Cientistas desenvolvem tecnologia que viabiliza a perovskita em escala industrial, impulsionando painéis solares mais eficientes e a energia solar global.
Um avanço publicado na revista Nature Energy pode representar um divisor de águas para o setor de energia renovável. Pesquisadores da Alemanha e da Espanha desenvolveram um método capaz de resolver um dos principais desafios que impediam a utilização da perovskita em escala industrial, aproximando uma nova geração de painéis solares mais eficientes e economicamente viáveis.
A descoberta foi liderada por cientistas do Karlsruhe Institute of Technology (KIT), na Alemanha, e da Universidade de Valência, na Espanha, com apoio de instituições da França e da Argentina. O novo processo permitiu fabricar células solares tandem com eficiência de 24,3% em apenas 10 minutos, um resultado considerado relevante para aproximar a tecnologia das linhas de produção comerciais.
Segundo informações da Nature Energy no dia 19 de maio, mais do que um recorde de laboratório, o trabalho reduz a distância entre pesquisa e indústria. Para especialistas do setor, esse era justamente o maior obstáculo para que a perovskita deixasse de ser uma promessa e passasse a integrar projetos reais de energia solar ao redor do mundo.
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O avanço que pode mudar o futuro da energia solar
A busca por sistemas mais eficientes de geração elétrica tem impulsionado investimentos em novas tecnologias fotovoltaicas. Entre elas, as chamadas células solares tandem surgem como uma das apostas mais promissoras da indústria.
Esse tipo de estrutura combina o tradicional silício com uma camada superior de perovskita. Enquanto a perovskita absorve comprimentos de onda mais curtos e energéticos, o silício aproveita a parte restante do espectro solar.
Na prática, essa combinação permite captar uma quantidade maior de luz e gerar mais eletricidade do que os modelos convencionais de painéis solares disponíveis atualmente.
Por que a perovskita era considerada um desafio para a indústria
Apesar do enorme potencial, a perovskita sempre apresentou dificuldades quando o assunto era produção em larga escala.
Em ambiente de laboratório, o material já vinha demonstrando excelentes resultados há anos. O problema surgia no momento de fabricar camadas ultrafinas de forma rápida, uniforme e economicamente viável.
Muitos especialistas temiam que a tecnologia permanecesse restrita aos centros de pesquisa devido à complexidade dos processos produtivos necessários para garantir qualidade industrial.
Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, o problema não estava exatamente na perovskita, mas sim nos métodos utilizados para depositar o material sobre as células solares.
Cientistas alcançam 24,3% de eficiência em apenas 10 minutos
O estudo revelou números que chamaram a atenção do setor energético.
Utilizando o novo método de fabricação, os cientistas conseguiram produzir células tandem com:
- Eficiência de 24,3%;
- Tempo de processamento de apenas 10 minutos;
- Taxa de deposição de 47 nanômetros por minuto;
- Velocidade cerca de 10 vezes superior aos métodos convencionais.
Para Ulrich Paetzold, pesquisador do KIT envolvido no projeto, a indústria precisa de processos que sejam eficientes, rápidos e escaláveis ao mesmo tempo. O novo método conseguiu reunir esses três fatores em uma única solução.
Além disso, o sistema utiliza uma quantidade reduzida de matéria-prima e permite o reaproveitamento de materiais durante a fabricação, contribuindo para diminuir custos produtivos.
A tecnologia CSS que acelerou a produção em larga escala
O grande diferencial da pesquisa está em uma técnica conhecida como Sublimação em Espaço Fechado, ou CSS (Close Space Sublimation).
O funcionamento pode ser comparado a um pequeno forno de alta precisão. Durante o processo, os materiais precursores evaporam e atingem diretamente a superfície de silício posicionada a poucos milímetros de distância.
Nesse ambiente controlado ocorre a formação da camada de perovskita necessária para o funcionamento da célula tandem.
De acordo com Sofía Chozas-Barrientos, pesquisadora da Universidade de Valência, a técnica elimina o uso de solventes químicos e reduz significativamente o tempo de fabricação.
Essa característica é importante porque simplifica o processo produtivo e facilita sua adaptação às fábricas já existentes.
