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Cientistas brasileiros montaram uma “máquina do tempo climática” no coração da Amazônia para encher árvores com CO₂ do futuro e descobrir até que ponto a maior floresta do planeta aguenta antes de mudar para sempre

Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/04/2026 às 03:12
Atualizado em 24/04/2026 às 03:16
Assista o vídeoExperimento na Amazônia simula o ar do futuro com CO₂ elevado para entender como a floresta tropical reage às mudanças climáticas. (Imagem: Ilustrativa/FDR)
Experimento na Amazônia simula o ar do futuro com CO₂ elevado para entender como a floresta tropical reage às mudanças climáticas. (Imagem: Ilustrativa/FDR)
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Experimento na Amazônia simula uma atmosfera com mais CO₂ para observar reações da floresta em escala real, enquanto cientistas buscam dados sobre carbono, água, solo e clima antes da COP30.

Cientistas instalaram no interior da Amazônia uma estrutura criada para testar como a floresta pode reagir a uma atmosfera com mais dióxido de carbono, condição prevista em cenários climáticos das próximas décadas.

O experimento, chamado AmazonFACE, expõe árvores adultas a concentrações elevadas de CO₂ para observar, em ambiente aberto, mudanças na absorção de carbono, na perda de água pelas folhas, no crescimento vegetal e no funcionamento do solo.

A pesquisa ocorre em uma área de floresta madura próxima a Manaus, no Amazonas, e busca responder a uma questão central para a ciência climática: como uma floresta tropical de grande porte se comporta quando passa a receber, de forma controlada, uma quantidade maior de CO₂ no ar?

A discussão também se relaciona à COP30, conferência climática da ONU realizada em Belém, no Pará.

Segundo a ONU Brasil, a conferência abordou temas ligados a adaptação, financiamento climático, mitigação, tecnologia, capacitação, transparência e balanço global, em uma edição realizada na Amazônia e acompanhada por debates sobre o comportamento da floresta em cenários de aquecimento global e mudança na composição da atmosfera.

AmazonFACE simula atmosfera do futuro na floresta amazônica

No AmazonFACE, seis grandes anéis metálicos foram erguidos acima e ao redor da vegetação.

Cada estrutura envolve dezenas de árvores adultas e permite comparar dois cenários dentro da mesma área de floresta: em parte dos anéis, a concentração de CO₂ será elevada; nos demais, o ambiente seguirá exposto às condições naturais, funcionando como referência para os pesquisadores.

A estrutura fica a cerca de 80 quilômetros de Manaus e reúne seis anéis de 30 metros de diâmetro, compostos por torres metálicas de 35 metros de altura.

Imagem: Maria Clara Ferreira Guimarães/AmazonFACE/Divulgação
Imagem: Maria Clara Ferreira Guimarães/AmazonFACE/Divulgação

De acordo com informações divulgadas pelo governo federal, a proposta é simular um aumento de 50% na concentração de dióxido de carbono em relação aos níveis atuais, usando a tecnologia FACE, sigla em inglês para Free-Air CO₂ Enrichment, ou enriquecimento de CO₂ ao ar livre.

A tecnologia permite que a floresta permaneça em seu próprio ambiente, sem ser transferida para laboratório.

Dessa forma, árvores, raízes, cipós, microrganismos, solo, água e luz seguem interagindo em condições naturais, enquanto sensores e medições de campo acompanham as respostas do ecossistema ao aumento do gás.

“Estamos tentando criar a atmosfera do futuro”, afirmou Carlos Quesada, pesquisador ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, ao explicar o objetivo do experimento.

O projeto é conduzido por equipes do Inpa e da Universidade Estadual de Campinas, com apoio do governo brasileiro e cooperação do Reino Unido.

O que os cientistas investigam sobre CO₂ e Amazônia

A pesquisa mede se o aumento de CO₂ interfere no crescimento das plantas, na absorção de carbono, na transpiração das folhas e na dinâmica do solo.

