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China cerca o maior deserto do país com um gigantesco cinturão verde de 3.046 km, transforma o “mar da morte” em um “cachecol ecológico” e usa vegetação, palha e energia solar para travar a areia, proteger oásis, salvar cidades e criar renda bilionária para famílias no deserto

Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/05/2026 às 23:54
Assista o vídeoChina cerca o deserto de Taklimakan com cinturão verde de 3.046 km para conter areia com plantas, palha, energia solar e engenharia. (Imagem: Ilustrativa)
China cerca o deserto de Taklimakan com cinturão verde de 3.046 km para conter areia com plantas, palha, energia solar e engenharia. (Imagem: Ilustrativa)
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A China transformou a borda do Taklimakan em uma faixa de contenção ambiental com vegetação, palha, irrigação e energia solar, em um projeto que une engenharia, ciência e participação de comunidades locais.

A China concluiu um cinturão verde de 3.046 quilômetros ao redor do deserto de Taklimakan, em Xinjiang, no noroeste do país, para reduzir o avanço da areia sobre oásis, lavouras, pastagens, estradas e áreas habitadas.

A barreira combina árvores resistentes à seca, grades de palha, irrigação, energia solar e obras de fixação de dunas, segundo informações divulgadas pela agência estatal Xinhua.

O projeto foi fechado em 28 de novembro de 2024, após 46 anos de ações associadas ao programa Three-North Shelterbelt, iniciado em 1978 e previsto para seguir até 2050.

A Reuters informou que a campanha faz parte do esforço chinês para conter desertificação e tempestades de areia, mas também registrou questionamentos sobre a sobrevivência de árvores em áreas áridas e sobre os limites da medida contra tempestades que atingem regiões distantes.

Taklimakan é o maior deserto da China

O Taklimakan é o maior deserto da China e um dos maiores desertos de areia móvel do mundo.

De acordo com a Xinhua, ele ocupa cerca de 337,6 mil km² e tem perímetro aproximado de 3.046 km, extensão usada como referência para o cinturão construído ao redor de sua borda.

A mobilidade das dunas é um dos pontos centrais do problema.

Em trechos de Xinjiang, a areia se desloca com o vento e pode alcançar áreas agrícolas, canais, rodovias e vilas.

Por isso, o projeto trata a periferia do deserto como uma faixa de contenção, formada por vegetação, barreiras físicas e infraestrutura de água.

A proposta não é eliminar o deserto, mas reduzir a dispersão da areia em áreas consideradas vulneráveis pelas autoridades chinesas.

Essa diferença é importante porque regiões áridas têm dinâmicas próprias de solo, vento e água, e intervenções desse tipo dependem de manutenção contínua e adaptação local.

O que há na borda do deserto

Nos trechos mais expostos, trabalhadores usam a técnica conhecida como “tabuleiro de xadrez” de palha.

Imagem Reprodução/Xinhua/Ding Lei
Imagem Reprodução/Xinhua/Ding Lei

A estrutura divide o solo arenoso em pequenos quadrados, diminui a velocidade do vento perto da superfície e ajuda a segurar as dunas no lugar antes do plantio.

Depois da fixação inicial, entram espécies adaptadas à aridez, como saxaul, salgueiro-vermelho, choupo-do-Eufrates e outras plantas capazes de suportar calor, salinidade e baixa disponibilidade de água.

A escolha das espécies varia conforme o solo, o vento e as condições hídricas de cada área.

Em Yutian, uma das regiões citadas pela Xinhua, a combinação de grades de palha e modelagem do terreno foi associada à redução de custos de nivelamento e ao aumento da taxa de sobrevivência da vegetação.

Os percentuais apresentados, no entanto, foram informados pela própria agência estatal chinesa e não foram confirmados de forma independente por fontes externas.

Em Shaya, também em Xinjiang, parte do controle da desertificação utiliza sistemas fotovoltaicos para bombear água subterrânea salobra e alimentar irrigação por gotejamento.

Segundo Song Ye, diretor do departamento local de florestas e pastagens, o condado instalou mais de 30 sistemas distribuídos de bombeamento solar e converteu 63 mil mu de deserto em área produtiva.

A Reuters também registrou o uso de painéis solares em projetos de combate à desertificação no norte e no oeste da China.

Nesse modelo, as placas geram energia, criam sombra e reduzem a evaporação no solo, o que pode favorecer o crescimento de arbustos e gramíneas em ambientes secos, segundo responsáveis pelos projetos ouvidos pela agência.

Uma foto aérea feita por drone mostra moradores construindo barreiras de palha em formato de tabuleiro de xadrez -  Imagem Reprodução/Xinhua/Ding Lei
Uma foto aérea feita por drone mostra moradores construindo barreiras de palha em formato de tabuleiro de xadrez – Imagem Reprodução/Xinhua/Ding Lei

Engenharia e ciência no combate à desertificação

O cinturão do Taklimakan foi incluído entre os Top 10 Global Engineering Achievements de 2025, seleção ligada à Federação Mundial de Organizações de Engenharia.

