CIA financiou por 23 anos o Projeto Star Gate, programa secreto de espionagem psíquica criado na Guerra Fria para rastrear alvos soviéticos e missões sensíveis.
Segundo a History.com e documentos desclassificados da CIA, os Estados Unidos mantiveram por mais de duas décadas um programa secreto que testava o uso de pessoas com suposta percepção extra-sensorial em operações de inteligência. O projeto, que mais tarde ficou conhecido como Star Gate, envolveu a CIA, o Exército dos EUA e a Defense Intelligence Agency, e foi desenvolvido no contexto da Guerra Fria, quando Washington temia que a União Soviética estivesse investindo em pesquisas semelhantes.
A ideia parecia improvável até para os padrões mais ousados da disputa entre as superpotências, mas foi tratada com seriedade suficiente para receber financiamento oficial, estrutura institucional e continuidade ao longo de 23 anos. O objetivo era simples na lógica da época: se existisse qualquer chance de que a mente humana pudesse fornecer vantagem militar ou estratégica, os Estados Unidos não queriam correr o risco de ficar para trás.
Projeto Star Gate nasceu do medo de que a União Soviética avançasse em pesquisa psíquica
Segundo a History.com e os registros liberados pela CIA, o programa começou em 1972, quando cresceu dentro da comunidade de inteligência americana a preocupação com relatos de que os soviéticos estariam investindo em experimentos ligados a telepatia, influência mental e outras formas não convencionais de coleta de informação.
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Na lógica da Guerra Fria, o problema não era apenas acreditar ou não em poderes psíquicos. O problema era estratégico. Se o rival estivesse investigando algo com potencial militar, mesmo que parecesse improvável, ignorar totalmente aquela frente poderia ser visto como um erro grave. Foi essa mentalidade que abriu espaço para o financiamento de pesquisas que, em tempos normais, dificilmente seriam tratadas como prioridade de Estado.
O programa não foi conduzido como uma curiosidade marginal de algum agente excêntrico. Ele foi autorizado em níveis altos do governo americano e recebeu apoio institucional por anos, justamente porque se encaixava na lógica mais ampla da competição total entre Washington e Moscou.
CIA e militares recrutaram pessoas com supostos poderes de visão remota
Segundo a History.com e documentos da CIA, os participantes do programa eram homens e mulheres que afirmavam possuir capacidades de ESP, especialmente a chamada visão remota, termo usado para descrever a suposta habilidade de perceber pessoas, objetos ou lugares distantes sem contato físico direto.
Esses indivíduos passaram a ser testados em ambientes controlados para verificar se conseguiam descrever instalações, eventos ou alvos ocultos a partir de informações mínimas. Em algumas sessões, recebiam apenas um código, uma coordenada ou uma referência vaga. A partir disso, registravam impressões sobre formas, cores, estruturas, movimentos e características do alvo.
Ao longo dos anos, o programa assumiu formatos diferentes e mudou de nome em fases distintas, mas a ideia central permaneceu a mesma. O governo americano queria saber se essa capacidade poderia ser transformada em ferramenta útil para espionagem militar, operações clandestinas e missões sensíveis da comunidade de inteligência.
Pesquisas começaram no Stanford Research Institute e tentaram dar rigor científico ao ESP
Segundo os documentos da CIA, a base inicial do projeto ficou no Stanford Research Institute, na Califórnia, onde pesquisadores tentaram criar protocolos que dessem aparência de método científico aos experimentos com percepção extra-sensorial. A proposta era reduzir interferências subjetivas e estruturar as sessões de visão remota com regras mais rígidas.
Os participantes eram levados a registrar percepções em etapas. Primeiro, impressões sensoriais mais básicas. Depois, formas, direções, estruturas e esboços mais detalhados. A ideia era separar intuição espontânea, imaginação e possível informação útil, embora esse esforço nunca tenha eliminado totalmente a controvérsia em torno do programa.
Esse ambiente de laboratório ajudou a dar legitimidade interna ao projeto. Mesmo sem consenso científico, o fato de haver protocolos, pesquisadores envolvidos e documentação sistemática permitiu que a experiência continuasse sendo financiada por anos, sobretudo porque alguns resultados impressionaram parte dos analistas de inteligência.
Projeto secreto foi usado para procurar reféns, fugitivos e instalações soviéticas
Segundo a History.com e registros desclassificados da CIA, os chamados videntes remotos foram usados em missões que iam muito além da curiosidade científica. Eles participaram de tentativas de localizar reféns sequestrados por grupos terroristas, rastrear criminosos fugitivos dentro dos Estados Unidos e identificar instalações militares secretas na União Soviética.
