Com 8 anos trabalhando na lavoura, o homem aprendeu a transformar o fumo em renda, criou três filhos na roça, manteve horta, porcos e galinhas, diversificou com milho e silagem e hoje sustenta, em família, uma tradição artesanal quase desaparecida no interior de Minas, entre trabalho diário, fé e resistência
Desde criança, o homem que nunca saiu da roça aprendeu que o relógio do campo não tem folga nem fim de semana. Aos 8 anos, ele já trabalhava para outros produtores de fumo na zona rural de Rio Pomba, em Minas Gerais, cuidando da lavoura enquanto muitos colegas ainda dividiam o tempo entre escola e brincadeiras. Ali ele começou a entender, na prática, quanto esforço cabia em cada folha pendurada no varal.
Décadas depois, o mesmo homem continua vivendo do que a terra oferece, agora em sua própria propriedade, cercado pela família. Entre pés de fumo, lavouras de milho para silagem, horta, porcos e galinhas, ele construiu uma rotina em que o trabalho manual, a experiência acumulada e a cooperação dos filhos mantêm de pé uma cadeia produtiva pequena, mas resiliente, típica de um interior que resiste à migração para a cidade.
Infância na roça e início no trabalho

Nascido e criado na zona rural, o homem cresceu em um ambiente onde o fumo já era cultura dominante.
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O serviço surgiu cedo, antes mesmo da adolescência, primeiro ajudando em propriedades alheias, no sistema tradicional em que a mão de obra infantil era absorvida pela rotina da lavoura.
Ele próprio admite que nunca se encantou pela escola. Preferia o campo, a lida, a sensação de produzir algo concreto ao final do dia.
O trabalho pesado se tornou linguagem principal desde cedo, muito antes de pensar em ter sua própria plantação.
Nesse contexto, o aprendizado não veio de livros, mas da observação dos mais velhos e da repetição diária de tarefas.
Do trabalho para outros à produção própria de fumo

Com o tempo, o trabalhador deixou de atuar apenas como empregado para produtores maiores e passou a plantar o próprio fumo.
Comprou mudas, aprendeu a manejar a cultura e fincou raízes definitivas na área rural do município.
Na região, a produção de fumo é tradicional, e muitas famílias, assim como a dele, dependem dessa atividade como fonte central de renda.
A operação é totalmente manual. Desde a compra das mudas, o preparo da terra, o plantio e o replantio, até a colheita por etapas, tudo é decidido no detalhe.
Cada pé de fumo significa meses de cuidado diário, com adubação, controle de pragas, capinas e, quando necessário, irrigação.
Em anos de seca mais intensa, a irrigação passa a ser decisiva para evitar perdas significativas.
Rotina de plantio, colheita e cura artesanal

O calendário da lavoura é bem definido. O fumo é plantado no começo do ano, em geral entre fevereiro e abril, aproveitando o fim das chuvas.
Depois de cerca de 90 dias, começa a primeira colheita das folhas mais baixas. As demais são retiradas em etapas, conforme a planta amadurece.
As folhas são levadas ao rancho, penduradas em varas de bambu e colocadas para secar à sombra durante cerca de duas semanas, dependendo do clima.
Em seguida, entram na fase de “vira” diária: todos os dias o fumo precisa ser manuseado, reorganizado e girado, para que a umidade se distribua e o material não mofe nem azede.
Depois vem a destala, feita à mão, folha por folha, retirando o talo e separando o que é aproveitável.
As folhas são então enroladas em cordas, processo conhecido como fiar o fumo. Nessa etapa, entra apenas água em quantidade controlada, sem aditivos.
A umidade ativa o “mel do fumo”, que escurece a massa até chegar ao tom característico. O produto cura por cerca de 30 dias, com novas viras, até atingir o ponto ideal de venda.
Trabalho em família e sucessão na pequena propriedade
Hoje, o homem divide a rotina com os filhos, que ajudam em quase todas as etapas.
Um deles mora na propriedade, outro comparece diariamente para colaborar na lavoura, e um terceiro trabalha em área própria, voltada para milho e leite, mas ainda participa em momentos-chave da safra.
Essa divisão permite manter o volume de trabalho, que inclui não só o fumo, mas também as frentes paralelas de milho para silagem, criação de porcos, galinhas e cultivo de hortaliças.
A renda principal continua vindo do fumo, mas a diversificação funciona como proteção mínima contra oscilações de preço e de clima.
Ao mesmo tempo, o pai transmite aos filhos não apenas a técnica, mas uma visão de conduta. Ele enfatiza disciplina, honestidade nas vendas e cautela com dívidas.
A satisfação declarada está em ver que os filhos seguiram “um caminho legal”, longe de atividades ilícitas e totalmente integrados à dinâmica da agricultura familiar.
Horta, animais e segurança alimentar no sítio
Além do fumo, a propriedade abriga uma horta ativa, com alface, repolho, couve, beterraba, ervas e outras culturas plantadas em ciclos curtos.
Muitas mudas vieram junto com as bandejas de fumo e, a partir daí, o plantio de hortaliças se consolidou como hábito.
O homem e a família produzem mais do que conseguem consumir em alguns momentos, distribuindo excedentes para vizinhos.
A horta funciona como complemento nutricional e também como amortecedor de custos, reduzindo a dependência do mercado para itens básicos.
No entorno, galinhas caipiras fornecem ovos e carne, enquanto um casal de porcos cresce para futura engorda ou reprodução.
A ideia é manter um fluxo contínuo de proteína animal para consumo próprio, com eventual venda de excedentes.
Essa combinação de atividades caracteriza um modelo clássico de pequena unidade rural diversificada, em que nada é em grande escala, mas tudo compõe o sustento.
Riscos, esforço físico e escolhas de saúde
O trabalho com fumo é exaustivo e exige atenção constante à segurança. Máquinas simples, como o “burro” usado para torcer as cordas de fumo, podem causar acidentes graves nas mãos de quem se distrai.
O produtor já teve roupas e mãos puxadas pela engrenagem, mas conseguiu interromper o movimento a tempo.
Ele também convive diariamente com o cheiro intenso do produto em cura. Mesmo assim, decidiu não fumar.
O homem que vive do fumo não consome o que produz, reforçando que sua relação com a cultura é econômica e profissional, não de hábito.
Ele comenta que, em alguns dias, o cheiro é tão forte que provoca tontura e irritação na garganta, sobretudo quando o sol aquece o rancho e o ar fica saturado.
Mercado, clientes e permanência na roça
A comercialização é direta.
Os compradores chegam da região, de cidades vizinhas como Ubá, Tocantins ou Piraúba, já conhecendo o produtor e o padrão do fumo que ele oferece.
As vendas podem ser feitas em pedaços, em cordas inteiras ou em bolas, sempre com peso conferido na balança e com a confiança construída ao longo dos anos.
Embora o mercado tenha encolhido e o número de produtores locais seja bem menor que no passado, o trabalho ainda se sustenta para quem domina o processo e aceita a rotina intensa.
O homem prefere seguir na roça a tentar um recomeço na cidade, onde o custo de vida é mais alto e o tipo de trabalho seria completamente diferente daquilo que ele conhece desde criança.
Entre a necessidade de seguir produzindo e o apego à terra, ele escolheu permanecer.
Criou três filhos ali, viu chegar e ir embora ciclos de preços melhores e piores, enfrentou pragas, chuvas irregulares e incertezas, mas manteve o mesmo eixo: viver da agricultura e da pecuária, com o fumo como atividade central.
E você, conseguiria abrir mão da vida urbana para viver como esse homem, trabalhando todos os dias e tirando o sustento apenas da roça?

Linda história