Submarino nuclear Borei-A: com 16 mísseis, 160 ogivas e 24 mil toneladas, classe russa redefine dissuasão nuclear e furtividade submarina
O Projeto 955A, designação oficial da classe Borei-A, representa a geração mais recente de submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos da Marinha russa. Segundo análise publicada pela National Security Journal, a classe Borei é considerada o submarino balístico mais avançado já produzido pela Rússia, projetado para substituir as classes Delta III, Delta IV e Typhoon, todas remanescentes da era soviética, e garantir a capacidade de segundo ataque nuclear do país pelas próximas décadas.
Desenvolvido para operar como pilar da chamada tríade nuclear russa, o Borei-A combina capacidade de destruição em larga escala com furtividade acústica avançada. O projeto consolida uma mudança estratégica na forma como Moscou projeta seu poder nuclear marítimo, incorporando tecnologias que reduzem a detectabilidade e ampliam o alcance operacional.
Desenvolvimento do submarino nuclear Borei: projeto iniciado na Guerra Fria
Os primeiros estudos do que viria a ser o Borei começaram em meados da década de 1980, conduzidos pelo Rubin Design Bureau, em São Petersburgo. O objetivo era criar um substituto mais eficiente para os submarinos da classe Typhoon, que deslocavam cerca de 48 mil toneladas submersos e exigiam tripulações de até 160 pessoas.
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O colapso da União Soviética em 1991 interrompeu o desenvolvimento por anos. O primeiro submarino da classe, o Yuri Dolgoruky, só foi lançado em fevereiro de 2008, mais de duas décadas após o início do projeto. Durante esse período, mudanças estruturais significativas foram necessárias, especialmente após o abandono do míssil R-39UTTH Bark e sua substituição pelo Bulava.
Essa transição forçou uma reengenharia completa dos silos e da arquitetura interna do submarino, atrasando ainda mais o programa.
Especificações técnicas do Borei-A: dimensões, peso e capacidade operacional
O Borei-A possui 170 metros de comprimento, 13,5 metros de boca e desloca aproximadamente 24 mil toneladas em imersão. Para comparação, o submarino balístico americano da classe Ohio desloca cerca de 18.750 toneladas, evidenciando que o modelo russo é significativamente mais pesado.
A propulsão é fornecida por um reator nuclear OK-650, capaz de gerar até 190 megawatts térmicos. A velocidade submersa pode atingir 29 nós, equivalente a aproximadamente 54 km/h debaixo d’água. A tripulação é composta por 107 pessoas, cerca de um terço a menos que os Typhoon.
Cada unidade incorpora aproximadamente 1,3 milhão de componentes e utiliza cerca de 17 mil toneladas de metal, valor que representa 50% a mais do que toda a estrutura da Torre Eiffel. Esses números colocam o Borei-A entre as máquinas militares mais complexas já construídas.
Míssil Bulava: arma estratégica que quase inviabilizou o programa Borei
O RSM-56 Bulava, conhecido pela OTAN como SS-N-32, é um míssil balístico lançado de submarino derivado do ICBM Topol-M. Mede 12,1 metros de comprimento, 2,1 metros de diâmetro e pesa cerca de 36,8 toneladas.
Cada míssil pode transportar entre seis e dez ogivas nucleares independentes, com rendimento estimado entre 100 e 150 quilotons, além de até 40 chamarizes para enganar sistemas antimísseis. O alcance ultrapassa 8.000 quilômetros, permitindo atingir alvos em praticamente todo o hemisfério norte a partir de águas russas.
Durante o desenvolvimento, o Bulava enfrentou diversos testes fracassados, atrasando o programa Borei por anos. A estabilidade operacional só foi alcançada a partir de 2013, quando o sistema entrou efetivamente em serviço.
Capacidade nuclear do Borei-A: 16 mísseis e até 160 ogivas nucleares
Cada submarino da classe Borei-A possui 16 silos de lançamento de mísseis Bulava, organizados em duas fileiras de oito unidades. Considerando a carga máxima de ogivas por míssil, um único submarino pode transportar até 160 ogivas nucleares.
Isso significa que apenas uma unidade é capaz de causar destruição em larga escala equivalente a múltiplos alvos urbanos estratégicos. Essa capacidade é a essência da dissuasão nuclear baseada em submarinos, onde a sobrevivência da plataforma garante a possibilidade de retaliação.
