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A “tampa” de água doce que preocupa cientistas: Groenlândia derrete, pode enfraquecer correntes do Atlântico e já é monitorada por robôs, satélites e inteligência artificial antes de alterar o clima nas próximas décadas

Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/05/2026 às 23:19
Assista o vídeoDerretimento da Groenlândia pode criar camada de água doce no Atlântico e afetar correntes que regulam o clima já na década de 2040. (Imagem: Ilustrativa)
Derretimento da Groenlândia pode criar camada de água doce no Atlântico e afetar correntes que regulam o clima já na década de 2040. (Imagem: Ilustrativa)
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A expedição investiga como a água doce liberada por geleiras da Groenlândia pode alterar correntes do Atlântico Norte, em um processo observado com robôs, satélites, inteligência artificial e medições inéditas.

O derretimento de geleiras da Groenlândia é investigado por uma equipe internacional de cientistas por seu possível efeito sobre a circulação do Atlântico Norte.

Segundo o British Antarctic Survey, a entrada de grandes volumes de água doce no oceano pode formar uma camada superficial menos salgada, descrita pelos pesquisadores como uma espécie de “tampa”, capaz de interferir em processos que ajudam a regular correntes ligadas ao clima na Europa e na América do Norte.

Algumas estimativas citadas pela instituição apontam que mudanças no Giro Subpolar do Atlântico Norte podem ocorrer já na década de 2040.

A investigação faz parte do projeto GIANT, sigla em inglês para Greenland Ice sheet to AtlaNtic Tipping points from ice loss.

A iniciativa é liderada pelo British Antarctic Survey, financiada pela Advanced Research and Invention Agency e reúne 17 parceiros em uma colaboração internacional de cinco anos, com início em 1º de abril de 2025 e término previsto para 31 de março de 2030.

O objetivo do programa é medir como as geleiras localizadas em fiordes da Groenlândia liberam água de derretimento, de que forma esse fluxo chega ao Atlântico Norte e como esse processo se relaciona com a circulação oceânica.

O tema mobiliza pesquisadores porque a interação entre geleiras costeiras e oceano ainda não é representada com precisão em modelos climáticos globais, segundo as instituições envolvidas no projeto.

Como a água doce da Groenlândia pode mudar o Atlântico

A água doce altera o oceano por uma razão física: ela tem menos sal e tende a ser menos densa do que a água marinha.

No Atlântico Norte, parte da circulação depende do resfriamento e do afundamento de águas mais densas, que ajudam a redistribuir calor.

Quando o derretimento da Groenlândia aumenta a presença de água doce na superfície, esse mecanismo pode ser afetado, de acordo com a hipótese investigada pelos cientistas.

Esse efeito é o que os pesquisadores chamam de “tampa”.

A camada superficial menos salgada pode dificultar a mistura vertical no oceano e reduzir a formação de águas densas.

O risco avaliado não se limita ao volume total de gelo perdido, mas inclui o local, o ritmo e a forma como essa água chega ao sistema oceânico.

O Giro Subpolar do Atlântico Norte fica ao sul da Groenlândia e se conecta a áreas importantes de circulação no oceano.

Esse sistema transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte e influencia temperaturas e padrões meteorológicos em regiões da Europa e da América do Norte, segundo o British Antarctic Survey.

Ponto de inflexão climático e o risco para as correntes oceânicas

Na ciência do clima, um ponto de inflexão ocorre quando uma parte do sistema terrestre ultrapassa um limite crítico.

Depois desse patamar, mudanças podem se acelerar e se tornar difíceis de reverter.

Esse conceito é usado em estudos sobre camadas de gelo, florestas, correntes oceânicas e outros componentes do planeta.

No caso da Groenlândia, a questão central é saber se o aumento da água doce no Atlântico Norte pode enfraquecer processos oceânicos dependentes de temperatura, salinidade e densidade.

Ainda não há uma data definida para uma eventual mudança abrupta, mas pesquisadores buscam identificar sinais que permitam antecipar riscos.

O Global Tipping Points Report descreve a circulação do Atlântico como uma área de atenção científica por sua relação com transporte de calor, clima regional e ecossistemas marinhos.

O relatório também aponta que modelos atuais ainda têm limitações para prever quando determinados limiares podem ser cruzados.

Os fiordes são um dos pontos menos compreendidos desse sistema.

A costa da Groenlândia tem cerca de 200 fiordes estreitos, profundos e de difícil representação em modelos globais, segundo o Alan Turing Institute e o British Antarctic Survey.

É nesses canais que geleiras liberam água de derretimento e icebergs no oceano.

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Fiordes da Groenlândia estão no centro da expedição

O GIANT concentra suas campanhas de campo em dois tipos de geleiras.

