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O Brasil vendeu US$ 7,2 bilhões em petróleo bruto só para a China no primeiro trimestre — um salto de 94% — mas continua importando gasolina porque não consegue refinar o que tira do próprio solo

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 26/04/2026 às 19:15
Atualizado em 26/04/2026 às 19:18
Navio petroleiro carregado com petróleo bruto partindo da costa brasileira com plataforma da Petrobras ao fundo
O Brasil vendeu US$ 7,2 bilhões em petróleo bruto só para a China no 1º trimestre de 2026 — alta de 94% — mas continua importando gasolina
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As exportações de petróleo bruto para a China saltaram 94% em apenas um ano — de US$ 3,7 bilhões para US$ 7,2 bilhões — e o Brasil fechou o primeiro trimestre de 2026 com US$ 82,3 bilhões em vendas totais, o maior valor já registrado para o período

Conforme compilou o Poder360 com dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o petróleo bruto se tornou o principal motor das exportações brasileiras no início de 2026.

Além disso, o volume exportado para a China mais que dobrou: saltou de 7,4 mil toneladas para 16,5 mil toneladas, uma alta de 122%.

Além disso, a China absorveu 57% de todo o petróleo exportado pelo Brasil no trimestre, com pico de 65% em março.

As vendas totais do Brasil para a China atingiram US$ 23,9 bilhões no período — um recorde histórico, com crescimento de 21,7% sobre 2025.

Segundo a CONTEE, a Índia também aumentou suas compras de petróleo brasileiro em 78%, totalizando US$ 1,02 bilhão.

A guerra no Irã que transformou o Brasil em fornecedor preferido da Ásia

No entanto, o salto não aconteceu por acaso. A guerra no Irã desorganizou o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do comércio marítimo global de petróleo.

Consequentemente, a China — maior importadora de petróleo do mundo — precisou buscar fornecedores fora da zona de conflito.

O Brasil surgiu como a alternativa mais confiável.

Segundo a economista Cristiane Alkmin, entrevistada pela InfoMoney, “o Brasil surge como o grande vencedor do rearranjo geopolítico” provocado pela instabilidade no Ormuz.

Com o preço do barril de Brent oscilando entre US$ 90 e US$ 100, a indústria extrativa passou a responder por 49% das exportações brasileiras para a China — 8 pontos percentuais a mais que no ano anterior.

Dessa forma, o recorde de produção de 5,3 milhões de barris por dia registrado em fevereiro encontrou um comprador voraz do outro lado do mundo.

Refinaria brasileira iluminada à noite com torres de destilação e flares
O Brasil não tem capacidade de refino suficiente para processar o que tira do pré-sal — exporta bruto e importa derivado

O paradoxo que ninguém explica no posto de gasolina

Ainda assim, aqui está o ponto que transforma números de exportação em uma história que afeta diretamente o bolso de 215 milhões de brasileiros.

O Brasil é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Exporta bilhões em óleo bruto. Mas continua importando gasolina.

O motivo é simples e frustrante: o país não tem capacidade de refino suficiente para processar o que tira do próprio solo.

Sobretudo, as refinarias brasileiras operam com capacidade limitada. A maior parte da produção do pré-sal é de petróleo pesado que exige processamento específico.

Nesse sentido, o Brasil funciona como uma fazenda que colhe toneladas de café mas não tem torrefadora — vende o grão cru para fora e compra o café torrado de volta, mais caro.

Por outro lado, a situação se agravou com a guerra no Irã. Os derivados importados ficaram mais caros por causa da instabilidade no transporte marítimo global.

O que isso significa na bomba: gasolina cara apesar do petróleo recorde

Para o brasileiro que abastece o carro, o recorde de exportação não se traduz em gasolina mais barata.

Pelo contrário. Enquanto o Brasil bate recorde vendendo petróleo bruto, a conta de energia sobe e os derivados importados pressionam o preço na bomba.

O país exporta a matéria-prima e importa o produto acabado — pagando a margem de refino de outros países.

Além disso, o frete marítimo mais caro por causa da guerra no Golfo encarece ainda mais os derivados que o Brasil precisa importar.

De fato, trata-se de um ciclo perverso: quanto mais petróleo o Brasil produz e exporta sem refinar, mais dependente fica de derivados importados cujo preço é definido por crises que o país não controla.

A saída pelo etanol: 32% de mistura para zerar importação

Diante desse paradoxo, o governo encontrou uma solução parcial que não envolve construir novas refinarias.

O Ministério de Minas e Energia anunciou a intenção de elevar a mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% (E32), com análise prevista para maio de 2026 no Conselho Nacional de Política Energética.

A estimativa é que a medida reduza em 500 milhões de litros por mês a necessidade de importação de gasolina.

Contudo, críticos apontam que o E32 trata o sintoma sem resolver a causa. O Brasil continuaria exportando petróleo bruto barato e dependendo de etanol para compensar sua incapacidade de refinar.

Da mesma forma, a medida não resolve a importação de diesel — outro derivado que o país não produz em quantidade suficiente e que movimenta toda a logística de transporte rodoviário.

Porto chinês com navios petroleiros sendo descarregados e guindastes operando
A China absorveu 57% de todo o petróleo exportado pelo Brasil no trimestre, com pico de 65% em março de 2026

A China compra 57% — e isso pode ser um problema

Ainda assim, o recorde de exportação traz outro risco que poucos discutem.

Quando um único comprador absorve 57% a 65% das suas exportações de um produto, você não tem um cliente — tem uma dependência.

Se a China encontrar fornecedores mais baratos, ou se a guerra no Irã terminar e o petróleo iraniano voltar ao mercado, a demanda chinesa por petróleo brasileiro pode cair tão rápido quanto subiu.

Portanto, o recorde de US$ 7,2 bilhões é ao mesmo tempo uma vitória comercial e um alerta estratégico.

A concentração em commodity primária exportada para um único mercado é exatamente o tipo de vulnerabilidade que crises geopolíticas exploram.

Posto de gasolina brasileiro com fila de carros e preços altos no painel
Para o brasileiro na bomba, o recorde de exportação não se traduz em gasolina mais barata — pelo contrário

Por que o Brasil não constrói mais refinarias — a pergunta de R$ 50 bilhões

Construir uma refinaria moderna custa pelo menos R$ 50 bilhões e leva cerca de uma década entre projeto, licenciamento e operação.

A Petrobras tentou nos anos 2010 com o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a Refinaria Abreu e Lima em Pernambuco. Ambas viraram símbolos de atraso e superfaturamento.

Consequentemente, a estratégia da Petrobras nos últimos anos priorizou exportação de bruto — mais lucrativa no curto prazo — em vez de investir em refino doméstico.

No entanto, o que é lucrativo para a Petrobras não é necessariamente bom para quem abastece o carro.

A empresa lucra exportando cru. O brasileiro paga caro importando derivado. E esse desalinhamento é o coração do paradoxo.

O que pode mudar — e o que provavelmente não vai

Por enquanto, o cenário favorece o Brasil. Enquanto a guerra no Irã mantiver o Ormuz instável, a demanda asiática por petróleo brasileiro continuará alta.

Apesar disso, exportar matéria-prima e importar produto acabado é uma armadilha econômica conhecida há séculos — e que o Brasil repete com petróleo em 2026 exatamente como repetiu com café no século XIX.

A diferença é que agora o país extrai ouro negro a 7 quilômetros de profundidade no pré-sal, com tecnologia de ponta. Mas na hora de transformar esse ouro em gasolina, ainda depende de refinarias que ficam do outro lado do oceano.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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