1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. O primeiro reator nuclear modular americano começou a ser construído — e é menor que uma quadra de esporte
Faça um comentário 4 min de leitura

O primeiro reator nuclear modular americano começou a ser construído — e é menor que uma quadra de esporte

Imagem de perfil do autor Douglas Avila
Escrito por Douglas Avila Publicado em 29/06/2026 às 21:29 Atualizado em 29/06/2026 às 21:31
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

A Kairos Power começou a construção do Hermes em Oak Ridge, Tennessee — o primeiro reator nuclear de demonstração nos Estados Unidos licenciado pela NRC em mais de cinquenta anos, um pequeno modular que cabe num espaço menor que uma quadra de esporte, usa sal fundido como refrigerante em vez de água pressurizada e pode ser construído em fábrica antes de ser montado no local, mudando a lógica econômica que tornou a energia nuclear sinônimo de orçamento estouro e atraso de décadas.

O que é o Hermes e o que a Kairos Power está tentando provar

O Hermes não é uma usina nuclear comercial — é um reator de demonstração de 35 megawatts térmicos que não vai gerar eletricidade para a rede. O objetivo é provar que o design da Kairos Power — sal fundido de fluoreto de flibe como refrigerante, combustível TRISO encapsulado em esferas de grafite, operação a pressão atmosférica — funciona de forma segura e confiável em escala real antes de construir a versão comercial, o KP-FHR de 320 megawatts elétricos.

O projeto está em Oak Ridge por razões históricas e práticas: o Laboratório Nacional de Oak Ridge, do Departamento de Energia americano, tem décadas de experiência com reatores de sal fundido — o primeiro reator de sal fundido do mundo foi operado ali nos anos 1960 como parte do programa de bombardeiro nuclear Molten Salt Reactor Experiment. A infraestrutura e o conhecimento técnico existentes em Oak Ridge reduziram o custo e a complexidade de licenciamento do Hermes.

A NRC — Nuclear Regulatory Commission — emitiu a licença de construção em dezembro de 2023, depois de uma revisão de design que durou mais de dois anos. Foi a primeira licença de construção de reator nuclear não-água emitida nos EUA em mais de meio século.

Por que sal fundido em vez de água

Reatores de água leve convencionais — os que geram 93% da eletricidade nuclear americana — operam com água pressurizada a 155 bar de pressão para manter o refrigerante no estado líquido acima de 300 graus. Essa alta pressão é a fonte de risco dominante em acidentes: se o sistema de contenção falha, a água vira vapor explosivamente. É o que aconteceu em Three Mile Island em 1979 e o que contribuiu para o cenário de Chernobyl em 1986.

Sal fundido de fluoreto opera a pressão atmosférica. Não há pressurização, não há risco de explosão por despressurização súbita. Se o reator perder energia totalmente, o sal simplesmente endurece e bloqueia o fluxo de nêutrons por geometria — é um desligamento passivo por solidificação, sem necessidade de bombas, válvulas ou intervenção humana.

O combustível TRISO — partículas de urânio envolvidas em camadas de carbono e silício carbeto — pode suportar temperaturas muito maiores do que o combustível de UO₂ convencional sem liberar material radioativo. O resultado é um reator que, segundo simulações da Kairos, pode suportar perda total de refrigeração sem fusão de combustível — o cenário mais temido na história nuclear.

A promessa da modularidade e o que ainda é incerto

O argumento central dos SMRs — Small Modular Reactors — é que a fabricação em fábrica e a padronização de design reduzem custos e prazos de construção. Reatores convencionais como o AP-1000 foram projetados como projetos únicos construídos no local, com uma curva de aprendizado que recomeça a cada usina. A teoria do SMR é que a décima unidade sai mais barata e mais rápida que a primeira porque o processo de fábrica é refinado em série.

A teoria ainda precisa de prova em larga escala. O NuScale, outro SMR americano, teve seu projeto cancelado em 2023 depois que os custos projetados subiram de 58 para 89 dólares por megawatt-hora — ainda competitivo com energia solar sem armazenamento, mas não com a projeção original. A Kairos Power está apostando que seu design de sal fundido tem vantagens de custo que o reator de água pressurizada do NuScale não tinha.

Fico imaginando os engenheiros em Oak Ridge que trabalharam no reator de sal fundido dos anos 1960 — alguns ainda vivos, já que o projeto foi encerrado em 1969 — sabendo que o que eles provaram na teoria agora está sendo construído de novo, com sessenta anos de materiais avançados e computação disponíveis.

O Brasil e a corrida pelos reatores modulares

O Brasil tem o quinto ciclo completo de combustível nuclear do mundo, desde a mineração de urânio em Caetité até o enriquecimento em Resende e a fabricação de combustível para Angra 1 e Angra 2. Angra 3, o terceiro reator convencional, está em construção há décadas com orçamento e prazo estourados repetidamente — exatamente o problema que os SMRs prometem resolver.

A Eletronuclear está monitorando o desenvolvimento de SMRs internacionais. A GE Vernova Hitachi tem conversas avançadas com empresas brasileiras sobre o BWRX-300 — um reator de água fervente modular de 300 megawatts. Se o Hermes funcionar como esperado em Oak Ridge, vai ser o melhor argumento possível para que o Brasil avalie SMRs como alternativa ao terceiro grande reator convencional que o país precisará no médio prazo.

A longa história nuclear do Brasil merece uma usina que finalmente entregue no prazo e no orçamento.

Leia também: os data centers de IA que já contrataram reatores que nem existem | o robô Godzilla que está montando peça por peça o maior reator de fusão do mundo.

Você acha que os reatores nucleares modulares vão ser viáveis comercialmente no Brasil antes de 2040, ou o país deveria focar em renováveis para suprir a demanda de energia futura? Comenta aqui.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x