Esse ponto é decisivo para entender o peso do programa. O Star Gate não ficou restrito a experiências internas ou testes abstratos em laboratório. Em diferentes momentos, a comunidade de inteligência realmente tentou usar essas sessões em contextos operacionais, tratando os relatos produzidos pelos participantes como possíveis insumos de informação.
A manutenção do financiamento por tantos anos sugere que, dentro do governo, havia pessoas convencidas de que pelo menos parte do material gerado merecia atenção. Mesmo quando os resultados eram controversos, o programa seguia vivo porque alguns episódios eram vistos como suficientemente intrigantes para justificar mais testes e mais dinheiro.
Ingo Swann, Pat Price e Joseph McMoneagle viraram os nomes mais ligados ao programa
Ao longo do tempo, alguns participantes se tornaram figuras centrais do projeto. Entre os nomes mais associados ao Star Gate estão Ingo Swann, Pat Price e Joseph McMoneagle, todos frequentemente citados nos relatos sobre a fase operacional da visão remota nos Estados Unidos.
Segundo a CIA e a History.com, esses participantes teriam produzido descrições que impressionaram analistas em diferentes momentos, inclusive em tentativas de localizar estruturas militares e alvos fora do alcance da observação direta. Parte da fama posterior do programa nasceu justamente dessas sessões consideradas bem-sucedidas por integrantes da inteligência.
Foi essa combinação de resultados impressionantes em alguns casos e falhas em muitos outros que sustentou a ambiguidade do projeto. Para os defensores, havia indícios de que algo incomum estava acontecendo. Para os críticos, os acertos destacados eram selecionados de um conjunto muito maior de erros, ambiguidades e interpretações vagas.
Projeto Star Gate acumulou relatórios secretos por décadas e virou símbolo dos excessos da Guerra Fria
Segundo a CIA, o programa gerou ao longo de sua existência um enorme volume de documentação classificada, acumulando relatórios, transcrições de sessões, avaliações internas e análises de uso operacional. Décadas depois, a agência liberou milhões de páginas de registros, confirmando publicamente que o projeto realmente existiu e foi mantido por longo período.
A desclassificação ajudou a desmontar a ideia de que tudo não passava de lenda conspiratória. O que os arquivos mostram de forma definitiva é que o governo americano investiu tempo, dinheiro e estrutura em uma tentativa séria de descobrir se a mente humana poderia ser usada como instrumento de inteligência.
O caso acabou se tornando um dos exemplos mais conhecidos de como a paranoia estratégica da Guerra Fria levou os Estados Unidos a investigar praticamente qualquer possibilidade de vantagem sobre o adversário soviético, inclusive hipóteses que a ciência convencional tratava com enorme ceticismo.
Relatório de 1995 encerrou o programa por falta de confiabilidade operacional
Segundo a History.com e os documentos desclassificados da CIA, o programa foi oficialmente encerrado em 1995, quando uma avaliação independente concluiu que a visão remota não havia demonstrado confiabilidade suficiente para uso operacional em inteligência.
Esse ponto é importante porque o relatório final não transformou o Star Gate em prova de poderes psíquicos, mas também não apagou a longa história do programa dentro do Estado americano. O encerramento ocorreu porque os resultados não eram consistentes o bastante para justificar seu uso como ferramenta prática em operações reais.
Na prática, a conclusão foi a seguinte: mesmo que algumas sessões parecessem impressionantes, o conjunto da experiência não entregava um padrão confiável para servir como método robusto de espionagem ou análise militar. Sem essa confiabilidade, o programa perdeu sua razão de existir no ambiente pós-Guerra Fria.
Star Gate mostrou até onde os EUA estavam dispostos a ir para não perder vantagem sobre Moscou
O caso do Projeto Star Gate continua chamando atenção porque revela um aspecto pouco discutido da inteligência americana: o quanto a disputa com a União Soviética expandiu os limites do que o governo aceitava investigar. Em uma época em que qualquer avanço possível do inimigo parecia ameaçador, até a hipótese de espionagem psíquica foi levada a sério.
Mais do que provar se a visão remota funcionava ou não, o programa expõe a lógica da Guerra Fria em seu estado mais puro. Se havia qualquer chance de utilidade estratégica, por menor que fosse, o custo político e financeiro de testar parecia aceitável. Foi essa lógica que manteve o projeto vivo por mais de vinte anos.
No fim, o Star Gate não entrou para a história como uma revolução da espionagem americana, mas como um dos capítulos mais estranhos, ambiciosos e reveladores da relação entre medo, poder e inteligência no século 20.r.
E se os soviéticos não estavam fazendo isso, o custo de verificar era pequeno demais para deixar de investigar. O programa durou 23 anos. O que os videntes viram — ou acharam que viram — permanece, em sua maior parte, classificado.