Além disso, o Borei-A possui seis tubos de torpedo de 533 mm na proa, capazes de lançar torpedos convencionais e mísseis antinavio com alcance de até 45 quilômetros.
Propulsão por hidrojato no Borei-A reduz ruído e aumenta furtividade submarina
O diferencial mais relevante do Borei-A está no sistema de propulsão. Trata-se do primeiro submarino nuclear russo a utilizar propulsão por hidrojato em substituição à hélice convencional.
Nos sistemas tradicionais, a hélice gera cavitação ao girar na água, criando bolhas que colapsam e produzem ruído detectável por sonar. No hidrojato, a água é acelerada dentro de um duto e expelida de forma controlada, reduzindo significativamente a assinatura acústica.
Segundo a Nuclear Threat Initiative, a classe Borei é consideravelmente mais furtiva do que seus predecessores soviéticos. Essa redução de ruído é crítica para a sobrevivência do submarino em ambiente de guerra, tornando sua detecção extremamente difícil.
Sistema de segurança do Borei-A: câmara de resgate para toda a tripulação
Após o desastre do submarino Kursk em 2000, o projeto Borei incorporou melhorias significativas em segurança. Cada unidade possui uma cápsula de escape capaz de acomodar toda a tripulação de 107 pessoas.
Essa câmara pode se desprender do casco e subir à superfície mesmo em grandes profundidades, representando uma evolução substancial em relação aos sistemas soviéticos anteriores.
Até o início de 2026, a Marinha russa opera quatro submarinos Borei em serviço ativo. Os três primeiros pertencem ao Projeto 955 original, enquanto as unidades mais recentes seguem o padrão 955A.
O oitavo submarino da série, o Knyaz Pozharsky, foi lançado em fevereiro de 2024 e encontra-se em fase de testes. A meta russa é operar oito unidades no total, divididas entre as frotas do Norte e do Pacífico.
Custo do submarino nuclear Borei-A comparado aos Estados Unidos
O custo do primeiro submarino da classe foi estimado em 23 bilhões de rublos, aproximadamente 734 milhões de dólares em valores de 2010. As unidades mais recentes custam cerca de 39 bilhões de rublos.
Para comparação, os submarinos americanos da classe Ohio ultrapassam 2 bilhões de dólares por unidade. Essa diferença reflete não apenas custos industriais distintos, mas também estratégias de produção e financiamento militar divergentes.
A Frota do Norte, baseada na Península de Kola, é o principal destino dos Borei-A. A região do Ártico tornou-se estratégica devido ao derretimento do gelo, que abre novas rotas marítimas e acesso a recursos naturais.
A presença desses submarinos na região representa não apenas capacidade militar, mas também afirmação de soberania sobre áreas de interesse econômico crescente.
Proteção NBQ no Borei-A: defesa contra armas nucleares, biológicas e químicas
O Borei-A incorpora sistemas completos de proteção NBQ. O casco é dividido em compartimentos estanques com vedação independente, e os sistemas de ventilação operam em circuito fechado.
A tripulação possui acesso a equipamentos de proteção individual e sistemas de descontaminação, garantindo operação mesmo em cenários extremos.

Em maio de 2018, o submarino Yuri Dolgoruky realizou um disparo simultâneo de quatro mísseis Bulava, demonstrando capacidade operacional avançada.
Para a OTAN, a principal preocupação não é apenas o número de ogivas, mas a combinação de furtividade acústica com capacidade de lançamento em movimento, inclusive sob gelo. Isso torna praticamente impossível prever a origem de um ataque, reduzindo a eficácia de estratégias preventivas.
Futuro da classe Borei: projeto Arcturus e próxima geração de submarinos nucleares
Durante a exposição Army-2022, o Rubin Design Bureau apresentou o conceito da classe Arcturus, projetada para substituir os Borei a partir da década de 2040.
O novo modelo terá casco angulado, 12 silos de mísseis e deslocamento cerca de 20% menor, além de operar drones submarinos.
Até lá, o Borei-A continuará sendo o principal instrumento de dissuasão nuclear marítima da Rússia. Com capacidade para 160 ogivas, velocidade de 54 km/h submerso e baixa assinatura acústica, ele representa um dos sistemas mais estratégicos já desenvolvidos na guerra naval moderna.

