A China concluiu em 29 de março de 2026, às 15h07 no horário de Pequim, a escavação subaquática do túnel ferroviário Chongming-Taicang, atravessando 11,18 quilômetros sob o leito do rio Yangtze a 89 metros de profundidade. Segundo a CGTN, a tuneladora “Linghang” levou 23 meses para vencer o trecho. Em 4 de abril de 2026, a agência Xinhua confirmou que a obra, de 14,25 quilômetros totais, se tornará o primeiro túnel fluvial do mundo projetado para operação contínua de trens a 350 quilômetros por hora, sem redução de velocidade ao cruzar sob o leito.
O túnel é parte da ferrovia de alta velocidade Shanghai-Chongqing-Chengdu, com investimento estimado em 530 bilhões de yuans (cerca de US$ 74 bilhões). Conforme apurou o Yicai Global, a rota liga o distrito de Chongming, em Xangai, à cidade de Taicang, na província de Jiangsu, e integra o plano chinês de levar a malha de alta velocidade a 60 mil quilômetros até 2030.

O recorde de 350 km/h sob água
Por dentro, o que faz o túnel Chongming-Taicang diferente é o desenho aerodinâmico do traçado. Em vez de obrigar o trem a desacelerar, engenheiros chineses adotaram raio de curvatura amplo e perfil retilíneo para neutralizar as forças laterais a 350 km/h. Conforme apurou a China Daily, em 8 de abril de 2026, a fase mais crítica da obra terminou com a chegada da Linghang à margem sul, em Taicang.
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O tubo de concreto pré-fabricado tem 15,4 metros de diâmetro interno. Cada anel pesa 540 toneladas e foi montado in situ. O sistema de via permanente usa trilhos sem juntas, soldados a 1.500°C, padrão Beijing-Shanghai. Os primeiros testes dinâmicos com trem-bala CR450 estão programados para o segundo trimestre de 2027.
A obra exigiu controle de pressão diferencial entre dois lados da Linghang. Engenheiros chineses operaram a tuneladora com pressão hidrostática de até 9,5 bares para impedir colapso do solo úmido na foz do Yangtze. A precisão do alinhamento ficou em 12 milímetros ao longo dos 11,18 km.
Linghang: a tuneladora-monstro de 15 metros
O reveal técnico está na máquina. A Linghang, desenvolvida pela China Railway Construction Heavy Industry, tem 148 metros de comprimento, 4 mil toneladas de peso e diâmetro de 15 metros — categoria do maior porte mundial para túneis ferroviários, segundo a American Society of Mechanical Engineers (ASME).
O equipamento avançou em média 16,8 metros por dia. A cabeça cortante (cutter head) leva 480 discos de aço endurecido capazes de fragmentar argila, areia e blocos de basalto residual da foz do Yangtze. Conforme apurou a Interesting Engineering, a Linghang foi o segundo TBM de classe 15 metros entregue pela China em 2024 — o primeiro tinha sido usado no túnel Shantou Bay.

Por que o Yangtze é o obstáculo geológico mais difícil
O Yangtze tem 6.300 quilômetros de extensão e desemboca no Mar da China Oriental carregando 478 quilômetros cúbicos de água por ano. Na foz, o leito é composto por sedimentos finos, argila plástica e bolsões de água sob pressão. Conforme a SteelOrbis, a obra exigiu fornecimento contínuo de 1,2 milhão de toneladas de aço estrutural só para os anéis de concreto pré-fabricado.
A foz do Yangtze também tem o que engenheiros chamam de “cone de descarga”: uma faixa de 60 km onde o sedimento se acumula a uma taxa de 480 milhões de toneladas por ano. A escolha da rota Chongming-Taicang evitou o ponto mais crítico do cone e reduziu a profundidade mínima do túnel de 115 m projetados originalmente para 89 m.
Quem paga: 530 bilhões de yuans e a corrida pela transportation superpower
O reveal humano vem do dinheiro e do plano de Estado. A ferrovia Shanghai-Chongqing-Chengdu custa 530 bilhões de yuans (US$ 74 bilhões) e é parte do roadmap “China — superpotência de transporte”, apresentado pelo Conselho de Estado em novembro de 2024. Conforme análise da MERICS, em Berlim, Pequim mira 60 mil km de HSR em 2030 ante 47 mil km operacionais hoje.
O presidente Xi Jinping declarou em outubro de 2025 que o avanço sob o Yangtze é “símbolo concreto da modernização à chinesa”. A frase foi reproduzida por portais oficiais do governo chinês e citada em discursos de Wang Wentao, ministro do Comércio, e Han Zheng, vice-presidente, durante reuniões da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma.
A presidente da China Railway Construction Corporation, Wang Jianzhong, assumiu pessoalmente a supervisão técnica em janeiro de 2025. A CRCC é uma das três maiores construtoras estatais do mundo, com receita anual de US$ 168 bilhões em 2024, segundo o ranking ENR Top 250 Global Contractors.

O efeito sobre cadeias globais: aço, cimento e energia
A escala da obra movimenta cadeias globais. A construção das 14,25 quilômetros consumiu 1,2 milhão de toneladas de aço (equivalente a 12% da produção anual da CSN no Brasil), 4,8 milhões de metros cúbicos de concreto e 720 megawatts de energia elétrica contínua durante os 23 meses. A China consome hoje 1,1 bilhão de toneladas de aço por ano, mais que toda a soma global de produção de 2024.
O Brasil ocupa posição estratégica nesse cenário. Como segundo maior fornecedor mundial de minério de ferro, com a Vale exportando 348 milhões de toneladas em 2024, o país é beneficiário indireto da corrida ferroviária chinesa. Para entender a escala, o trecho de 727 km da Transnordestina, que leva 67 anos sendo construído, recebe minério da Vale em comboios de até 18 mil toneladas. A China constrói o equivalente em 23 meses sob um rio.
Comparação com Reino Unido, Japão e Hong Kong
Para dimensionar o feito: o Eurotúnel, que liga Reino Unido à França sob o Canal da Mancha, tem 50,5 km, profundidade máxima de 75 m e levou 6 anos para ser construído entre 1988 e 1994 com investimento de £ 9 bilhões na época. O túnel Seikan, no Japão, opera desde 1988 com 53,9 km e 240 m sob o fundo do mar — mas trens passam a apenas 140 km/h. Em Hong Kong, o túnel sub-marítimo Hong Kong-Zhuhai-Macau (HZMB) tem 6,7 km submersos e velocidade máxima de 100 km/h.
Nenhum desses corredores opera HSR a 350 km/h sob água. A engenharia chinesa, segundo a CGTN, virou referência global de túneis submarinos para alta velocidade.
O reveal futuro: 60 mil km até 2030 e o efeito sobre o Brasil
O cronograma fala pelo futuro. A China deve abrir o trecho operacional do Chongming-Taicang em 2027 e expandir a rede de 47.000 km para 60.000 km até 2030. Isso significa construir 13 mil km adicionais em 4 anos — o equivalente a 9 km de HSR por dia. Em paralelo, a China negocia exportação da tecnologia LinghangTBM e CR450 para Argentina, Cazaquistão e Indonésia, conforme a US-China Economic and Security Review Commission.

Para o Brasil, a referência é desconfortável. Enquanto Pequim entrega 9 km de HSR por dia, o país segue debatendo o trem-bala Rio-São Paulo desde 2010 sem licitação publicada. Ainda assim, o avanço chinês cria oportunidade indireta para Vale e CSN, exportadoras de minério e aço para a cadeia. A pergunta que sobra: a engenharia ferroviária chinesa vai se exportar para o Brasil antes de o Brasil construir a sua?

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