Projeto brasileiro testa como baterias retiradas de ônibus elétricos podem ganhar nova função fora das ruas, com uso em armazenamento de energia solar, avaliação técnica de células reaproveitadas e participação de CPQD, CPFL Energia, BYD e Unicamp na etapa de validação.
Baterias de lítio-íon retiradas de ônibus elétricos da BYD passaram a integrar um projeto brasileiro voltado a ampliar o uso desses componentes antes da reciclagem final.
A iniciativa reúne CPQD, CPFL Energia e BYD em testes com sistemas estacionários capazes de armazenar energia solar e apoiar outras aplicações fora dos veículos.
Com o avanço da eletrificação do transporte, cresce também a necessidade de definir o destino de baterias que já não entregam a autonomia exigida por ônibus, carros e outros veículos.
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Ainda assim, parte desses componentes pode conservar capacidade suficiente para operar em usos menos severos, especialmente em sistemas fixos de armazenamento de energia.
Nesse intervalo entre o uso automotivo e a reciclagem, ganha espaço a chamada segunda vida, etapa em que células reaproveitadas são avaliadas, reorganizadas e integradas a novos sistemas.
A proposta busca evitar que baterias ainda úteis sejam tratadas imediatamente como resíduo, desde que apresentem desempenho, segurança e estabilidade para outra aplicação.
Segundo o CPQD, a duração de uma bateria de lítio-íon em veículo elétrico costuma ficar em torno de 8 a 10 anos, a depender das condições de uso.
Após esse período, a perda gradual da capacidade de armazenar energia reduz a autonomia percebida pelo usuário e limita o aproveitamento do componente na operação automotiva.
Fora dos veículos, porém, essas baterias ainda podem cumprir funções estacionárias, com menor exigência de peso, potência instantânea e resposta dinâmica.
Entre as aplicações estudadas estão o armazenamento de energia gerada por sistemas fotovoltaicos, o suporte a fontes renováveis intermitentes e o uso como backup em estações de telecomunicações, com estimativa de mais 5 a 10 anos de aproveitamento.
Segunda vida das baterias da BYD no Brasil
Nos testes iniciais, baterias degradadas de ônibus elétricos fornecidas pela BYD passaram por ensaios e medições em laboratório para verificar o potencial de reaproveitamento.
Ao todo, pesquisadores analisaram cerca de 500 células e identificaram quais delas ainda apresentavam condições adequadas de desempenho, segurança e confiabilidade para formar uma bateria de segunda vida.
Essa triagem é necessária porque uma bateria veicular não funciona como uma peça única, mesmo que o conjunto seja tratado dessa forma na operação diária.
Cada pack reúne várias células, e o comportamento individual de cada uma interfere no desempenho final, especialmente quando o objetivo é montar um sistema previsível para instalação elétrica.
Na avaliação do CPQD, a seleção das células mais adequadas dependeu de uma metodologia específica, desenvolvida para separar componentes com maior potencial de reaproveitamento.
A etapa técnica permitiu diferenciar células que ainda poderiam integrar um novo sistema daquelas que já não atendiam às exigências do uso estacionário.
Além da seleção física das células, o CPQD desenvolveu algoritmos e um protótipo de bateria de segunda vida para validar o funcionamento do conjunto.
A solução inclui hardware, estrutura mecânica e sistema de gerenciamento conhecido como BMS, sigla em inglês para Battery Management System, responsável por monitorar parâmetros essenciais de operação.
Como essas baterias já passaram por ciclos anteriores de carga e descarga, o gerenciamento eletrônico se torna uma etapa central para manter o sistema dentro de limites seguros.
O acompanhamento de funcionamento, comportamento térmico, degradação e estabilidade ajuda a reduzir riscos técnicos antes de qualquer aplicação em campo.
Energia solar na Unicamp entra na etapa de validação
Entre as fases mais relevantes do projeto está o uso do protótipo em associação com painéis solares instalados na Universidade Estadual de Campinas.
A CPFL informou que a prova de conceito ocorre no Laboratório de Redes Elétricas Inteligentes, o labREI, localizado na Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp.
Nesse ambiente, o sistema pode ser avaliado em conjunto com estruturas fotovoltaicas instaladas no prédio, em condições próximas às de uma aplicação real.
O objetivo é verificar o desempenho do armazenamento, a qualidade da energia entregue à rede e a resposta da bateria quando a geração solar varia ao longo do dia.
Esse uso ajuda a explicar por que uma bateria menos eficiente para transporte ainda pode ter valor em outro setor.
Enquanto um ônibus elétrico exige autonomia, potência, repetição de recargas e desempenho compatível com rotas urbanas, um sistema estacionário trabalha com outro perfil de demanda.
Em vez de mover um veículo pesado por horas, a bateria passa a armazenar eletricidade para uso posterior e a apoiar a gestão da energia produzida localmente.
A função é especialmente relevante para fontes intermitentes, como a solar, cuja produção muda conforme a incidência de luz, a presença de nuvens e o horário de consumo.
Armazenamento de energia e normas técnicas
A CPFL Energia informou que o projeto gerou resultados como publicação de três patentes, proposição de normas técnicas, dados laboratoriais e algoritmos voltados a estimar e verificar o comportamento das baterias.
Também foram realizados estudos econômicos, desenvolvimento de hardware e firmware, empacotamento mecânico e uso de técnicas de inteligência artificial.
Essas etapas mostram que o reaproveitamento não se resume a retirar uma bateria do ônibus e instalá-la em outro local.
Para funcionar com segurança, o processo exige diagnóstico, padronização, controle eletrônico e validação de desempenho durante a transição entre o uso automotivo e o uso estacionário.
O projeto faz parte de uma chamada pública da Agência Nacional de Energia Elétrica, lançada em 2019, voltada ao desenvolvimento de soluções em mobilidade elétrica eficiente.
Com isso, a iniciativa aproxima dois movimentos em expansão no país: a eletrificação do transporte e a busca por armazenamento para fontes renováveis.
Para o setor elétrico, baterias reaproveitadas podem abrir alternativas de armazenamento com componentes que ainda têm vida útil.
Na mobilidade elétrica, a segunda vida ajuda a responder uma questão inevitável: o que fazer com grandes packs quando eles deixam de atender às exigências das ruas?
Baterias reaproveitadas antes da reciclagem
Embora não substitua a reciclagem, o modelo adia essa etapa e extrai mais valor de componentes que já consumiram recursos industriais para serem produzidos.
Antes de virar resíduo definitivo, a bateria pode passar por uma fase intermediária, com função energética e critérios técnicos de reaproveitamento.
À medida que mais ônibus e carros elétricos entram em circulação, iniciativas desse tipo tendem a ganhar relevância industrial e regulatória.
Toda bateria instalada hoje terá, em algum momento, de sair do uso automotivo, e a escolha entre descarte, reciclagem ou segunda vida dependerá de avaliação técnica, segurança e viabilidade econômica.


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