Crescimento acelerado das exportações militares brasileiras chama atenção no cenário global, impulsionado por guerras recentes, diversificação de mercados e aposta em tecnologia nacional, mesmo com orçamento doméstico limitado e menor volume de compras internas.
O Brasil ampliou a presença no mercado internacional de defesa e segurança e chegou a um patamar recorde em 2025, com US$ 3,1 bilhões em autorizações para exportações de produtos e serviços do setor.
O valor representa alta de 74% em relação a 2024 e consolida um avanço acumulado de cerca de 110% em dois anos, segundo dados do Ministério da Defesa.
O salto ocorre em um cenário de aumento da demanda global por equipamentos militares e soluções de segurança, impulsionado por guerras e tensões geopolíticas que pressionam orçamentos de defesa em diferentes regiões.
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Ao mesmo tempo, o país tenta equilibrar o discurso diplomático de defesa do diálogo com a expansão comercial de uma indústria que passou a vender mais e para um conjunto maior de destinos.
Dados oficiais indicam que produtos brasileiros do segmento chegaram a cerca de 140 países, distribuídos pelos cinco continentes.
Entre os principais compradores citados estão Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal.
Diversificação de mercados e mudança no perfil dos compradores
Uma parte da explicação apontada por representantes do setor é a redução da dependência de poucos mercados tradicionais.
Segundo Luiz Carlos Paiva Teixeira, presidente do Conselho de Administração da ABIMDE, “O Brasil reduziu a dependência de poucos mercados. Países europeus integrantes da Otan ampliaram a sua presença como clientes, ao mesmo tempo em que avançamos no Oriente Médio e na Ásia, abrindo espaços antes dominados por grandes potências mundiais”.
Além da ampliação de destinos, a pauta exportadora ficou mais diversa, incorporando aeronaves, embarcações, blindados, munições, radares, sistemas de comunicação e soluções cibernéticas para proteção de dados.
A expansão é associada, no setor, aos efeitos de médio prazo da Estratégia Nacional de Defesa, lançada em 2008, que buscou fortalecer a Base Industrial de Defesa e ampliar o domínio nacional sobre tecnologias sensíveis.
A consolidação de projetos ao longo dos anos ampliou a capacidade de oferecer produtos competitivos no momento em que a demanda externa acelerou.
Crescimento externo em meio à retração das encomendas internas
Embora o avanço das exportações chame atenção, a indústria convive com a redução do ritmo de compras governamentais no mercado interno, especialmente após a crise econômica iniciada em 2014.
Nesse contexto, a exportação passou a ser tratada como instrumento de sustentação de projetos e preservação da capacidade produtiva.
“Nós temos produtos novos e sofisticados sendo lançados, mas as próprias Forças Armadas Brasileiras que os encomendaram estão reduzindo ou postergando as encomendas. Como manter esses projetos e as empresas? Através das exportações”, afirmou Marcos Barbieri, especialista em Economia da Defesa e professor da Unicamp.
O Ministério da Defesa atribui parte do resultado ao esforço de promoção comercial e articulação diplomática, com participação em feiras internacionais, agendas bilaterais e aproximação entre empresas brasileiras e potenciais compradores.
O balanço oficial considera autorizações para exportações, indicador que reflete o volume de negócios aprovados, ainda que nem todos correspondam a entregas imediatas no mesmo período.
Embraer lidera vitrine internacional do setor
A Embraer aparece como principal vitrine da pauta de defesa brasileira.
Em 2025, a empresa registrou a maior carteira de pedidos de sua história, com US$ 4,6 bilhões no segmento de Defesa e Segurança.
O destaque é o avião de transporte militar KC-390 Millennium, citado como um dos principais responsáveis pela projeção internacional da indústria nacional.
Paralelamente, outras empresas ampliaram a oferta em áreas como veículos blindados, sistemas de comunicação segura e tecnologias de monitoramento, buscando posicionar a Base Industrial de Defesa como fornecedora de produtos de maior valor agregado.
Para dirigentes do setor, a ambição é que a indústria de defesa se consolide também como vetor de desenvolvimento tecnológico, com impactos que extrapolam o uso militar.
Nesse sentido, Luiz Carlos Paiva Teixeira afirmou que a Base Industrial de Defesa “caminha para deixar de ser apenas um fornecedor de equipamentos para se tornar um pilar estratégico da alta tecnologia do Brasil”.
Brasil avança em um mundo de gastos militares crescentes
O desempenho brasileiro ocorre em um momento de forte expansão dos gastos militares globais.
Levantamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo aponta que a despesa militar mundial alcançou US$ 2,718 trilhões em 2024, com o maior crescimento anual desde o fim da Guerra Fria.
Apesar do avanço das exportações, o Brasil não figura entre os maiores atores globais da indústria, liderada por Estados Unidos, França, Rússia, China e Alemanha.
No plano doméstico, estimativas indicam que o país investe cerca de 1% do PIB em defesa, percentual inferior ao de nações com cadeias industriais militares mais robustas.
Ainda assim, o Ministério da Defesa afirma que o setor de defesa e segurança responde por 3,49% do PIB brasileiro e emprega quase 3 milhões de trabalhadores diretos e indiretos.
A equação que se impõe é como manter inovação e previsibilidade industrial em um setor intensivo em tecnologia, com demanda interna limitada e crescente dependência das exportações.
Se o Brasil já conseguiu ampliar mercados e acelerar as vendas externas, qual será o caminho para transformar esse avanço comercial em uma estratégia sustentável de longo prazo?

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