Desenvolvido por cientistas do KAIST, o agente hemostático em pó aplicado por spray forma um hidrogel em cerca de um segundo, absorve até 725% do próprio peso em sangue, mantém estabilidade por dois anos e pode reduzir mortes por hemorragia em combates, cirurgias e emergências médicas
O KAIST anunciou em 29 de dezembro o desenvolvimento de um agente hemostático em pó que estanca sangramentos em cerca de um segundo ao ser pulverizado, formando um hidrogel estável e resistente, com potencial para reduzir mortes por perda severa de sangue em combate e emergências médicas.
Uma solução de aplicação imediata para sangramentos críticos
A perda severa de sangue permanece como a principal causa de morte por ferimentos em combate, motivando a busca por soluções mais rápidas, confiáveis e adaptáveis a condições extremas. Diante desse cenário, uma equipe de pesquisa do KAIST decidiu desenvolver um método capaz de interromper sangramentos quase instantaneamente.
O projeto contou com a participação direta de um major do Exército em atividade, o que influenciou o desenho da tecnologia desde o início.
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A intenção foi garantir que o material funcionasse fora do ambiente controlado de hospitais, atendendo às exigências do campo de batalha e de zonas de desastre.
O resultado foi um agente hemostático em pó de última geração, capaz de ser aplicado em segundos por meio de pulverização direta sobre o ferimento. Ao entrar em contato com o sangue, o material se transforma rapidamente em um hidrogel sólido, criando uma barreira física quase imediata.
Segundo o anúncio institucional, a transformação ocorre em cerca de um segundo, tempo considerado crítico para evitar a progressão de choques hemorrágicos em situações de trauma grave. Essa velocidade representa um diferencial em relação às soluções existentes.
Limitações dos hemostáticos tradicionais motivaram nova abordagem
Produtos hemostáticos amplamente utilizados na medicina atual são, em sua maioria, apresentados na forma de adesivos planos. Embora eficazes em determinadas situações, esses materiais enfrentam dificuldades quando aplicados em feridas profundas, irregulares ou de formatos complexos.
Além disso, muitos desses produtos apresentam sensibilidade significativa ao calor e à umidade. Essa característica limita o armazenamento prolongado e dificulta o uso em ambientes exigentes, como operações militares ou áreas afetadas por desastres naturais.
A equipe do KAIST buscou superar essas restrições ao adotar um formato em pó, que pode se adaptar a diferentes geometrias de ferimentos. A mesma formulação pode ser utilizada em cortes superficiais, lacerações profundas ou lesões irregulares, ampliando sua versatilidade no atendimento emergencial.
Outro ponto crítico observado pelos pesquisadores foi o mecanismo de funcionamento dos hemostáticos em pó já existentes. Em geral, esses produtos atuam apenas pela absorção física do sangue, formando uma barreira limitada em situações de sangramento intenso.
Estrutura química e funcionamento do pó AGCL
Para contornar essas limitações, a equipe concentrou-se nas reações iônicas naturalmente presentes no sangue. O agente desenvolvido, denominado pó AGCL, combina materiais naturais biocompatíveis em uma estrutura projetada para gelificação ultrarrápida.
Entre os componentes estão alginato e goma gelana, que reagem com íons de cálcio presentes no sangue, promovendo uma rápida formação de gel e selamento físico da ferida. A essa matriz foi adicionada quitosana, que se liga aos componentes sanguíneos, reforçando a hemostasia química e biológica.
Essa combinação permite que o pó reaja quase instantaneamente ao entrar em contato com o sangue, transformando-se em gel em cerca de um segundo. O processo resulta em um selamento imediato da área lesionada, interrompendo o fluxo sanguíneo de forma eficaz.
A tecnologia foi pensada para manter o desempenho mesmo em ambientes hostis. O agente endurece rapidamente sob condições adversas e apresenta estabilidade durante o armazenamento, permitindo seu uso imediato quando necessário.
Capacidade de absorção e resistência mecânica sob pressão
Uma das características centrais do pó AGCL é sua capacidade de absorção. Ao formar uma estrutura tridimensional interna, o material consegue absorver uma quantidade de sangue superior a sete vezes o seu próprio peso, atingindo uma taxa de 725%.
Essa capacidade elevada permite bloquear rapidamente o fluxo sanguíneo mesmo em situações de alta pressão, comuns em ferimentos traumáticos graves. O desempenho foi descrito como superior ao de agentes hemostáticos comerciais avaliados em condições comparáveis.
