Suposta descoberta sob a pirâmide de Khafre reacende teorias antigas, mas arqueólogos explicam por que os dados não sustentam a hipótese
Uma hipótese controversa sobre a existência de uma cidade secreta sob as pirâmides do Egito ganhou repercussão global em 2024, após dois pesquisadores italianos afirmarem ter identificado estruturas com até 38 mil anos enterradas sob o planalto de Gizé. No entanto, embora o anúncio tenha despertado curiosidade, especialistas em arqueologia e geociências rapidamente contestaram as conclusões, com base em dados consolidados.
Segundo o químico aposentado Corrado Malanga e o especialista em sensoriamento remoto Filippo Biondi, um novo método de interpretação de dados de radar de abertura sintética (SAR) teria revelado poços, passagens em espiral e grandes estruturas geométricas sob a pirâmide de Khafre, em Gizé. De acordo com os autores, os dados indicariam oito poços profundos, conectados a duas estruturas cúbicas de cerca de 90 metros, além de outras formações interligadas.
Tecnologia de radar gera interpretações controversas
No entanto, apesar da divulgação intensa, essas alegações não passaram por revisão por pares até o momento. Ainda assim, reconstruções visuais — muitas delas geradas por inteligência artificial — passaram a circular amplamente, associando as supostas estruturas a uma cidade lendária pré-histórica ou até a uma antiga usina de energia.
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Essas imagens, embora visualmente impactantes, extrapolam as limitações reais do SAR, tecnologia que não produz modelos tridimensionais completos nem permite visualizar estruturas a grandes profundidades com precisão científica.
Lendas antigas voltam ao centro do debate moderno

Foto de Christian Heeb, Laif, Redux
Historicamente, rumores sobre estruturas ocultas sob as pirâmides não são recentes. Relatos atribuídos a Heródoto, no século V a.C., já mencionavam passagens subterrâneas. Séculos depois, durante a Idade Média e o Renascimento, essas narrativas reapareceram em escritos e debates filosóficos.
Já no século XX, o médium americano Edgar Cayce popularizou a ideia de um “salão de registros” escondido sob Gizé, reforçando teorias que continuam sendo recicladas sempre que novas tecnologias surgem.
Arqueólogos questionam limites técnicos do estudo
Diante da repercussão, arqueólogos renomados se posicionaram. Em 2024, o arqueólogo Flint Dibble, da Universidade de Cardiff, explicou que o radar de abertura sintética não penetra quilômetros de rocha, alcançando apenas alguns metros abaixo da superfície, mesmo em condições ideais.
O divulgador científico Milo Rossi reforçou que as reconstruções divulgadas extrapolam os dados reais, enquanto o professor Lawrence B. Conyers, especialista em radar de penetração no solo da Universidade de Denver, classificou as alegações como “um grande exagero” em entrevistas concedidas no mesmo ano.
Falta de autorização oficial e críticas no Egito
Já o arqueólogo egípcio Zahi Hawass, ex-ministro de Antiguidades, afirmou em 2024 que as alegações são infundadas, ressaltando que nenhuma autorização oficial foi concedida para estudos desse tipo na pirâmide de Khafre, conforme normas do Conselho Egípcio de Antiguidades.
Segundo ele, qualquer pesquisa desse porte exigiria validação institucional e acompanhamento técnico, o que não ocorreu nesse caso.
Lençol freático contradiz hipótese de megastruturas
Outro ponto decisivo envolve o lençol freático do planalto de Gizé. Um estudo conduzido por Sharafeldin et al., publicado em 2019, demonstrou que a água subterrânea está a poucas dezenas de metros da superfície, causando erosão contínua em monumentos como a Esfinge.
Assim, estruturas gigantes a dois quilômetros de profundidade estariam permanentemente submersas, o que inviabiliza completamente a hipótese apresentada pelos pesquisadores italianos.
Água explica a construção das pirâmides, não tecnologia extraordinária
Além disso, pesquisas de Sheisha et al., divulgadas em 2022, mostraram que, entre 2600 e 2500 a.C., durante a construção das pirâmides, um braço navegável do rio Nilo alcançava o planalto de Gizé, facilitando o transporte das pedras utilizadas nas obras.
Dessa forma, processos naturais, logística fluvial e engenharia humana explicam a construção das pirâmides, sem necessidade de recorrer a tecnologias desconhecidas ou intervenções externas.
Diante de mais de dois séculos de estudos arqueológicos, geológicos e hidrológicos, o consenso científico permanece claro: não existem evidências confiáveis de uma cidade secreta sob as pirâmides do Egito.
Até que ponto narrativas fascinantes devem avançar quando entram em choque com dados históricos amplamente verificados?

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