Estudo publicado na Nature Communications revela mais de 40 novas fontes de metano no Mar de Ross, na Antártida, em áreas consideradas estáveis por décadas.
Uma descoberta publicada em outubro de 2025 na revista científica Nature Communications alterou a percepção sobre a estabilidade climática de uma das regiões mais monitoradas do planeta. Pesquisadores liderados pela cientista marinha Sarah Seabrook identificaram mais de 40 novas fontes de metano no fundo do Mar de Ross, na Antártida, em áreas que vinham sendo estudadas há décadas sem qualquer registro anterior de emissões.
O dado chama atenção não apenas pela quantidade de novos vazamentos, mas pelo fato de que, até então, apenas uma fonte de metano havia sido confirmada em toda a Antártida. A emergência simultânea de dezenas de pontos ativos sugere mudança recente no comportamento geológico e biogeoquímico da região.
Onde as novas fontes de metano foram encontradas
As emissões foram detectadas em profundidades que variam entre 5 e 240 metros, caracterizando ambiente costeiro raso. O Mar de Ross é uma das áreas mais pesquisadas da Antártida devido à sua importância ecológica e climática.
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A equipe utilizou métodos combinados de:
- Levantamentos acústicos do fundo marinho
- Câmaras seladas instaladas diretamente no sedimento
- Mergulhos técnicos e veículos operados remotamente
Em um dos pontos monitorados, conhecido como Cinder Cones, medições realizadas em 2022 registraram taxas aproximadas de 1 milimol de metano por metro quadrado por dia, com picos superiores em locais mais rasos.
O aspecto mais relevante é que essas áreas vinham sendo monitoradas há anos sem qualquer evidência prévia de liberação significativa do gás.
Por que o metano preocupa mais que o CO₂ no curto prazo
O metano (CH₄) é reconhecido como um dos gases de efeito estufa mais potentes na atmosfera. Nos primeiros 20 anos após sua liberação, seu potencial de aquecimento pode ser aproximadamente 80 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂).
Embora sua permanência atmosférica seja menor que a do CO₂, o impacto imediato no balanço térmico global é muito mais intenso. Isso significa que aumentos abruptos na emissão de metano podem amplificar o aquecimento global em escalas de tempo relativamente curtas.

A descoberta de múltiplas novas fontes em uma região considerada estável levanta questionamentos sobre possíveis feedbacks climáticos ainda não completamente compreendidos.
Antártida: reservatório oculto de metano
A Antártida armazena metano em diferentes formas:
- Hidratos de gás presos em sedimentos frios
- Depósitos subglaciais
- Salmouras subterrâneas isoladas sob camadas de gelo
Hidratos de metano são estruturas cristalinas formadas sob alta pressão e baixa temperatura, típicas de ambientes polares e margens continentais profundas. Se a estabilidade térmica ou de pressão dessas formações for alterada, o gás pode ser liberado.
Embora o estudo não atribua diretamente as novas emissões a mudanças climáticas, pesquisadores destacam que a origem do fenômeno ainda está sob investigação.
Paradoxo científico: região mais monitorada começa a emitir gás inesperadamente
O Mar de Ross é uma das regiões mais estudadas da Antártida. O fato de novas fontes terem surgido em áreas monitoradas por décadas reforça a hipótese de que o fenômeno é recente — não apenas uma descoberta tardia de algo já existente.
Esse caráter emergente é um dos pontos centrais do estudo. O continente mais frio do planeta, historicamente visto como estável em termos de emissões de metano costeiro, passa agora a apresentar sinais de atividade inédita.
Impactos ecológicos locais
Além das implicações climáticas, os pesquisadores também observaram alterações biológicas próximas às áreas de vazamento. Casos de doença de estrelas-do-mar (sea star wasting disease) foram detectados em regiões próximas às fontes de metano.
Embora ainda não exista confirmação de relação causal direta, o metano pode alterar a química local do sedimento e da coluna d’água, impactando comunidades bentônicas e cadeias alimentares.
Declarações de especialistas e risco potencial
O cientista Andrew Thurber, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, comparou as novas fontes a um “animal perigoso”: fascinantes do ponto de vista científico, mas potencialmente devastadoras se subestimadas.

A analogia destaca o duplo aspecto do fenômeno: avanço no conhecimento sobre processos submarinos e, simultaneamente, alerta sobre riscos climáticos e ecológicos.
Pode haver um ciclo de retroalimentação climática?
Um dos temores discutidos na literatura científica sobre metano polar é a possibilidade de retroalimentação positiva:
Aquecimento global → destabilização de hidratos → liberação de metano → aumento adicional de aquecimento.
Ainda não há evidência de que o caso do Mar de Ross represente início de processo irreversível. No entanto, a identificação de dezenas de novas fontes sugere que mecanismos até então considerados raros podem estar se tornando mais frequentes.
O que ainda não se sabe
Apesar do impacto da descoberta, diversas perguntas permanecem em aberto:
- Qual o gatilho exato para a emergência dessas fontes?
- Há relação direta com aquecimento regional das águas?
- Os vazamentos são temporários ou permanentes?
- Qual o volume total liberado anualmente?
O estudo destaca a necessidade de monitoramento contínuo para avaliar a evolução das emissões ao longo dos próximos anos.
A detecção de mais de 40 novas fontes de metano no Mar de Ross representa uma das descobertas mais relevantes sobre dinâmica de gases no ambiente polar nos últimos anos. O fenômeno ocorre em áreas previamente consideradas estáveis e envolve um gás com alto potencial de aquecimento no curto prazo.
Embora ainda não seja possível afirmar que a Antártida esteja entrando em fase de liberação massiva de metano, os dados indicam mudança significativa no comportamento geológico da região costeira.
A emergência dessas fontes em um dos ambientes mais estudados do planeta reforça a complexidade dos sistemas climáticos e a necessidade de acompanhamento científico contínuo em regiões polares.

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