O material também apresentou alta força adesiva, superior a 40 kPa. Esse nível de resistência é suficiente para suportar compressão manual intensa, frequentemente aplicada em primeiros socorros para conter hemorragias até a chegada de atendimento especializado.
Essas propriedades combinadas tornam o agente particularmente adequado para uso em cenários onde o controle rápido do sangramento é determinante para a sobrevivência do paciente, como combates, acidentes graves e cirurgias de emergência.
Segurança biológica e efeitos de regeneração tecidual
Além do desempenho mecânico, a segurança biológica foi um aspecto central da avaliação do novo material. O pó AGCL é composto inteiramente por materiais de origem natural, o que contribui para sua compatibilidade com tecidos humanos.
Testes indicaram uma taxa de hemólise inferior a 3%, viabilidade celular superior a 99% e efeito antibacteriano de 99,9%.
Esses resultados apontam para um baixo risco de danos celulares e infecções quando o material entra em contato com o sangue.
Em experimentos com animais, os pesquisadores observaram efeitos positivos de regeneração tecidual. Entre os resultados destacados estão a recuperação acelerada das feridas e a promoção da regeneração de vasos sanguíneos e colágeno.
Esses dados sugerem que, além de estancar o sangramento, o material pode contribuir para um processo de cicatrização mais eficiente, reduzindo complicações posteriores. Mesmo assim, o foco principal do desenvolvimento permaneceu na hemostasia ultrarrápida.
Resultados em modelos cirúrgicos e estabilidade prolongada
A eficácia do agente também foi testada em modelos de lesão hepática cirúrgica. Nesses experimentos, tanto a quantidade de sangramento quanto o tempo necessário para alcançar a hemostasia foram significativamente reduzidos em comparação com agentes hemostáticos comerciais.
Os testes indicaram que a função hepática retornou aos níveis normais duas semanas após a cirurgia. Durante o período de avaliação, não foram observadas anormalidades em análises de toxicidade sistêmica.
Outro aspecto considerado estratégico foi a durabilidade do produto. O agente hemostático manteve seu desempenho por até dois anos, mesmo quando armazenado em temperatura ambiente e em ambientes com alta umidade.
Essa estabilidade prolongada confere vantagem logística significativa, especialmente para operações militares e ações de resposta a desastres, onde o acesso a condições ideais de armazenamento é limitado e a prontidão imediata é essencial.
Da pesquisa em defesa à aplicação médica ampliada
Embora o desenvolvimento do pó AGCL tenha sido orientado inicialmente para atender demandas da defesa nacional, os pesquisadores destacam seu potencial de aplicação em toda a medicina de emergência. Isso inclui cenários civis, regiões com infraestrutura médica limitada e países em desenvolvimento.
O caso é avaliado como um exemplo representativo de transferência indireta de ciência e tecnologia da defesa para o setor civil. A própria história tecnológica inclui diversos precedentes desse tipo, em áreas como computação, navegação e eletrodomésticos.
O agente pode ser utilizado desde o tratamento emergencial no campo de batalha até procedimentos de hemostasia cirúrgica interna, ampliando seu alcance potencial dentro do sistema de saúde. Essa versatilidade reforça o interesse institucional pelo projeto.
A pesquisa foi reconhecida tanto por sua inovação científica quanto por sua utilidade estratégica. O trabalho recebeu o Prêmio do Presidente do KAIST Q-Day de 2025 e o Prêmio do Ministro da Defesa Nacional na Conferência Acadêmica de Defesa Nacional KAIST-KNDU de 2024.
Reconhecimento científico e motivação dos pesquisadores
O estudo foi publicado sob o título “Um pó de gelificação iônica para hemostasia ultrarrápida e cicatrização acelerada de feridas”, com data de 28 de outubro de 2025. A pesquisa contou com apoio da Fundação Nacional de Pesquisa da Coreia.
Entre os autores estão pesquisadores seniores e candidatos a doutorado, incluindo o major do Exército Kyusoon Park, que participou diretamente do desenvolvimento do material e da validação experimental.
Segundo ele, a motivação central do projeto foi reduzir a perda de vidas humanas em contextos de guerra moderna. O pesquisador afirmou que iniciou a pesquisa com o objetivo de salvar ao menos mais um soldado em situações críticas.
Ele também expressou a expectativa de que a tecnologia seja utilizada tanto na defesa nacional quanto na medicina privada, ampliando seu impacto social. Para os autores, o desenvolvimento do pó AGCL representa um avanço concreto na resposta a hemorragias graves, com implicações diretas para a sobrevivência em situações extremas, mesmo que alguns desfaois ainda sejam explorados em estudos futuros.

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