Um guindaste anel PTC-35 de 1.600 toneladas de capacidade está no centro da maior operação de manutenção nuclear em andamento no Canadá: a substituição de oito geradores de vapor na Unidade 4 da usina Bruce Power, em Ontário, projeto que vai estender a vida útil da planta por décadas.
A usina nuclear de Bruce Power, situada em Ontário, no Canadá, é responsável por abastecer mais de 30% de toda a demanda elétrica da província, e também por produzir isótopos médicos usados no tratamento do câncer em pacientes ao redor do mundo. Manter essa estrutura operando com segurança e eficiência por mais décadas exige intervenções de engenharia que poucos equipamentos no planeta conseguem executar. É para esse trabalho que a empresa holandesa Mammoet retornou à usina com um guindaste de capacidade raramente vista fora de grandes projetos industriais ou offshore.
A operação em curso envolve a troca de oito geradores de vapor e o reposicionamento de dois tambores de vapor na Unidade 4 da Estação Bruce A, uma continuidade direta do trabalho já realizado na Unidade 3 em 2024. O processo está previsto para durar seis meses e utiliza o mesmo guindaste anel PTC-35 de 1.600 toneladas que provou sua eficiência na etapa anterior, além de plataformas autopropelidas e equipamentos de jack-and-slide para movimentação dos componentes encerrados.
A usina que ilumina Ontário e trata o câncer

Bruce Power não é uma usina comum. Operando com seis reatores distribuídos entre as estações Bruce A e Bruce B, unidades 3 a 8, o complexo é um dos maiores geradores de energia nuclear do mundo e uma peça central da matriz elétrica da província canadense. Mais de 30% da eletricidade consumida em Ontário passa por ali, o que torna cada parada para manutenção um evento de planejamento meticuloso e impacto logístico considerável.
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Além da geração elétrica, a usina tem um papel menos conhecido mas igualmente crítico: a produção de isótopos médicos radioativos usados em diagnósticos e tratamentos oncológicos.
Esses materiais são gerados como subproduto do funcionamento dos reatores e distribuídos para uso clínico em diversas partes do mundo. Qualquer extensão da vida útil da planta é, portanto, também uma extensão da capacidade de produzir esses compostos essenciais para a medicina nuclear.
O projeto MCR e o que está sendo substituído
O Projeto de Substituição de Componentes Principais, conhecido pela sigla MCR, de Major Component Replacement, teve início em 2020 e abrange a troca de componentes críticos em seis unidades reativas.
A operação atual na Unidade 4 é executada pela Mammoet em parceria com o Steam Generator Replacement Team (SGRT), uma joint venture em partes iguais entre a Aecon e a SGT, parceria formada pela Framatome e pela United Engineers and Constructors.
O escopo técnico da intervenção inclui a substituição de oito geradores de vapor com vida útil encerrada e o reposicionamento de dois tambores de vapor. Os geradores removidos serão transportados por plataformas autopropelidas SPMTs até uma área de armazenamento de longo prazo dentro do próprio complexo.
Cada componente pesa o suficiente para exigir equipamentos que a maioria das obras civis convencionais nunca precisaria mobilizar, e é exatamente aí que o guindaste PTC-35 entra como peça insubstituível da operação.
Por que um guindaste de 1.600 toneladas e não outro

A escolha do guindaste anel PTC-35 não foi arbitrária. Em ambientes industriais de alta complexidade como uma usina nuclear, cada decisão de equipamento carrega implicações de segurança, tempo e custo que se multiplicam ao longo de meses de operação.
Gord Gilchrist, diretor de desenvolvimento de negócios da Mammoet, explica o raciocínio com precisão: um guindaste de lagarta com capacidade equivalente exigiria um contrapeso enorme que precisaria ser constantemente levantado e reposicionado a cada movimentação, o que adiciona risco, consome tempo e ocupa espaço que numa usina nuclear simplesmente não existe.
O PTC-35 resolve esse problema pela própria arquitetura: o design em anel distribui as cargas de forma que elimina a necessidade de contrapeso convencional. Mas há outra vantagem decisiva para o contexto canadense: o guindaste consegue permanecer erguido em condições de vento extremo, ancorado por um sistema específico para tempestades.
No local de Bruce Power, ventos fortes são uma realidade frequente, e um guindaste de lagarta convencional teria que baixar a lança a cada rajada intensa, paralisando a operação e comprometendo o cronograma de seis meses.
O que significa estender a vida útil de uma usina nuclear
Estender a operação de uma usina nuclear não é apenas uma decisão técnica, é uma decisão energética, econômica e climática de longo alcance. Construir uma nova usina do zero leva décadas, custa dezenas de bilhões de dólares e enfrenta resistência regulatória e social que raramente se resolve rapidamente.
Renovar uma planta existente, com infraestrutura já instalada, equipe treinada e licenças operacionais estabelecidas, é uma alternativa radicalmente mais eficiente.
A substituição dos geradores de vapor é o coração técnico desse processo de rejuvenescimento. Esses componentes são submetidos a décadas de pressão térmica, radiação e ciclos contínuos de operação, e quando chegam ao fim da vida útil, comprometem a capacidade e a segurança de todo o reator.
Trocá-los, em vez de descomissionar a unidade, permite que a usina continue operando por mais décadas com desempenho equivalente ao de uma instalação nova, mas a uma fração do custo e do tempo de uma construção do zero.
A Mammoet e o papel das empresas especializadas na energia nuclear

A operação em Bruce Power não é o único projeto nuclear em que a Mammoet está envolvida. A empresa atua globalmente em construção, manutenção e descomissionamento de usinas, com equipes presentes em projetos como Hinkley Point C no Reino Unido, a usina de Flamanville na França e o ITER, o projeto internacional de pesquisa em fusão nuclear considerado o maior experimento científico em andamento no planeta.
Essa especialização acumulada é o que torna empresas como a Mammoet parceiras indispensáveis de um setor que opera com tolerância zero para erros. Rob Hoare, vice-presidente de execução do projeto MCR em Bruce Power, foi direto ao avaliar a parceria: o equipamento especializado tornou as trocas rápidas, eficientes e seguras, e o suporte de engenharia foi crítico para o sucesso do projeto. Quando uma única falha pode comprometer a geração de energia de uma província inteira, o guindaste certo na hora certa deixa de ser um detalhe logístico e vira uma questão estratégica.
Você sabia que uma usina nuclear também produz os isótopos usados no tratamento do câncer? O que você acha de estender a vida útil de usinas existentes em vez de construir novas? Deixa sua opinião nos comentários, essa é uma das discussões mais importantes sobre o futuro da energia limpa.

A solução é muito boa. Uma grande lição de técnica e gestão. Mas … quando o Brasil terminará Angra 3?