Levantamento do Ministério do Trabalho expõe a distância entre juventude, escola e mercado, com milhões de brasileiros fora das duas frentes, desemprego elevado no início da carreira e concentração de vagas em funções de baixa especialização.
No primeiro trimestre de 2026, o Brasil tinha 6,2 milhões de jovens de 14 a 24 anos sem estudar e sem trabalhar, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego divulgado nesta semana.
Esse grupo representa uma parcela relevante dos 32,9 milhões de brasileiros nessa faixa etária e mantém a chamada geração “nem-nem” como um dos principais alertas sociais ligados à juventude no país.
Os dados integram o Diagnóstico da Juventude Brasileira, elaborado pelo MTE a partir do cruzamento de informações da Pnad Contínua, do IBGE, da Rais e do eSocial.
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A pesquisa retrata uma juventude que permanece mais tempo na escola, mas ainda enfrenta recuperação parcial do emprego, dificuldade de acesso a ocupações estáveis e forte concentração em postos de baixa qualificação.
Jovens nem-nem no Brasil
Entre os brasileiros de 14 a 24 anos, o contingente de jovens “nem-nem” chegou a 18,7% no levantamento citado pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Ao tratar do mesmo diagnóstico, o UOL registrou a proporção como 18,8%, diferença relacionada ao arredondamento dos dados, já que ambas as publicações partem do mesmo total de 6,2 milhões de jovens nessa condição.
Em comparação com o fim de 2025, a fotografia do primeiro trimestre mostra avanço de cerca de 700 mil pessoas fora da escola e do trabalho entre janeiro e março.
Esse movimento foi atribuído à sazonalidade do período, marcada pelo encerramento de contratos temporários, pelo recomeço do calendário escolar e por ajustes comuns no início do ano.
Apesar da alta pontual, o diagnóstico indica que a ausência simultânea de estudo e trabalho não pode ser explicada apenas como falta de interesse individual.
Barreiras de inserção profissional, baixa oferta de vagas adequadas, responsabilidades familiares e dificuldade de conciliar renda, estudo e deslocamento ajudam a compor o cenário identificado no levantamento.
A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, Paula Montagner, afirmou à Agência Brasil que o primeiro esforço deve ser trazer esses jovens de volta para a escola.
Segundo ela, a permanência nos estudos pode ser combinada com o trabalho quando houver necessidade de renda, desde que existam condições para conciliar formação e ocupação.
Educação e mercado de trabalho
Embora o número de jovens fora da escola e do trabalho chame atenção, a maioria da população de 14 a 24 anos aparece em alguma forma de vínculo com estudo ou ocupação.
Pelo levantamento, 13,9 milhões de jovens estavam ocupados, enquanto 12,8 milhões apenas estudavam e outros 4,3 milhões conciliavam estudo e trabalho.
Fora das salas de aula, mas inseridas no mercado, estavam 9,6 milhões de pessoas que apenas trabalhavam, sem frequentar escola, faculdade ou outra etapa formal de ensino.
Essa parcela ajuda a explicar a transição desigual entre educação e emprego, especialmente entre jovens que deixam a formação em segundo plano para buscar renda mais cedo.
Na avaliação do MTE, a participação dos adolescentes de 14 a 17 anos na força de trabalho, estimada em 15,6%, indica maior permanência dessa faixa etária na escola.
Entre os jovens de 18 a 24 anos, por outro lado, a taxa de participação chegou a 68,7%, mas ainda não retomou o patamar observado antes da pandemia.
O diagnóstico também aponta avanço educacional entre os jovens brasileiros, com pelo menos 73% deles tendo ao menos o ensino médio, segundo os dados divulgados pela Agência Brasil.
Nesse mesmo recorte, 2,3 milhões frequentavam o ensino superior e 944 mil já haviam concluído essa etapa, sinalizando maior presença da juventude em níveis mais altos de escolarização.
Desemprego entre jovens
Mesmo com melhora no mercado de trabalho, a distância entre jovens e adultos segue expressiva quando a comparação envolve o desemprego no início da vida profissional.
No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos era de 13,8%, mais que o dobro da média nacional, de 5,8%.
Entre adolescentes de 14 a 17 anos, o índice alcançava 25,1%, o que mostra uma barreira ainda maior para quem tenta entrar no mercado antes da maioridade.
Em números absolutos, o levantamento citado pela Agência Brasil aponta 2,7 milhões de jovens de 18 a 24 anos desempregados e 586 mil adolescentes na mesma situação.
A entrada no mercado, portanto, permanece mais difícil para quem tem pouca experiência, formação em andamento ou trajetória profissional ainda em construção.
Paula Montagner afirmou que o desemprego jovem caiu pela metade desde o pico de 2021, mas ressaltou que a primeira etapa da carreira continua reunindo obstáculos específicos.
De acordo com ela, muitos jovens seguem estudando ou conciliando escola e trabalho, enquanto outra parte permanece sem encontrar ocupação mesmo quando busca uma vaga.
Carteira assinada e informalidade
Além do desemprego, a qualidade do vínculo também aparece como um ponto central no diagnóstico sobre a juventude brasileira e o mercado de trabalho.
Entre jovens ocupados de 14 a 24 anos, 57,8% tinham vínculo formal, o equivalente a 8 milhões de trabalhadores, de acordo com a Rais 2025 citada pela Agência Brasil.
Ainda assim, a informalidade permanece mais presente entre grupos com menor escolaridade e nas regiões Norte e Nordeste, conforme os dados abordados pelo UOL.
Conseguir a primeira vaga, porém, não encerra o desafio, já que a permanência no emprego também se mostra limitada em parte relevante da juventude ocupada.
Entre adolescentes de 14 a 17 anos, 52% ficavam menos de um ano no mesmo emprego, segundo o levantamento divulgado pela Agência Brasil.
No grupo de 18 a 24 anos, essa proporção era de 38,2%, percentual que reforça a rotatividade elevada justamente na fase inicial da trajetória profissional.
A concentração em funções de baixa especialização ajuda a explicar parte desse cenário, sobretudo quando se observa o tipo de ocupação disponível para jovens.
O relatório aponta que balconistas e vendedores somavam 1,24 milhão de jovens, seguidos por escriturários gerais, com 1,07 milhão, além de auxiliares de construção, recepcionistas e caixas.
De acordo com o MTE, 59% dos jovens ocupados estavam nas 20 maiores ocupações, e um em cada cinco atuava em escrituração ou vendas em lojas.
A avaliação divulgada pelo órgão é que o emprego juvenil se concentra em poucas funções de comércio e serviços, com baixa especialização e salários próximos ao mínimo.
Também segundo a subsecretária Paula Montagner, existe um mito em torno da ideia de que jovens não querem emprego com carteira assinada.
Para ela, o problema envolve diálogo, flexibilidade e acompanhamento, especialmente quando o trabalhador ainda está em formação e precisa conciliar obrigações escolares e profissionais.
O levantamento mostra um quadro de avanços e limites, com mais jovens escolarizados, parte expressiva já ocupada e formalização acima da metade entre trabalhadores de 14 a 24 anos.
Ainda assim, milhões permanecem longe da escola e do emprego, enquanto o desemprego juvenil continua muito acima da média nacional e a entrada no mercado segue marcada por instabilidade.