No sudeste da Groenlândia, o projeto estuda geleiras próximas a Kangerlussuaq, que correm por fiordes longos e estreitos e terminam em paredes de gelo em contato com o mar.

No noroeste, a pesquisa inclui a geleira Petermann, mais larga e com uma extensa língua flutuante de gelo.

A comparação entre esses ambientes permite avaliar respostas diferentes ao aquecimento do oceano e da atmosfera.

Em algumas áreas, a mistura de gelo marinho e blocos de icebergs pode reduzir temporariamente o desprendimento de novos blocos no inverno.

Quando esse material se dispersa no verão, as geleiras podem recuar mais rapidamente, conforme descreve o British Antarctic Survey.

Para registrar esses processos, a expedição usa navios, drones, satélites, embarcações não tripuladas, submarinos autônomos e sensores instalados diretamente no gelo.

O navio de pesquisa RRS Sir David Attenborough, operado pelo British Antarctic Survey, funciona como laboratório flutuante e base para o lançamento de veículos autônomos.

As medições incluem profundidade dos fiordes, formato do fundo marinho, temperatura, salinidade e correntes.

Também são observadas rachaduras, desprendimento de icebergs e entrada de água de derretimento no oceano.

A proposta é conectar processos que ocorrem em pequena escala à resposta das geleiras e da circulação oceânica.

O oceanógrafo Pierre Dutrieux, do British Antarctic Survey, afirmou que, para entender como geleiras derretem e se fraturam, é preciso estar “onde o gelo encontra o oceano”.

Segundo ele, a nova geração de sensores robóticos é necessária porque esse ambiente é perigoso e de difícil acesso para medições convencionais.

Modelos climáticos ainda tentam representar a perda de gelo

Outra frente do GIANT é a modelagem computacional.

O projeto pretende melhorar a forma como os fiordes da Groenlândia são incorporados ao UK Earth System Model, principal modelo climático usado pelo Reino Unido.

De acordo com o British Antarctic Survey, modelos atuais ainda omitem ou representam de forma incompleta processos que ocorrem no contato entre geleiras e oceano.

Essa limitação é relevante porque pequenas interações locais podem se acumular e produzir efeitos em escalas maiores.

O derretimento na borda de uma geleira altera a entrada de água doce no oceano; essa água modifica salinidade e densidade; e essas mudanças podem interferir em correntes que atuam longe da frente de gelo.

O glaciologista Donald Slater, da Universidade de Edimburgo, integra a equipe do projeto e afirmou que modelar esses sistemas é difícil porque processos que ocorrem em escala de milímetros podem estar relacionados a correntes oceânicas a centenas de quilômetros de distância.

Segundo ele, os modelos protótipos precisam de observações diretas dos fiordes para serem testados e refinados.

O trabalho também usa inteligência artificial para organizar e combinar dados obtidos por satélites, navios e veículos autônomos.

O Alan Turing Institute participa dessa etapa por meio de ferramentas capazes de transformar observações fragmentadas em informações úteis para mapear condições da camada de gelo e alimentar modelos de previsão.

Inteligência artificial entra na busca por alerta precoce

Além das medições e dos modelos climáticos, o GIANT testa um protótipo de sistema de alerta precoce para mudanças rápidas nas geleiras da Groenlândia.

A ferramenta pretende combinar observações de satélite, dados de campo, inteligência artificial e modelagem estatística para indicar quando a perda de gelo em direção ao Atlântico Norte pode aumentar de forma súbita.

A ARIA, responsável pelo programa Forecasting Tipping Points, afirma que a criação de sistemas de detecção e previsão é uma resposta à dificuldade atual de antecipar quando pontos de inflexão climática podem ser cruzados.

Entre os alvos do programa estão a camada de gelo da Groenlândia e o Giro Subpolar do Atlântico Norte.

Sarah Bohndiek, diretora do programa na ARIA, afirmou que a incapacidade de prever esses limiares deixa governos, setores produtivos e a sociedade com menos instrumentos para lidar com consequências potencialmente irreversíveis.

Segundo ela, sistemas de alerta podem apoiar ações de adaptação climática com base em informação antecipada.

Os efeitos observados na Groenlândia também têm dimensão local.

O recuo de geleiras e alterações na formação de gelo nos fiordes podem afetar comunidades costeiras e atividades tradicionais, como deslocamentos e pesca em áreas congeladas.

No plano global, a perda de gelo contribui para a elevação do nível médio do mar e pode alterar padrões de circulação oceânica.

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Karlos Bambino
Karlos Bambino
25/05/2026 07:39

Tem mais que derreter mesmo… Tanta gente passando cede no mundo, desertos ultra cecos… Calor infernal que está o mundo… Tem que derreter, dividir a água gelada para todos e molhar o deserto no continente africano pra ver se dá uma melhoradinha aí…. Por favor né?

Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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