Brasil.
Os recursos financiam uma nova unidade na Zona Oeste de São Paulo, triplicando a capacidade para 6 toneladas mensais até 2026.
“Vamos multiplicar sementes de grãos com a mesma tecnologia, unindo campo e cidade”, afirma Carlos Eduardo Aranha, da SLC, em matéria do Pipeline Valor.

Parcerias com a Embrapa, iniciadas em 2021, testam variedades como morango e tomate em ambientes indoor, com resultados preliminares mostrando ciclos 30% mais curtos.
Hoje, mais de 50 tipos de plantas – incluindo PANCs como ora-pro-nóbis – abastecem 250 pontos de venda, com preços entre R$ 8,50 e R$ 9 por alface, posicionando-se entre o convencional e o orgânico.
O crescimento das fazendas verticais no Brasil
Essa revolução urbana se alinha a uma tendência global: o mercado de fazendas verticais deve saltar de US$ 3,3 bilhões em 2021 para US$ 9,7 bilhões em 2026, per MarketsandMarkets.
No Brasil, onde 87% da população é urbana e a demanda por folhosas cresce 7% ao ano (Cepea/USP), modelos como o da Pink Farms complementam o agronegócio tradicional, que responde por 23% do PIB.
Outras iniciativas, como a Be Green em shoppings de cinco estados, produzem 28 vezes mais que o rural convencional.
Em São Paulo, onde o valor da produção agropecuária atingiu R$ 147,9 bilhões em 2024 (IEA/SP), a agricultura vertical adiciona sustentabilidade sem competir por terras férteis.
Os desafios persistem, como a conta de luz – que representa 40% dos custos operacionais, segundo o Projeto Draft – e a necessidade de certificações adaptadas à hidroponia, ainda não enquadrada como orgânica pela legislação brasileira.
Ainda assim, a Pink Farms demonstra viabilidade: em 2024, gerou 70 empregos diretos, priorizando mão de obra local treinada em automação agrícola.
Produtos como a alface “pós-orgânica” chegam com maior durabilidade – até 14 dias na geladeira – e concentrações elevadas de vitaminas, testadas em laboratórios parceiros.
Com o aquecimento global projetando perdas de 20% na safra de hortaliças até 2030 (Embrapa), fazendas como essa pavimentam um caminho para cidades autossuficientes.
Mas até onde essa tecnologia pode levar o prato do brasileiro comum, transformando galpões cinzentos em fontes de saladas frescas e sem pegada ecológica?

Como sempre as pessoas nunca estão satisfeitos com sucesso dos outros, sem saberem que no campo não tem mais mão de obra (funcionário) com essa nova forma de cultivo facilita empregabilidade e continuamos tendo alimentos saudável sem perda de seus componentes pois para os ignorantes que não sabem luzes fazer papel sol.
Pode até ser bonito de se ver mas não tem o mesmo sabor da terra ! Isso é só mais um produto industrializado e que visa lucros, menosprezando os coitados que sempre batalharam no campo de baixo de Sol e Chuva pra produzir alimentos pra todos! E mais ! Eles otimizam o uso de água diretamente mas e os 40 % do custo operacional que é de energia elétrica??? Vem de onde ????
Custo muito alto para produzir alimentos cheios de anti nutrientes.