Cabos submarinos planejados para o entorno de uma base do AUKUS expõem a convergência entre conectividade, defesa e inteligência artificial em uma região marcada por disputas estratégicas no sensível Indo-Pacífico.
A base naval HMAS Stirling, no oeste da Austrália, aparece nos planos de expansão de uma nova rede de cabos submarinos de alta capacidade desenvolvida pelo Google e pela empresa australiana SUBCO, segundo documentos analisados pela Reuters.
A instalação integra a estrutura do acordo AUKUS, firmado por Austrália, Estados Unidos e Reino Unido, e deve receber, a partir de 2027, a presença rotativa de submarinos nucleares aliados.
A conexão entre infraestrutura digital e defesa ganhou espaço na agenda de governos do Indo-Pacífico porque cabos submarinos concentram a maior parte do tráfego internacional de dados.
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De acordo com o Cable Connectivity and Resilience Centre, criado pela Austrália no âmbito do Quad, essas estruturas carregam 99% dos dados internacionais e conectam pessoas, empresas, governos e economias.
Cabos submarinos avançam no entorno da base do AUKUS
A Reuters informou que três novos cabos submarinos planejados pelo Google e pela SUBCO devem chegar à região da HMAS Stirling ou a áreas próximas.
A base fica em Rockingham, na costa oeste australiana, voltada para o Oceano Índico, região acompanhada de perto por autoridades de defesa da Austrália e dos Estados Unidos por causa da movimentação naval chinesa.
Segundo a agência, a SUBCO afirmou que um cabo de alta capacidade entre as costas leste e oeste da Austrália terá uma ramificação até a HMAS Stirling.
Nos materiais públicos do projeto, no entanto, a chegada mencionada era Perth, localizada cerca de 60 quilômetros ao norte da base.
O fundador da SUBCO, Bevan Slattery, declarou à Reuters que as novas rotas construídas pela empresa e pelo Google são “críticas” para entregar capacidade e resiliência.
Na avaliação dele, a infraestrutura também atende à intenção da Austrália de se consolidar como um polo seguro para a região e de ampliar projetos ligados à inteligência artificial.
A presença militar prevista para a HMAS Stirling faz parte da Submarine Rotational Force-West.
A Australian Submarine Agency informa que, a partir de 2027, a base poderá receber uma presença rotativa de um submarino nuclear do Reino Unido e até quatro dos Estados Unidos.
Os submarinos são descritos pelo governo australiano como embarcações de propulsão nuclear e armadas convencionalmente.
Google amplia rotas digitais entre Austrália, Ásia e África
Os projetos do Google incluem sistemas para conectar a Austrália a Christmas Island, a Darwin, à Ásia e à África.
A iniciativa Australia Connect prevê o cabo Bosun, entre Darwin e Christmas Island, além de um interlink que liga Melbourne, Perth e Christmas Island.
A empresa afirma que a iniciativa busca criar novas rotas digitais e ampliar a confiabilidade da conectividade na Austrália e no Indo-Pacífico.
Outro projeto, chamado Umoja, deve conectar Madora Bay, no oeste australiano, à África do Sul.
Documentos ambientais do governo australiano também citam a instalação de cabos em Madora Bay, em Flying Fish Cove, em Christmas Island, e em Darwin, no Território do Norte.
Em novembro de 2025, o Google anunciou ainda o TalayLink, cabo submarino previsto para ligar Austrália e Tailândia.
A empresa também informou planos para hubs de conectividade em Mandurah, na Austrália Ocidental, e no sul da Tailândia, voltados a serviços digitais avançados, armazenamento de conteúdo, colocation e aplicações de inteligência artificial.
Christmas Island também entrou no centro desses projetos de conectividade.
A Reuters noticiou que o Google planeja construir um centro de dados de inteligência artificial na ilha, território australiano no Oceano Índico.
Especialistas militares ouvidos pela agência avaliaram que a localização poderia ter utilidade estratégica para sistemas autônomos e operações com drones, mas o governo chinês disse à Reuters que não tinha conhecimento do assunto.
Infraestrutura civil entra no radar da defesa
A mesma rede que sustenta comunicações pessoais, bancos, comércio eletrônico, serviços em nuvem e operações empresariais também é usada por governos e forças armadas.
Por isso, a ligação entre cabos submarinos e bases militares tem sido tratada por especialistas como parte da infraestrutura crítica de países dependentes de conexões internacionais.
Sam Bashfield, especialista em segurança marítima no Oceano Índico da Universidade La Trobe, disse à Reuters que forças militares precisam de conectividade de alta velocidade “como qualquer grande empresa”.
Segundo ele, essa demanda envolve comunicações entre instalações militares, aliados e redes diplomáticas.
Na região da HMAS Stirling, a expansão da conectividade ocorre ao mesmo tempo em que a Austrália prepara a base para apoiar submarinos nucleares aliados.
Autoridades australianas citadas pela Reuters disseram que cerca de mil integrantes da Marinha dos Estados Unidos devem se deslocar para Rockingham e Mandurah a partir do próximo ano para dar suporte às operações.
O histórico recente da SUBCO também foi mencionado pela Reuters.
Em 2022, a empresa concluiu o cabo Oman-Australia, que liga a Austrália ao Oriente Médio.
Reportagem anterior da agência informou que o projeto teve financiamento parcial do Pentágono para incluir uma ramificação não divulgada à base conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico.
Segurança dos cabos submarinos e risco ambiental
A expansão dos cabos submarinos ocorre em meio a análises ambientais e discussões sobre segurança de infraestrutura.
A Reuters informou que o regulador ambiental australiano suspendeu a avaliação de cabos do Google no oeste da Austrália para examinar questões de relevância ambiental nacional, incluindo espécies marinhas ameaçadas e migratórias.
Depois disso, o Departamento de Mudança Climática, Energia, Meio Ambiente e Água publicou, em 20 de novembro de 2025, decisão classificando a instalação do sistema Australia West como “not a controlled action”.
A classificação indica que, conforme submetida, a proposta não exigiria avaliação adicional sob a lei ambiental federal australiana.
O projeto envolve cabos em águas da Austrália Ocidental, do Território do Norte e de Christmas Island.
O Google disse à Reuters que cumprirá todas as regulações ambientais aplicáveis.
A empresa também afirmou que a instalação de chegada em Madora Bay ficará em uma zona industrial no interior, sem detalhar o local.
A proteção dos cabos submarinos passou a ser tratada de forma coordenada por governos aliados.
Em julho de 2024, a Austrália anunciou o Cable Connectivity and Resilience Centre para apoiar a resiliência de redes submarinas no Indo-Pacífico, como parte de uma iniciativa do Quad, grupo formado por Austrália, Estados Unidos, Japão e Índia.
Em declaração conjunta assinada em Nova York, em setembro de 2024, Austrália, Estados Unidos e outros parceiros afirmaram que a segurança, a integridade e a resiliência dos cabos submarinos são essenciais para comunicações globais, crescimento econômico e desenvolvimento.
O texto também menciona riscos de segurança nacional e econômica ligados à dependência dessa infraestrutura.
Incidentes envolvendo danos a cabos no Mar Báltico, no Mar Vermelho e em outras rotas aumentaram a atenção de governos sobre sabotagem, espionagem e interrupções acidentais.
Segundo a Reuters, o chefe da Marinha australiana, vice-almirante Mark Hammond, afirmou que cabos no fundo do mar são, ao mesmo tempo, a “linha vital” da Austrália e uma de suas maiores vulnerabilidades.

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