Pesquisadores no Havaí testam uma mistura asfáltica feita com polietileno reciclado de redes de pesca abandonadas e resíduos plásticos residenciais, em uma experiência que tenta dar uso urbano a materiais difíceis de reaproveitar nas ilhas.
No Havaí, pesquisadores estão testando uma ideia que parece saída de um problema impossível de esconder: transformar redes de pesca abandonadas no mar e plástico doméstico em parte do asfalto usado em ruas urbanas.
A pesquisa, divulgada pela American Chemical Society durante a reunião ACS Spring 2026, envolve o Center for Marine Debris Research, da Hawaiʻi Pacific University. O ponto mais forte não está apenas na reutilização do lixo, mas no resultado inicial: após 11 meses de tráfego, a mistura com polietileno reciclado não liberou mais polímeros do que o pavimento tradicional analisado como controle.
E havia outro dado ainda mais chamativo. Segundo os pesquisadores, o desgaste dos pneus apareceu como uma fonte muito mais dominante de partículas na poeira da estrada.
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Redes abandonadas e plástico residencial entram na mistura do asfalto

O projeto usa polietileno reaproveitado de duas origens principais. Uma parte vem de resíduos plásticos residenciais recolhidos em contêineres de reciclagem de Honolulu. A outra vem de redes de pesca retiradas do ambiente marinho.
Esse material foi processado por uma empresa dos Estados Unidos para ser compatível com misturas asfálticas. Depois, foi aplicado em trechos experimentais de uma rua residencial na ilha de Oahu, no Havaí.
A proposta não é simplesmente jogar plástico na estrada. O objetivo é testar se resíduos difíceis de reciclar nas ilhas podem ter uma destinação mais longa e útil, sem aumentar o problema dos microplásticos no ambiente urbano.
Segundo a American Chemical Society, desde 2020 as estradas havaianas utilizam majoritariamente asfalto modificado com polímeros, conhecido como PMA. A fórmula tradicional usa SBS, um copolímero derivado de petróleo, para melhorar elasticidade, resistência a rachaduras, deformações e danos causados pela água.
No clima tropical do Havaí, com chuva forte e desgaste constante, esse tipo de desempenho é essencial.
Após 11 meses de tráfego, teste não indicou aumento de partículas plásticas

A grande dúvida era direta: se o plástico reciclado for colocado no asfalto, ele pode se soltar com o tempo e virar mais uma fonte de poluição?
Para responder a isso, os pesquisadores coletaram amostras de poeira do pavimento após cerca de 11 meses de tráfego regular. A comparação foi feita entre trechos com polietileno reciclado e trechos de controle com SBS, o polímero usado no asfalto tradicional.
Os primeiros resultados divulgados pela American Chemical Society indicaram que os pavimentos com polietileno reciclado não liberaram mais polímeros do que o pavimento convencional analisado.
Também foram feitas simulações com água de chuva coletada dos trechos experimentais. Os pesquisadores encontraram partículas em tamanho de microplástico, mas poucas foram identificadas como polietileno, independentemente do tipo de pavimento.
A hipótese da equipe é que os polímeros ficam fundidos no ligante asfáltico. Com isso, as partículas desprendidas da estrada não seriam plástico puro, mas uma mistura de rocha, ligante e cadeias poliméricas incorporadas ao material.
Pneus apareceram como fonte dominante na poeira da estrada
O dado mais surpreendente veio da comparação com os pneus.
A equipe usou uma técnica chamada Py-GC-MS, que combina pirólise, cromatografia gasosa e espectrometria de massas, para identificar polímeros presentes nas amostras.
Segundo Jennifer Lynch, pesquisadora citada pela American Chemical Society, o sinal causado pelo desgaste dos pneus encobriu o sinal do polietileno por ordens de magnitude. Na prática, os pneus apareceram como uma fonte muito mais forte de polímeros na poeira da estrada do que o próprio plástico reciclado incorporado ao asfalto.
Esse detalhe muda o centro da discussão. O receio inicial estava no reaproveitamento de plástico no pavimento, mas os dados preliminares apontaram para uma fonte cotidiana, silenciosa e constante: o atrito dos pneus com o asfalto.
