O Brasil bate recordes de geração de energia solar e eólica todos os meses — e ao mesmo tempo cobra cada vez mais caro pelo quilowatt que chega à tomada do consumidor, com reajustes que chegam a 23% em pleno 2026 e R$ 52 bilhões em encargos embutidos na conta
Segundo dados divulgados pela ADVFN em abril de 2026, os reajustes nas contas de luz no Brasil já atingem até 23% em distribuidoras como Roraima Energia e se aproximam de 20% em concessionárias como Copel (Paraná) e CPFL Santa Cruz.
Ao mesmo tempo, o país nunca gerou tanta energia limpa em sua história.
Portanto, surge o paradoxo que milhões de brasileiros não conseguem entender: se o Brasil produz mais energia do que consome — e cada vez mais dessa energia vem do sol e do vento, que são gratuitos — por que a conta de luz continua subindo?
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Os números que assustam: até 23% de reajuste
De acordo com a O Sul, a projeção média da ANEEL para 2026 era de 8% de reajuste.
Contudo, a realidade das aprovações mostra números muito maiores em distribuidoras específicas.
Em Roraima, o reajuste aprovado foi de 23,2%. No entanto, essa não é uma exceção isolada.
A Copel, no Paraná, está em consulta pública com reajuste de 19,2% para 5 milhões de unidades consumidoras.
Da mesma forma, a CPFL Santa Cruz, que atende regiões de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, projeta cerca de 19%.
Consequentemente, cerca de 35 milhões de unidades consumidoras — aproximadamente 40% do total nacional — já enfrentam ou vão enfrentar reajustes no primeiro semestre de 2026.
Além disso, o diretor-geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, reconheceu o problema em entrevista recente.
Segundo Feitosa: “As contas de luz sobem sempre muito a mais — o dobro, às vezes o triplo do que o IPCA. Para 2026, a nossa previsão é que cresçam em média 8%. É de fato um número que preocupa.”
Nesse sentido, a inflação projetada para 2026 é de apenas 4,1%. Portanto, o reajuste médio de 8% é quase o dobro da inflação — e os casos extremos de 19-23% são quase seis vezes mais.

O vilão invisível: R$ 52 bilhões em encargos escondidos na conta
Para entender o paradoxo, é preciso olhar para o que está dentro da conta de luz além do consumo.
Em 2025, os encargos setoriais representavam entre 17% e 18% do valor total da tarifa.
Todavia, conforme explicou o Instituto Acende Brasil, para 2026 essa fatia salta para 20%.
O principal encargo é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que em 2026 custará R$ 52 bilhões.
Dessa forma, a cada R$ 100 que o consumidor paga na conta de luz, R$ 20 não são por energia consumida — são por subsídios que financiam desde descontos para consumidores de baixa renda até incentivos a fontes renováveis.
Ironicamente, parte desses subsídios vai para a mesma energia solar e eólica que deveria tornar a eletricidade mais barata.
Além disso, em 2025 o presidente Lula aprovou isenção total para consumidores de baixa renda — uma medida social cujo custo é repartido entre todos os demais consumidores via CDE.
Por isso, quem não se enquadra no perfil de baixa renda acaba pagando mais para subsidiar quem se enquadra.

Enquanto a conta sobe, o Brasil joga energia fora
Por outro lado, o problema vai além dos subsídios.
O Brasil está gerando energia renovável que não consegue usar.
Como reportamos anteriormente neste portal, o curtailment — quando usinas são desligadas porque a rede não comporta a energia gerada — já causou perdas estimadas em R$ 5 bilhões nos últimos anos.
Dessa maneira, o consumidor paga pela construção e pelos subsídios das usinas, mas parte da energia que elas produzem é simplesmente cortada.
Ainda assim, o paradoxo se aprofunda: se o país investisse na expansão das linhas de transmissão, a energia cortada poderia suprir a demanda e potencialmente reduzir tarifas. Mas esse investimento também seria financiado pelo consumidor — via tarifa.
Igualmente, conforme a Em Dia ES, existe ainda o risco de bandeira tarifária vermelha em 2026, que poderia adicionar R$ 7 bilhões extras às contas — caso os reservatórios das hidrelétricas fiquem abaixo do esperado.

Como outros países resolvem o mesmo problema
Em contraste, países com alta penetração de renováveis lidam com o curtailment de formas diferentes.
Na Alemanha, o reajuste médio de energia em 2025 ficou em torno de 5%, mesmo com forte dependência de eólica e solar.
Da mesma forma, nos Estados Unidos, a alta média foi de 3 a 4%, segundo a EIA (Energy Information Administration).
A diferença está no armazenamento. Enquanto esses países investem pesadamente em baterias de grande escala para guardar a energia excedente, o Brasil praticamente não tem capacidade de storage instalada.
Sobretudo, a falta de baterias obriga o sistema brasileiro a acionar usinas térmicas — que queimam gás natural e diesel — justamente nos momentos em que o sol se põe e o vento para.
Essas térmicas são caras. E o custo vai para a conta do consumidor.
A reforma que pode mudar — ou não — o jogo
Diante disso, o governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei de reforma do setor elétrico.
A proposta busca reduzir subsídios embutidos na tarifa e racionalizar encargos.
No entanto, qualquer reforma nesse setor enfrenta resistência de todos os lados: distribuidoras, geradoras, consumidores industriais e o próprio lobby das renováveis, que depende dos subsídios da CDE.
Apesar disso, o bônus de Itaipu — um saldo de R$ 1 a R$ 1,5 bilhão que deveria aliviar tarifas em 2026 — é insuficiente para compensar os R$ 52 bilhões em encargos.
Portanto, o cenário para o consumidor brasileiro em 2026 é claro: o país gera energia limpa de sobra, bate recordes solares e eólicos mês após mês, mas a conta continua subindo porque o problema não é de geração — é de infraestrutura, de regulação e de uma montanha de encargos que se acumula há décadas.
A pergunta que 35 milhões de famílias fazem toda vez que abrem a conta é simples: se o sol e o vento são de graça, por que a luz é tão cara?
A resposta, como quase tudo no Brasil, está no que não se vê — nos 20% de encargos invisíveis que ninguém pediu e todos pagam.

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