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O Brasil nunca gerou tanta energia limpa — e nunca cobrou tanto por ela: enquanto parques solares e eólicos batem recordes, a conta de luz sobe até 23% e R$ 52 bilhões em encargos são pagos por 35 milhões de famílias que não entendem por que a luz ficou tão cara

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 24/04/2026 às 18:15
Atualizado em 24/04/2026 às 18:28
Contraste entre painéis solares gerando energia e família preocupada com conta de luz no Brasil
Representação artística. O Brasil bate recordes de geração renovável mas a conta de luz sobe até 23% em 2026 — o paradoxo energético que afeta 35 milhões de famílias
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O Brasil bate recordes de geração de energia solar e eólica todos os meses — e ao mesmo tempo cobra cada vez mais caro pelo quilowatt que chega à tomada do consumidor, com reajustes que chegam a 23% em pleno 2026 e R$ 52 bilhões em encargos embutidos na conta

Segundo dados divulgados pela ADVFN em abril de 2026, os reajustes nas contas de luz no Brasil já atingem até 23% em distribuidoras como Roraima Energia e se aproximam de 20% em concessionárias como Copel (Paraná) e CPFL Santa Cruz.

Ao mesmo tempo, o país nunca gerou tanta energia limpa em sua história.

Portanto, surge o paradoxo que milhões de brasileiros não conseguem entender: se o Brasil produz mais energia do que consome — e cada vez mais dessa energia vem do sol e do vento, que são gratuitos — por que a conta de luz continua subindo?

Os números que assustam: até 23% de reajuste

De acordo com a O Sul, a projeção média da ANEEL para 2026 era de 8% de reajuste.

Contudo, a realidade das aprovações mostra números muito maiores em distribuidoras específicas.

Em Roraima, o reajuste aprovado foi de 23,2%. No entanto, essa não é uma exceção isolada.

A Copel, no Paraná, está em consulta pública com reajuste de 19,2% para 5 milhões de unidades consumidoras.

Da mesma forma, a CPFL Santa Cruz, que atende regiões de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, projeta cerca de 19%.

Consequentemente, cerca de 35 milhões de unidades consumidoras — aproximadamente 40% do total nacional — já enfrentam ou vão enfrentar reajustes no primeiro semestre de 2026.

Além disso, o diretor-geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, reconheceu o problema em entrevista recente.

Segundo Feitosa: “As contas de luz sobem sempre muito a mais — o dobro, às vezes o triplo do que o IPCA. Para 2026, a nossa previsão é que cresçam em média 8%. É de fato um número que preocupa.”

Nesse sentido, a inflação projetada para 2026 é de apenas 4,1%. Portanto, o reajuste médio de 8% é quase o dobro da inflação — e os casos extremos de 19-23% são quase seis vezes mais.

Parque eólico no Nordeste brasileiro com dezenas de turbinas na caatinga
Representação artística. O Nordeste concentra a maior geração eólica e solar do país — mas é também a região com o maior reajuste tarifário de 2026

O vilão invisível: R$ 52 bilhões em encargos escondidos na conta

Para entender o paradoxo, é preciso olhar para o que está dentro da conta de luz além do consumo.

Em 2025, os encargos setoriais representavam entre 17% e 18% do valor total da tarifa.

Todavia, conforme explicou o Instituto Acende Brasil, para 2026 essa fatia salta para 20%.

O principal encargo é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que em 2026 custará R$ 52 bilhões.

Dessa forma, a cada R$ 100 que o consumidor paga na conta de luz, R$ 20 não são por energia consumida — são por subsídios que financiam desde descontos para consumidores de baixa renda até incentivos a fontes renováveis.

Ironicamente, parte desses subsídios vai para a mesma energia solar e eólica que deveria tornar a eletricidade mais barata.

Além disso, em 2025 o presidente Lula aprovou isenção total para consumidores de baixa renda — uma medida social cujo custo é repartido entre todos os demais consumidores via CDE.

Por isso, quem não se enquadra no perfil de baixa renda acaba pagando mais para subsidiar quem se enquadra.

Notas de real espalhadas sobre conta de energia elétrica
Representação artística. A CDE — encargo que financia subsídios — custará R$ 52 bilhões em 2026 e representa 20% de tudo o que o consumidor paga na conta de luz

Enquanto a conta sobe, o Brasil joga energia fora

Por outro lado, o problema vai além dos subsídios.

O Brasil está gerando energia renovável que não consegue usar.

Como reportamos anteriormente neste portal, o curtailment — quando usinas são desligadas porque a rede não comporta a energia gerada — já causou perdas estimadas em R$ 5 bilhões nos últimos anos.

Dessa maneira, o consumidor paga pela construção e pelos subsídios das usinas, mas parte da energia que elas produzem é simplesmente cortada.

Ainda assim, o paradoxo se aprofunda: se o país investisse na expansão das linhas de transmissão, a energia cortada poderia suprir a demanda e potencialmente reduzir tarifas. Mas esse investimento também seria financiado pelo consumidor — via tarifa.

Igualmente, conforme a Em Dia ES, existe ainda o risco de bandeira tarifária vermelha em 2026, que poderia adicionar R$ 7 bilhões extras às contas — caso os reservatórios das hidrelétricas fiquem abaixo do esperado.

Torre de transmissão de energia elétrica ao pôr do sol
Representação artística. O Brasil já desperdiçou R$ 5 bilhões em energia renovável cortada porque a rede de transmissão não comporta tudo que é gerado

Como outros países resolvem o mesmo problema

Em contraste, países com alta penetração de renováveis lidam com o curtailment de formas diferentes.

Na Alemanha, o reajuste médio de energia em 2025 ficou em torno de 5%, mesmo com forte dependência de eólica e solar.

Da mesma forma, nos Estados Unidos, a alta média foi de 3 a 4%, segundo a EIA (Energy Information Administration).

A diferença está no armazenamento. Enquanto esses países investem pesadamente em baterias de grande escala para guardar a energia excedente, o Brasil praticamente não tem capacidade de storage instalada.

Sobretudo, a falta de baterias obriga o sistema brasileiro a acionar usinas térmicas — que queimam gás natural e diesel — justamente nos momentos em que o sol se põe e o vento para.

Essas térmicas são caras. E o custo vai para a conta do consumidor.

A reforma que pode mudar — ou não — o jogo

Diante disso, o governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei de reforma do setor elétrico.

A proposta busca reduzir subsídios embutidos na tarifa e racionalizar encargos.

No entanto, qualquer reforma nesse setor enfrenta resistência de todos os lados: distribuidoras, geradoras, consumidores industriais e o próprio lobby das renováveis, que depende dos subsídios da CDE.

Apesar disso, o bônus de Itaipu — um saldo de R$ 1 a R$ 1,5 bilhão que deveria aliviar tarifas em 2026 — é insuficiente para compensar os R$ 52 bilhões em encargos.

Portanto, o cenário para o consumidor brasileiro em 2026 é claro: o país gera energia limpa de sobra, bate recordes solares e eólicos mês após mês, mas a conta continua subindo porque o problema não é de geração — é de infraestrutura, de regulação e de uma montanha de encargos que se acumula há décadas.

A pergunta que 35 milhões de famílias fazem toda vez que abrem a conta é simples: se o sol e o vento são de graça, por que a luz é tão cara?

A resposta, como quase tudo no Brasil, está no que não se vê — nos 20% de encargos invisíveis que ninguém pediu e todos pagam.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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