Com a mineração como prioridade ambiental e econômica, o país consolida o modelo de “minas verdes” em lei, adota operação inteligente e mostra casos em Gansu, Hunan e Mongólia Interior que combinam restauração, energia fotovoltaica e turismo industrial
A China anunciou que já construiu mais de 5.500 minas verdes em nível provincial ou superior, um marco que indica avanço concreto na direção de uma mineração mais sustentável e ecologicamente correta. A informação foi apresentada por autoridades de recursos naturais em uma coletiva de imprensa em Pequim, na véspera do Dia Mundial da Terra, destacando que a mineração verde deixou de ser exceção e passou a ser tratada como padrão a ser perseguido.
O movimento chama atenção pela escala e pelo pacote de medidas que acompanha o número. Além de metas e seleção de projetos, a China afirma que incorporou requisitos de mineração verde à Lei de Recursos Minerais e ao Código de Meio Ambiente Ecológico, fortalecendo a base legal, e vem ampliando soluções como usinas solares, caminhões elétricos e operações inteligentes, ao mesmo tempo em que acelera a recuperação ambiental e tenta requalificar antigas áreas mineradas como pontos turísticos.
Mineração verde vira política de Estado e ganha respaldo em lei
Segundo Dong Qingji, vice-diretor-geral do departamento de proteção e supervisão de recursos minerais do Ministério de Recursos Naturais, a construção de minas verdes se tornou um consenso entre governos locais, órgãos reguladores, empresas de mineração e o público. A mensagem central é que a mineração sustentável não depende apenas de um projeto pontual, mas de um sistema.
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Esse sistema, descrito como já amplamente implementado, combina orientação governamental, coordenação entre departamentos, liderança empresarial e supervisão pública. Na prática, isso significa que a mineração verde passa a ser cobrada desde o planejamento até a operação, com exigências incorporadas a marcos legais nacionais.
Os números que explicam a virada: mais de 5.500 minas verdes e uma nova seleção nacional
O dado mais direto é o volume: mais de 5.500 minas verdes reconhecidas em nível provincial ou superior. Esse número é apresentado como evidência de progresso “substancial” na transição para um modelo de mineração mais sustentável.
Além do que já foi feito, o Ministério de Recursos Naturais informou que está realizando uma nova rodada de seleção para minas sustentáveis em nível nacional. A intenção declarada é acelerar o desenvolvimento de alta qualidade da indústria de mineração e contribuir para a construção de uma “China mais bela”, conectando produção, eficiência e recuperação ambiental.
Como funciona na prática: mineração com recuperação ambiental por etapas e por zonas
Um ponto repetido pelas autoridades é o princípio de “mineração com recuperação ambiental”. Na descrição oficial, as áreas de mineração implementam planos de restauração ecológica de forma faseada e por zonas, com governança e reabilitação ambiental ocorrendo ao longo do tempo, e não apenas ao final da exploração.
A promessa é atacar um problema histórico do setor: as “cicatrizes industriais” deixadas pela mineração extensiva do passado. Em alguns locais, essas marcas teriam sido revitalizadas e transformadas em pontos turísticos, reformulando a imagem de empresas de mineração e criando novas funções para áreas antes degradadas.
Guojiagou: mineração subterrânea, preenchimento com rejeitos e a mina que virou atração turística
Um exemplo apresentado como modelo é a mina de chumbo-zinco de Guojiagou, em Longnan, na província de Gansu. Ali, segundo o relato, as operações de mineração ficam escondidas da vista, enquanto paisagens dominam o cenário, funcionando como vitrine de mineração verde moderna.
A mina utiliza um método inovador de mineração subterrânea e adota tecnologia de preenchimento com rejeitos para aterrar áreas escavadas, reduzindo danos ao solo, como subsidência da superfície e descarga de rejeitos. Acima do solo, a proposta combina desenvolvimento industrial, preservação ecológica e valorização paisagística, com a planta transformada em parque e a mina convertida em atração turística. O local é descrito como um sítio turístico nacional de nível 4A e uma base nacional de demonstração de turismo industrial.
Yimin: correia fechada de 32,8 km, energia fotovoltaica e operação inteligente com caminhões elétricos

Outro caso citado fica mais ao norte, na pradaria de Hulunbuir, na região autônoma da Mongólia Interior. A mina a céu aberto de Yimin opera em um ambiente ecológico frágil, o que, segundo a reportagem, exige padrões rigorosos para desenvolvimento verde e de baixo carbono.
A solução destacada envolve logística, energia e automação. O carvão bruto é transportado diretamente para uma usina termelétrica próxima por um corredor de correia transportadora totalmente fechado com 32,8 quilômetros, apresentado como forma de permitir transporte limpo, sem exposição à poluição. A eletricidade gerada pela usina, junto com a energia de instalações fotovoltaicas, é fornecida à rede e usada nas operações da mina. Além disso, a mina implementou uma plataforma digital de operação inteligente para ampliar processos de produção não tripulados, com foco em segurança e eficiência, incluindo caminhões elétricos não tripulados.
Shizhuyuan: ciência e tecnologia para extrair valor de minérios complexos e de baixa qualidade
Os avanços não aparecem apenas na operação, mas também no aproveitamento dos recursos minerais. O texto destaca técnicas para mineração de minério de baixa qualidade, que podem prolongar a vida útil de uma mina, e sistemas digitais e inteligentes para elevar a eficiência geral da mineração.
Como exemplo, o depósito polimetálico de Shizhuyuan, na província de Hunan, é descrito como “o museu mundial dos metais não ferrosos” e reúne 143 espécies minerais, incluindo tungstênio, estanho, molibdênio e fluorita. Diante da complexidade de minérios associados e de baixa qualidade, a mina buscou colaboração entre indústria, academia e pesquisa, tornando viável uma grande quantidade de recursos que antes eram considerados antieconômicos.
O que isso significa fora da China: vitrine global e a “primeira mina verde” da Sérvia
A experiência chinesa na construção de minas verdes é apresentada como uma “solução chinesa” para o desenvolvimento sustentável da indústria global de mineração, com destaque para países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota.
Um caso internacional citado é a mina de cobre e ouro de Cukaru Peki, na Sérvia, construída e colocada em operação pelo Zijin Mining Group. Segundo Dong, o presidente sérvio Aleksandar Vucic teria elogiado o projeto como “a primeira mina verde da Sérvia”, afirmando que atende aos mais altos padrões ambientais do país.
As próximas etapas: o plano 2026-2030 e a tentativa de transformar áreas mineradas em polos de turismo e eficiência
O 15º Plano Quinquenal (2026-2030) reforça a prioridade de aprimorar a utilização abrangente dos recursos minerais e promover a exploração e a construção de minas sustentáveis. Na prática, isso sinaliza continuidade do modelo de mineração verde, com seleção nacional e pressão por ganhos simultâneos em eficiência, tecnologia e recuperação ambiental.
O objetivo declarado vai além de produzir com menos impacto: passa por recuperar áreas degradadas, reorganizar paisagens e, em alguns casos, converter antigas zonas de mineração em polos de turismo industrial e valorização ecológica, tentando mudar a forma como o setor é percebido dentro e fora do país.
Na sua visão, essa estratégia de mineração com recuperação ambiental e turismo industrial consegue realmente compensar os impactos históricos da mineração, ou ainda é cedo para chamar isso de virada definitiva?
