Na China, debate sobre restringir jornadas exaustivas ganha força diante do avanço do ritmo 996, do desinteresse dos jovens por casamento e do novo recuo no número de nascimentos
A China volta a discutir uma saída incomum para enfrentar sua crise demográfica: limitar as horas extras nas empresas para dar aos trabalhadores mais tempo livre, mais energia e, na visão de Pequim, melhores condições para namorar, casar e ter filhos. A proposta surge depois de uma sequência de medidas que não conseguiu reverter a queda da natalidade no país.
O debate cresce num momento em que a China convive com jornadas exaustivas, especialmente entre os jovens, e vê a rotina de trabalho se transformar em um obstáculo direto à vida afetiva e familiar. A sensação de que não há tempo para tudo tem alimentado um cenário em que relacionamentos, casamento e filhos acabam sendo deixados de lado.
China passa a olhar para as horas extras como parte do problema
Durante as chamadas Duas Sessões, realizadas em março em Pequim, a limitação das horas extras entrou na discussão como uma possível resposta à crise demográfica.
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A ideia apareceu no centro de um debate mais amplo sobre medidas para estimular tanto o consumo quanto a formação de famílias.
Nesse contexto, Lu Ming, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, professor universitário e assessor do governo de Xangai, sugeriu que reduzir o tempo dedicado ao trabalho pode ajudar a abrir espaço para a vida pessoal.
A lógica é simples e direta: menos horas no trabalho poderiam significar mais tempo para relacionamentos, casamento e planejamento familiar.
O ritmo 996 virou símbolo da pressão no mercado de trabalho
A proposta não nasce por acaso. Em várias empresas chinesas, sobretudo no setor de tecnologia, a chamada cultura 996 se tornou um retrato da sobrecarga. Na prática, isso significa trabalhar das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana.
Além da jornada pesada, há ainda o peso das chamadas horas extras invisíveis, quando o funcionário continua conectado à empresa pelo celular mesmo fora do expediente. O trabalho deixa de terminar de verdade, o que afeta descanso, saúde mental e qualidade de vida.
Jovens dizem que falta tempo até para namorar
A discussão ganhou força também porque esse impacto já aparece no cotidiano dos mais jovens. O estudante Owen Cao, citado na base, relatou que conciliava aulas de engenharia, pesquisas, atividades de clube estudantil e hobbies, sem encontrar espaço para pensar em namoro ou paternidade.
O caso dele não é isolado. Em 2021, uma pesquisa do China Youth Daily com mais de 14 mil universitários mostrou que quase 70% dos entrevistados eram solteiros.
A rotina apertada aparece como uma barreira concreta para quem até gostaria de construir uma vida afetiva, mas sente que não consegue encaixar tudo no mesmo dia.
China já tentou outras medidas, mas os resultados foram fracos
O debate sobre limitar horas extras mostra que a China vem testando diferentes caminhos para tentar elevar a natalidade.
Entre as propostas discutidas, surgiram ideias como criar um novo feriado para estimular consumo e facilitar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, além da distribuição de vouchers para famílias.
O problema é que, até agora, essas iniciativas não conseguiram mudar o quadro de forma significativa. Pequim acumula tentativas, mas segue sem encontrar uma solução eficaz para conter a queda no número de nascimentos.
A crise demográfica segue se aprofundando
Os números mais recentes ajudam a explicar a urgência do debate. Em 2025, a taxa de natalidade da China caiu para 5,63 por 1.000 habitantes, o menor patamar desde que o Partido Comunista chegou ao poder, há 77 anos.
No mesmo período, a taxa de mortalidade também subiu para um nível histórico, o que levou o país a perder cerca de 3,4 milhões de habitantes. O cenário mistura menos nascimentos e mais mortes, ampliando a pressão sobre o governo chinês.
Não é só falta de tempo, mas o tempo pesa muito
A própria discussão deixa claro que o problema não se resume apenas à jornada de trabalho. Fatores culturais e sociais também influenciam a decisão de ter filhos, assim como o custo da maternidade e a herança da política do filho único, que marcou a sociedade chinesa por décadas.
Ainda assim, o ambiente de trabalho aparece como uma peça central. Quando os jovens sentem que precisam usar toda a energia disponível para estudar, produzir e sobreviver num mercado competitivo, relacionamentos acabam perdendo espaço. A vida pessoal vira aquilo que sobra, e muitas vezes não sobra nada.
Limitar horas extras pode virar a última cartada
Ao discutir restrições às horas extras, a China tenta atacar uma parte visível do problema: a falta de tempo e de energia para construir vínculos.
A aposta é que jornadas menos sufocantes possam melhorar a saúde dos trabalhadores, estimular o consumo e, ao mesmo tempo, criar condições mais favoráveis para casamento e filhos.
A proposta ainda está no campo do debate, mas revela o nível de preocupação das autoridades com a trajetória demográfica do país.
Depois de tantas medidas sem resultado, a China começa a tratar o excesso de trabalho como parte direta da crise da natalidade.
Você acha que limitar horas extras pode mesmo fazer os jovens da China voltarem a pensar em namoro, casamento e filhos?
