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Plantações de arroz viram solução urbana para evitar enchentes nas cidades mais vulneráveis do planeta

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Escrito por Flavia Marinho Publicado em 23/06/2025 às 20:11
Cidades esponja ou concreto? Plantações de arroz viram solução urbana para evitar enchentes
Cidades esponja ou concreto? Plantações de arroz viram solução urbana para evitar enchentes
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Como plantações de arroz inspiram soluções urbanas contra enchentes

Imagine morar em uma cidade tão propensa a enchentes que a água da chuva se acumula mais rápido do que os bueiros conseguem dar conta. Agora imagine resolver isso se inspirando em algo milenar: as plantações de arroz em terraços. Parece improvável? Pois é exatamente o que está acontecendo em algumas das cidades mais vulneráveis do planeta.

Quando a memória da infância vira alerta climático

Na Bangkok dos anos 1980, a arquiteta paisagista Kotchakorn Voraakhom lembra com carinho da vez em que brincou de barco nas águas da enchente que tomaram sua rua. “Eu fiquei tão feliz por não precisar ir à escola porque não sabíamos como chegar lá”, contou ela à BBC.

Trinta anos depois, a mesma água virou pesadelo. Em 2011, a Tailândia enfrentou a maior enchente em décadas: mais de 800 mortos e milhões de pessoas desalojadas. A cidade onde Voraakhom cresceu virou símbolo do colapso climático, e foi ali que ela decidiu agir.

A resposta está no arroz e no passado

Voraakhom fundou o escritório Landprocess e, desde então, vem desenhando espaços urbanos que se adaptam à água, e não tentam impedi-la. Um dos seus projetos mais inovadores está no telhado da Universidade Thammasat, em Bangkok. Em vez de concreto, ali existe uma verdadeira plantação de arroz distribuída em terraços, que imitam a agricultura milenar de encostas.

Essa estrutura não só retém até 20 vezes mais água da chuva do que um telhado tradicional, como ainda produz alimentos, reduz a temperatura interna do edifício em até 4 °C e utiliza painéis solares para bombear água de volta aos campos agrícolas no topo. O telhado verde cobre 22 mil metros quadrados, dos quais 7 mil são usados para agricultura orgânica, a maior fazenda urbana do tipo na Ásia.

Cidades-esponja: absorver é melhor que drenar

Esse conceito de imitar a natureza para conviver com as águas também ganhou força na China. O arquiteto e professor Yu Kongjian, da Universidade de Pequim, defende que a solução para o excesso de chuvas não está em tubos ou concreto, mas no solo e nas plantas.

Ele criou o conceito de cidades-esponja, onde parques, telhados verdes e margens de rios projetados como terraços de arroz ajudam a controlar enchentes e reciclar a água da chuva. Desde 1997, Yu já participou de projetos em mais de 500 cidades chinesas.

No Parque Yanweizhou, por exemplo, a estratégia reduziu o nível das cheias em até 63%. Já no Parque Houtan, em Xangai, uma área que antes era um aterro tóxico agora purifica até 800 toneladas de água por hectare por dia, graças ao uso de vegetação adaptada e formação de terraços. A água tratada ali já atinge o nível 3 de qualidade, o suficiente para a vida aquática.

Vietnã e Filipinas: arquitetura com raízes no arroz

Outros países também estão aplicando essa sabedoria ancestral. No Vietnã, o arquiteto Doan Thanh Ha, do estúdio H&P Architects, construiu casas de três andares com telhados agrícolas inspirados em arrozais. Uma dessas casas pode até flutuar em períodos de cheia, usando apenas bambu e materiais simples.

Nas Filipinas, iniciativas semelhantes já estão em uso em áreas de risco, ajudando comunidades vulneráveis a enfrentar furacões e o aumento do nível do mar com estruturas acessíveis e resilientes.

Bangkok: a cidade onde falta verde

Apesar da criatividade e tradição, Bangkok ainda sofre com a falta de áreas verdes. São apenas sete metros quadrados por habitante, um dos menores índices da Ásia. Em uma cidade com 11 milhões de habitantes e apenas 1,5 metro acima do nível do mar, o problema é urgente.

Para mudar isso, Voraakhom criou em 2017 o Parque Centenário Chulalongkorn, projetado com um leve declive de três graus, que direciona a água da chuva para tanques subterrâneos. O parque armazena 4,5 milhões de litros de água, o equivalente a uma piscina olímpica e meia.

Urbanismo de esponja ou concreto?

A ideia de usar infraestrutura verde (como terraços de arroz) em vez de estruturas rígidas (como canais e bombas) vem sendo debatida entre especialistas. Para Wang Yuhong, professor de engenharia da Universidade Politécnica de Hong Kong, ambas têm seu lugar.

Em cidades como Hong Kong, onde o relevo montanhoso favorece o escoamento rápido, já se investiu em túneis gigantes para evitar alagamentos. Um deles, inaugurado em 2012, custou o equivalente a R$ 2,8 bilhões. Para Wang, usar jardins em terraços pode ser mais barato e eficaz em locais similares.

No entanto, ele reconhece que a construção de áreas verdes em metrópoles superlotadas nem sempre é viável, principalmente onde não há espaço nem recursos suficientes. Por isso, grandes cidades como Tóquio também apostam em reservatórios subterrâneos para armazenar a água das tempestades.

Arroz como símbolo de reconexão

Para Voraakhom, o arroz não é apenas um alimento: é símbolo de como os povos do sudeste asiático sempre viveram em harmonia com a água. E é justamente essa harmonia que se perdeu com a urbanização desenfreada.

“A melhor região agrícola do mundo está se transformando na pior cidade possível para viver”, disse ela em entrevista, referindo-se a Bangkok. Sua esperança é que as cidades parem de tentar conter as águas e comecem a abraçá-lascom inteligência.

Cidades com um futuro que olha para o passado

As mudanças climáticas estão tornando as chuvas mais intensas, os verões mais secos e o nível do mar mais alto. Cidades como Jacarta, Ho Chi Minh e outras já estão afundando fisicamente, pressionadas pelo peso da construção e perda de lençóis freáticos.

Especialistas como a professora Shao Zhiyu, da Universidade de Chongqing, explicam que, diante de eventos extremos, não há como controlar totalmente as enchentes — só nos resta nos adaptar. Projetos de planejamento urbano já estão sendo desenhados para redirecionar a água para ruas secundárias, de forma que as rotas principais permaneçam funcionais mesmo durante tempestades severas.

O arquiteto Yu Kongjian resume essa filosofia com uma metáfora poderosa: “É hora de sermos amigos da água”. Criar espaços que acolhem e absorvem as chuvas pode ser a chave para um urbanismo mais resiliente e sustentável.

E você, já imaginou sua cidade usando arroz como inspiração para evitar enchentes? Deixe um comentário ou compartilhe este conteúdo com alguém que precisa pensar a cidade de um jeito novo. Vamos espalhar ideias que funcionam — e que vêm lá de milênios atrás.

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Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

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