Projeto começou em estrada de Oahu com equivalente a 195 mil garrafas plásticas
A Hawaiʻi Pacific University informou que a primeira estrada experimental de plástico no Havaí foi testada em outubro de 2022, na Fort Weaver Road, em Ewa Beach, na ilha de Oahu.
Naquele piloto, foram usadas 1.950 toneladas de asfalto modificado. A quantidade de plástico adicionada correspondia ao equivalente a 195 mil garrafas plásticas. Ainda assim, o peso do plástico representava apenas 0,05% do pavimento final.
Depois da aplicação, pesquisadores e estudantes simularam chuva sobre o pavimento para coletar o escoamento superficial e investigar se microplásticos ou substâncias sintéticas poderiam ser liberados.
A universidade destacou que, visualmente, a estrada parecia e se comportava como uma via asfaltada comum do Havaí.
Programa retirou 84 toneladas de equipamentos de pesca abandonados
O asfalto experimental também se conecta ao Bounty Project, iniciativa do Center for Marine Debris Research que paga pescadores comerciais licenciados para remover redes e equipamentos de pesca abandonados no Oceano Pacífico.
Segundo a American Chemical Society, o programa já havia retirado 84 toneladas de grandes equipamentos de pesca abandonados do oceano.
A Hawaiʻi Pacific University detalhou que, em pouco mais de três anos, foram mais de 185 mil libras de equipamentos recolhidos, número equivalente a cerca de 84 toneladas métricas. O projeto registrou mais de 690 eventos de recuperação, envolveu 77 pescadores comerciais e somou mais de 2.100 horas de trabalho voluntário.
Dentro do projeto experimental chamado Nets-to-Roads, 2.323 libras de equipamentos recuperados foram trituradas e recicladas em Ewa Beach.
Havaí tenta resolver um problema que chega pelo oceano
O desafio é maior porque o Havaí está no meio do Pacífico e recebe resíduos trazidos por correntes oceânicas.
A Hawaii Sea Grant informa que centenas de toneladas de redes danificadas ou abandonadas se enroscam nos recifes havaianos ou chegam às praias todos os anos. Em uma ação de limpeza realizada em 2021, perto do Monumento Nacional Marinho de Papahānaumokuākea, foi removida uma massa de plástico de 50 toneladas, formada principalmente por redes de pesca.
A mesma fonte aponta que muitas dessas redes não são geradas localmente, o que dificulta ações educativas diretamente com quem descartou o material.
Por isso, o plano envolve uma cadeia mais ampla: detectar, documentar, retirar, transportar, armazenar, separar e reaproveitar os resíduos.
Estudo mostra que benefício depende de como o plástico é usado
Um estudo de avaliação de ciclo de vida publicado em 2026 e citado pela ScienceDirect analisou estratégias para redes de pesca abandonadas e plásticos pós-consumo no Havaí.
O resultado indicou que a reciclagem mecânica local reduz impactos ambientais em comparação com o processamento no continente. Para redes de pesca abandonadas, a reciclagem nas ilhas reduziu o potencial de aquecimento global em cerca de 75% em comparação com o processamento fora do Havaí.
Mas há uma ressalva importante. O estudo também mostrou que substituir parcialmente o SBS virgem por polietileno reciclado de alta densidade no ligante asfáltico pode reduzir o potencial de aquecimento global em até 12,6%. Porém, apenas adicionar polímeros reciclados sem substituir materiais virgens pode aumentar impactos.
Ou seja, a solução não depende apenas de usar plástico reciclado. Depende de como, onde e com qual finalidade ele entra na mistura.
Teste ainda precisa provar durabilidade antes de crescer
A própria American Chemical Society afirma que mais pesquisas são necessárias para avaliar a durabilidade do pavimento ao longo do tempo.
A Science News também destacou que a fórmula precisa ser ajustada ao contexto havaiano, marcado por clima tropical, chuvas fortes e condições geológicas diferentes das encontradas no continente dos Estados Unidos.
Por enquanto, o que existe é um sinal promissor, não uma solução definitiva.