A publicação técnica descreveu a obra como uma barreira ecológica verde ao redor de um deserto, com uso combinado de arborização, pastagens, fixação mecânica de areia e controle apoiado por energia fotovoltaica.

A Academia Chinesa de Ciências informou que uma expedição de 16 dias percorreu a borda de 3.046 km para avaliar efeitos e problemas do chamado projeto de “travamento” do deserto.

O levantamento reuniu pesquisadores de instituições de Xinjiang e do Instituto de Ecologia e Geografia da própria academia.

Esse acompanhamento é necessário porque a eficácia de uma barreira verde depende de fatores locais.

Disponibilidade de água, salinidade, direção dos ventos, tipo de solo e sobrevivência das mudas podem alterar o resultado de uma área para outra.

Em regiões mais protegidas, uma técnica pode ajudar a estabilizar o solo.

Em corredores de vento ou pontos com dunas móveis, a mesma solução pode exigir reforço, troca de espécies ou manutenção mais frequente, de acordo com a lógica descrita por pesquisadores e técnicos envolvidos nos projetos de desertificação.

Comunidades rurais participam da recuperação

O projeto também passou a envolver comunidades que vivem perto do deserto.

Em Hotan, moradores como Tursunbaq Mahmuthet e Sudiumay Tursun retornaram à região natal para participar de ações de restauração e cultivo em áreas recuperadas, segundo a Xinhua.

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“Quando éramos jovens, toda esta área era deserto”, disseram os dois à agência chinesa, ao falar sobre o plantio de mudas em terras antes cobertas pela areia.

A fala foi mantida porque consta no texto original da Xinhua e está atribuída aos entrevistados.

O casal passou a integrar uma cooperativa com outras famílias para plantar tamareiras-do-deserto em uma área recuperada.

No condado de Hotan, os esforços acumulados de controle da desertificação alcançaram 61,8 mil mu e beneficiaram 1.278 famílias, segundo os dados divulgados pela agência estatal.

Outro trecho citado com frequência pelo governo chinês é a rodovia do deserto de Tarim.

A via, apresentada como a primeira estrada desértica da China, tem uma faixa de proteção de 436 km com mais de 20 milhões de plantas tolerantes à seca, entre elas saxaul e salgueiro-vermelho, de acordo com a Xinhua.

Economia cresce na borda da areia

Além da contenção da areia, autoridades regionais associam o cinturão verde ao crescimento de atividades econômicas em áreas de borda.

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Em Yutian, campos de rosas próximos à rodovia G315 abastecem cadeias de cosméticos e produtos farmacêuticos, segundo a agência chinesa.

O mesmo condado concentra, de acordo com a Xinhua, cerca de 80% da produção chinesa de cistanche, planta usada na medicina tradicional chinesa.

A atividade foi associada pela agência à geração de mais de 10 mil empregos locais.

Em abril de 2026, a Xinhua informou que as chamadas indústrias baseadas na areia ocupavam 10,83 milhões de mu, cerca de 722 mil hectares, com valor anual de produção de 28,975 bilhões de yuans.

Entre as atividades citadas estão plantas medicinais, frutas, pistache, rosas, turismo ecológico e cadeias de processamento rural.

Os números indicam a dimensão econômica atribuída pelo governo chinês à recuperação da borda do Taklimakan.

Ainda assim, parte dos dados sobre renda, turismo, empregos e produtividade vem de fontes oficiais chinesas, sem confirmação independente ampla em bases internacionais consultadas.

A Reuters registrou que 26,8% do território chinês continuava classificado como desertificado, uma queda pequena em relação aos 27,2% de uma década antes.

A agência também citou críticas à estratégia, entre elas baixa sobrevivência de árvores, efeitos limitados sobre tempestades de areia e riscos de desequilíbrio ecológico quando projetos de plantio não se adaptam ao ambiente local.

Para pesquisadores e técnicos ouvidos em reportagens sobre o tema, projetos desse tipo dependem de monitoramento permanente.

Mohamed Elfleet, pesquisador consultor da Universidade Rei Abdulaziz, na Arábia Saudita, afirmou à Xinhua que experiências de controle da desertificação podem ser transferidas para outras regiões, desde que sejam ajustadas às condições locais.

Peter Gilruth, assessor sênior da unidade de mobilização de recursos do World Agroforestry, também foi citado pela Xinhua ao afirmar que o combate à desertificação vai além da proteção de oásis.

“Este é um desafio sistêmico que afeta continentes inteiros e a comunidade global”, disse ele à agência.

No caso do Taklimakan, a experiência reúne uma barreira física, espécies resistentes, irrigação localizada, energia solar e participação de comunidades rurais.

A questão em análise por pesquisadores, governos e organismos internacionais é até que ponto esse modelo pode ser mantido em escala continental sem ampliar a pressão sobre água, solo e biodiversidade em regiões já vulneráveis.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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