Após perder parte da visão por falta de acesso médico, Si Na Dingzhu investiu quase toda sua fortuna em uma estrada que conectou Balagezong, abriu mercados, atraiu turistas e transformou comunidades vizinhas em Yunnan
A estrada de Balagezong, construída ao longo de dez anos pelo empresário Si Na Dingzhu, percorre 59 quilômetros pelas montanhas de Shangri-la, na província chinesa de Yunnan. A ligação encerrou cerca de 1.300 anos de isolamento, facilitou o turismo, permitiu a venda da produção agrícola e criou novas fontes de renda para moradores da região.
Nascido em Balagezong em 1964, Si Na Dingzhu cresceu em uma comunidade marcada pela pobreza, pela distância e pela dificuldade de acesso a serviços básicos. Aos dez anos, uma lesão nos olhos mudaria sua trajetória.
Sem estrada, ele precisou caminhar durante quase uma semana até a sede do condado em busca de atendimento.
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Quando chegou, o momento crítico do tratamento havia passado, e sua visão não pôde ser completamente recuperada.
Durante o caminho de volta, segundo o guia local Den Zing, o menino passou a imaginar uma ligação entre Bala, como o vilarejo é conhecido pelos moradores, e o mundo exterior.

Estrada de Balagezong levou dez anos para ser concluída
Si Na Dingzhu deixou o vilarejo e construiu sua fortuna trabalhando na província de Guangdong. Posteriormente, retornou à terra natal disposto a transformar a realidade enfrentada pelos moradores.
Ele aplicou quase todo o patrimônio acumulado na construção da estrada de Balagezong. Foram dez anos de trabalho até a conclusão dos 59 quilômetros necessários para conectar a comunidade à região externa.
A estrada foi aberta em 2008. Em dezembro de 2009, Balagezong recebeu o segundo nível mais alto da China destinado às áreas de ecoturismo, classificação que exige padrões específicos de preservação ambiental e gestão ecológica das atividades turísticas.
Atualmente, a localidade recebe visitantes chineses e estrangeiros. Balagezong também passou a integrar a área do Patrimônio Mundial da Unesco conhecida como “Três Rios Paralelos”.
A região reúne os cursos paralelos dos rios Yangtze, Mekong, também chamado de Mecom, e Saluém, no sudoeste de Yunnan. O território é apontado como uma das áreas de maior biodiversidade do planeta.

Produtos que apodreciam passaram a gerar renda
Antes da estrada, a produção agrícola ficava retida nas montanhas. A moradora Pang Zhuoma relata que as maçãs cultivadas na comunidade, apesar de frescas e orgânicas, não conseguiam chegar aos mercados.
Sem compradores e sem transporte, parte das frutas era destinada aos porcos ou deixada para apodrecer.
O mesmo ocorria com cogumelos matsutake, ervas medicinais raras e outros produtos silvestres encontrados na região.
A abertura da estrada criou condições para que esses produtos fossem comercializados fora do vilarejo. A mudança também ampliou a circulação dos moradores, antes impedidos de estudar, trabalhar ou conhecer outras cidades devido à longa e difícil viagem.
Pang afirma que passou a receber uma renda mensal estável de alguns milhares de yuans, valor equivalente a aproximadamente R$ 2 mil a R$ 4 mil. Com os recursos, sua família conseguiu construir uma casa nova.

Ecoturismo combina preservação e revitalização rural
A transformação de Balagezong reuniu a iniciativa de Si Na Dingzhu e políticas de revitalização rural implantadas pelo governo chinês.
No vilarejo, o ecoturismo foi associado à proteção ambiental e à criação de atividades econômicas para as comunidades.
Antigas casas foram renovadas e transformadas em pousadas boutique. As duas residências tradicionais mais bem conservadas passaram a formar um museu residencial popular, criado para apresentar aos visitantes o cotidiano, os costumes e o modo de vida do povo Bala.
Segundo Den Zing, o espaço permite que os turistas conheçam de perto práticas culturais preservadas durante séculos. Uma das casas mantém a bandeira do Partido Comunista da China içada na fachada.
A cultura local também ganhou espaço fora das montanhas. Canções tradicionais de velório e outros patrimônios imateriais passaram a ser compartilhados com pessoas de outras regiões.
Empregos alcançam moradores de aldeias vizinhas
Os efeitos da estrada de Balagezong ultrapassaram os limites de Bala. Moradores de comunidades próximas passaram a encontrar oportunidades de trabalho ligadas ao turismo e às atividades locais.
De acordo com Pang, as contratações não exigem escolaridade nem estabelecem critérios que excluam os trabalhadores das aldeias vizinhas. Para ela, o modelo se aproxima de um programa direcionado de redução da pobreza.
A estrada também modificou a relação dos moradores com serviços, mercados e oportunidades de formação.
Uma viagem que antes exigia vários dias de caminhada passou a ser realizada por uma ligação rodoviária direta.
Para Pang, a obra trouxe mais do que renda. A moradora associa a estrada à conexão com outras regiões, à melhoria das condições de vida e à possibilidade de construir um futuro para as próximas gerações.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do programa Bem Viver, do Brasil de Fato, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.