Em estudos sobre fotossíntese, o dióxido de carbono é um dos elementos usados pelas plantas para produzir energia; no entanto, segundo pesquisadores do AmazonFACE, a resposta de uma floresta tropical depende também de temperatura, chuvas, disponibilidade de água, nutrientes e características de cada espécie.

Na Amazônia, uma das questões investigadas envolve a disponibilidade de nutrientes no solo, especialmente em áreas onde elementos como o fósforo podem limitar o crescimento vegetal.

Por esse motivo, o estudo não se concentra apenas nas copas das árvores.

As equipes também analisam folhas, troncos, raízes, fungos, microrganismos e ciclos de água e nutrientes.

Sensores instalados na área registram variações ambientais em intervalos frequentes e acompanham a resposta da vegetação a chuva, sol, tempestades e mudanças na umidade.

Segundo a Reuters, os equipamentos registram a resposta da floresta a cada 10 minutos, incluindo a forma como a folhagem absorve dióxido de carbono e libera oxigênio e vapor d’água sob diferentes condições meteorológicas.

A etapa de enriquecimento do ar com CO₂ permitirá comparar áreas semelhantes sob atmosferas diferentes.

Com essa metodologia, os cientistas buscam produzir dados de campo para modelos climáticos que hoje ainda têm incertezas sobre a reação de florestas tropicais ao aumento da concentração de gases de efeito estufa.

Experimento inédito em floresta tropical madura

Experimentos com enriquecimento de CO₂ já foram realizados em outros países e em outros tipos de vegetação.

No caso do AmazonFACE, o diferencial apontado pelos responsáveis pelo projeto é o ambiente escolhido: uma floresta tropical madura, com árvores adultas e interações ecológicas complexas.

Segundo material institucional do governo federal, é a primeira vez que a tecnologia será aplicada em uma floresta tropical.

O engenheiro florestal Gustavo Carvalho definiu o estudo como “o primeiro experimento em uma floresta natural desse tamanho nos trópicos”.

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A observação se refere à escala da instalação e ao fato de o experimento ocorrer em uma área de floresta em pé, sem isolar árvores em laboratório ou restringir a análise a mudas.

Para os pesquisadores, a escala do experimento é relevante porque a Amazônia não depende apenas do comportamento individual de cada árvore.

O funcionamento do bioma envolve interações entre vegetação, atmosfera, solo, água, biodiversidade e clima regional, fatores que podem influenciar a capacidade da floresta de armazenar carbono e regular umidade.

Além do carbono, o projeto acompanha o ciclo da água, a biodiversidade, os nutrientes e aspectos ligados às populações da floresta e à segurança alimentar.

A segunda fase do AmazonFACE, planejada para o período de 2025 a 2030, foi apresentada em documentos do projeto como etapa de implementação e operação do experimento em floresta madura.

COP30 em Belém amplia atenção sobre clima e Amazônia

A realização da COP30 em Belém colocou a Amazônia no centro da agenda climática internacional.

No campo científico, o AmazonFACE contribui para uma discussão específica: quais dados de campo podem reduzir incertezas sobre a resposta da floresta a um ambiente com mais CO₂, temperaturas mais altas e maior variabilidade climática?

Segundo cientistas do clima, a preservação de florestas tropicais está associada à capacidade de armazenar carbono e influenciar regimes de chuva.

Ainda assim, a continuidade desse papel depende de fatores como redução do desmatamento, controle de queimadas, estabilidade das chuvas e limites fisiológicos das espécies diante de alterações ambientais.

O AmazonFACE tem finalidade experimental e não substitui políticas públicas de conservação.

Sua função é produzir medições em escala real para alimentar modelos climáticos, orientar pesquisas e ampliar o entendimento sobre o comportamento da floresta em condições atmosféricas diferentes das atuais.

Na prática, os anéis metálicos instalados na mata permitem observar uma porção da Amazônia sob o ar previsto por cenários climáticos futuros.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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