Cabras ferais viveram séculos sem água doce. Caso revela adaptação genética e reforça debates sobre conservação ambiental.
Por mais de dois séculos, cabras ferais sobreviveram em completo isolamento na Ilha de Santa Bárbara, no litoral sul da Bahia, sem acesso a qualquer fonte permanente de água doce.
O caso, investigado por cientistas brasileiros no início de 2025, envolve pesquisadores, órgãos ambientais e instituições de pesquisa que buscam entender como, por quê, onde, quando e por quem esses animais conseguiram se adaptar a um ambiente marcado pela escassez hídrica.
Localizada no Arquipélago de Abrolhos, a cerca de 65 quilômetros do município de Caravelas, a Ilha de Santa Bárbara tem apenas 1,5 quilômetro de extensão.
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Assim, apesar do tamanho reduzido e da ausência total de rios, lagos ou lençóis freáticos, o local abrigou um rebanho caprino por gerações inteiras, um fenômeno raro do ponto de vista biológico.
Cabras ferais e a ocupação humana no período colonial
As cabras ferais não são nativas da Ilha de Santa Bárbara.
De acordo com o Governo da Bahia, os animais foram introduzidos ainda no período colonial, quando navegadores europeus costumavam deixar espécies domésticas em ilhas remotas.
Assim, a prática tinha um objetivo estratégico.
As cabras funcionavam como uma reserva alimentar viva, permitindo que tripulações se abastecessem de carne durante viagens pelo litoral brasileiro.
Com o tempo, os animais ficaram isolados e passaram a sobreviver sem interferência humana direta.
Ilha de Santa Bárbara e a escassez hídrica extrema
A Ilha de Santa Bárbara é classificada por pesquisadores como um “cerrado insular”.
Isso significa que sua vegetação evoluiu para resistir à escassez hídrica, com predominância de cactos, gramíneas e plantas suculentas.
Nesse ambiente, a água disponível para as cabras ferais vinha quase exclusivamente do alimento consumido e da umidade captada do ambiente.
Assim, a sobrevivência por mais de 200 anos nessas condições levantou a hipótese de uma possível adaptação genética ao estresse hídrico.
Operação científica retira cabras ferais da Ilha de Santa Bárbara
No início de 2025, uma operação coordenada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade marcou um novo capítulo nessa história.
Com apoio da Marinha do Brasil, da Embrapa, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia, 21 animais foram capturados.
O objetivo foi compreender como esses animais se adaptaram à vida sem fontes hídricas perenes.
Adaptação genética pode beneficiar regiões semiáridas
Segundo o pesquisador Ronaldo Vasconcelos, do Departamento de Zootecnia da Uesb, a expectativa é encontrar respostas no DNA dos animais.
A adaptação genética observada nas cabras ferais pode revelar marcadores associados à eficiência no uso da água, resistência ao estresse hídrico e capacidade reprodutiva em ambientes extremos.
Conservação ambiental e recuperação dos habitats insulares
Assim, além da pesquisa científica, a retirada das cabras ferais da Ilha de Santa Bárbara também atende a objetivos de conservação ambiental.
Segundo o ICMBio, a ação segue um Plano de Manejo instituído em 2023.
Então o plano busca reduzir a pressão sobre a vegetação nativa, permitindo a recuperação natural dos habitats insulares e fortalecendo a resiliência ecológica da ilha.
Paralelamente, as instituições envolvidas planejam ampliar o rebanho em ambiente controlado e armazenar material genético em bancos especializados.
Ciência, produção sustentável e preservação caminham juntas
A iniciativa conecta ciência, produção agropecuária e conservação ambiental.
Assim, a história das cabras ferais da Ilha de Santa Bárbara deixa de ser apenas uma curiosidade histórica e se transforma em uma oportunidade concreta de inovação sustentável para regiões afetadas pela escassez hídrica.