Como a perovskita melhora o desempenho dos painéis solares
A eficiência dos painéis solares depende diretamente da capacidade de captar diferentes comprimentos de onda da luz solar.
Os módulos tradicionais de silício apresentam excelente desempenho, mas possuem limitações físicas que dificultam avanços expressivos na eficiência.
A utilização da perovskita ajuda justamente a superar parte dessas limitações.
Entre os principais benefícios estão:
- Melhor aproveitamento do espectro solar;
- Maior geração de eletricidade por área instalada;
- Possibilidade de reduzir custos ao longo do tempo;
- Compatibilidade com estruturas já utilizadas pela indústria;
- Potencial para ampliar a competitividade da energia solar.
Essas características explicam por que a perovskita vem sendo apontada como uma das tecnologias mais promissoras do setor fotovoltaico.
O segredo da proporção 3:1 que resolveu a perda de bromo
Outro desafio enfrentado pelos cientistas envolvia a incorporação de bromo na composição da perovskita.
Esse elemento é essencial para ampliar a chamada banda proibida do material, característica necessária para que a camada superior da célula tandem funcione corretamente.
O problema era que o bromo evaporava durante a fabricação, reduzindo a qualidade do resultado final.
Alexander Diercks, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, participou da solução encontrada pela equipe. Os cientistas desenvolveram uma fonte orgânica mista composta por iodeto de metilamônio e brometo de metilamônio em uma proporção exata de 3 para 1.
A estratégia permitiu preservar o bromo durante o processo produtivo e alcançar uma banda proibida de 1,64 elétron-volt (eV), considerada adequada para aplicações fotovoltaicas de alto desempenho.
Painéis solares texturizados passam pelo teste mais importante
Uma inovação só se torna comercialmente relevante quando consegue funcionar fora das condições ideais de laboratório.
Por isso, os pesquisadores decidiram testar o método em diferentes tipos de superfícies utilizadas na fabricação de painéis solares.
Os resultados mostraram que a deposição da camada de perovskita funcionou em:
- Silício liso;
- Silício nanoestruturado;
- Silício microestruturado;
- Superfícies com micropirâmides usadas comercialmente.
As análises microscópicas confirmaram uma cobertura uniforme em todas as topografias avaliadas.
Segundo Henk Bolink, da Universidade de Valência, essa capacidade é fundamental para a aplicação industrial, já que os painéis solares comercializados atualmente não utilizam superfícies totalmente lisas.
Benefícios que podem transformar o mercado de energia solar
A nova tecnologia chega em um momento de forte expansão da geração renovável em diversos países.
Com a possibilidade de produzir células tandem de forma mais rápida e eficiente, fabricantes poderão ampliar a competitividade da energia solar nos próximos anos.
Entre os impactos esperados estão:
- Redução dos custos de fabricação;
- Maior eficiência energética dos módulos;
- Melhor aproveitamento das áreas de instalação;
- Expansão da geração renovável;
- Aceleração da transição energética global.
Esses fatores podem contribuir para tornar os sistemas fotovoltaicos ainda mais acessíveis para consumidores residenciais, empresas e grandes usinas.
O passo que faltava para levar a tecnologia às fábricas
Durante anos, o principal desafio da perovskita não foi sua eficiência, mas sua viabilidade industrial. A nova técnica apresentada pelos cientistas mostra que essa barreira começa a ser superada de forma concreta.
Ao combinar velocidade, eficiência, economia de materiais e compatibilidade com superfícies utilizadas pela indústria, o processo CSS demonstra que a produção em massa de células tandem está cada vez mais próxima da realidade.
O resultado não significa que a adoção global acontecerá imediatamente. Ainda existem etapas de validação, expansão produtiva e adaptação industrial. Mesmo assim, especialistas consideram que o setor acaba de dar um dos passos mais importantes rumo à próxima geração de painéis solares.
Se os avanços observados no estudo forem reproduzidos em larga escala, a perovskita poderá desempenhar um papel central no crescimento da energia solar durante a próxima década, ajudando a aumentar a eficiência dos sistemas fotovoltaicos e acelerando a transição para uma matriz energética mais limpa e sustentável.
Com informações de Nature Energy.

