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Brasil se junta a China, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia na nova engenharia urbana que transforma jardins de chuva em barreiras contra enchentes, filtros para a água que escorre do asfalto e proteção contra crateras nas vias

Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/05/2026 às 19:53
Atualizado em 04/05/2026 às 19:55
Brasil adota jardins de chuva na infraestrutura urbana para reduzir enchentes, filtrar água pluvial e preservar ruas e calçadas urbanas. (Imagem: Ilustrativa)
Brasil adota jardins de chuva na infraestrutura urbana para reduzir enchentes, filtrar água pluvial e preservar ruas e calçadas urbanas. (Imagem: Ilustrativa)
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Jardins de chuva ganham espaço em cidades brasileiras e aproximam o país de modelos internacionais de drenagem urbana, com foco em retenção de água, filtragem de poluentes e redução da sobrecarga sobre bueiros, galerias e canais.

O Brasil vem ampliando o uso de jardins de chuva em projetos de drenagem urbana, uma solução baseada na natureza que já aparece em políticas e manuais técnicos de países como China, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia.

A proposta é reduzir a velocidade com que a água das tempestades chega a bueiros, galerias e canais, permitindo que parte dela seja retida, filtrada e infiltrada no solo.

Na prática, essas estruturas funcionam como áreas rebaixadas e vegetadas, instaladas em calçadas, praças, rotatórias ou margens de vias.

Embora pareçam canteiros comuns, os jardins de chuva têm solo preparado, vegetação escolhida para suportar períodos de alagamento e pontos de entrada para receber o escoamento de ruas, telhados e áreas impermeáveis.

A diferença está no papel técnico da estrutura.

Em vez de apenas compor a paisagem, o jardim atua como um sistema de biorretenção, capaz de armazenar temporariamente a água e reduzir o volume que chega ao sistema de drenagem em um curto intervalo de tempo.

Essa retenção é considerada relevante por especialistas em drenagem urbana porque os alagamentos costumam ocorrer quando a chuva chega ao sistema público de forma concentrada.

Experiências recentes no Brasil indicam a incorporação gradual desse modelo em políticas locais.

Em Belém, a prefeitura informou em fevereiro de 2026 a implantação de jardins de chuva, canteiros pluviais, biovaletas, bacias de retenção e bacias de infiltração para reduzir alagamentos em áreas urbanas.

Em Porto Velho, a administração municipal divulgou estruturas com capacidade de armazenar milhares de litros de água durante episódios de chuva intensa.

Jardins de chuva no Brasil e drenagem urbana

O funcionamento de um jardim de chuva depende da combinação entre desenho urbano, solo e vegetação.

A água entra por aberturas junto ao meio-fio ou por pequenos canais, permanece por um período na área rebaixada e depois atravessa camadas de areia, composto orgânico e substrato antes de infiltrar no solo.

Durante esse percurso, sedimentos e parte dos poluentes ficam retidos no próprio sistema.

As raízes ajudam a manter a estrutura do solo, enquanto microrganismos presentes no substrato participam de processos naturais de decomposição e imobilização de contaminantes associados ao escoamento superficial.

Esse mecanismo explica por que a solução é tratada como complemento, e não como substituta, das redes convencionais de drenagem.

Galerias pluviais, canais e reservatórios continuam necessários, especialmente em áreas densamente ocupadas.

O jardim de chuva atua antes dessa etapa, reduzindo a quantidade de água que chega ao sistema coletivo ao mesmo tempo.

Em cidades com solo impermeabilizado por asfalto e concreto, essa retenção local pode diminuir a formação de enxurradas nas vias.

A água deixa de seguir apenas pela sarjeta até o bueiro mais próximo e passa a ser distribuída em pontos capazes de armazenar e infiltrar parte do volume.

Plantas usadas na filtragem da água da chuva

A vegetação usada nesses projetos não tem função apenas estética.

Espécies adaptadas a variações de umidade contribuem para estabilizar o substrato, criar caminhos para a infiltração e reduzir o risco de erosão dentro da área rebaixada.

A escolha das plantas, porém, depende do clima, do tipo de solo e da frequência de manutenção prevista para cada local.

Em projetos de biorretenção, costumam ser priorizadas plantas capazes de tolerar alternância entre solo encharcado e períodos secos.

Essa característica é importante porque o jardim de chuva não deve permanecer alagado continuamente.

Depois da tempestade, a água precisa infiltrar ou escoar de forma controlada para que a estrutura volte a funcionar no evento seguinte.

Também é necessário diferenciar filtragem de águas pluviais de tratamento de esgoto.

Jardins de chuva são projetados principalmente para receber água da chuva misturada a resíduos das vias, como poeira, óleo, folhas, partículas de pneus, sedimentos e outros contaminantes do escoamento urbano.

Quando há ligações irregulares de esgoto na drenagem ou redes antigas que transbordam durante temporais, a retenção da chuva pode reduzir o volume que chega aos sistemas de tratamento e aos cursos d’água.

Ainda assim, isso não transforma o jardim de chuva em estação de tratamento de esgoto doméstico, que exige infraestrutura própria e controle sanitário específico.

Cidades-esponja e sistemas sustentáveis de drenagem

A China incorporou o conceito de “cidade-esponja” a políticas públicas na década passada, com projetos voltados a absorver, armazenar, purificar e reutilizar água da chuva em áreas urbanas.

A revista Pesquisa Fapesp registra que o programa chinês chegou a 30 cidades-piloto, com uso de parques alagáveis, pavimentos permeáveis, biovaletas e outras soluções de drenagem urbana.

Na Dinamarca, Copenhague passou a redesenhar espaços públicos depois de eventos extremos de chuva que causaram grandes prejuízos.

Um dos exemplos citados em estudos urbanos é o Karens Minde Axis, projetado para funcionar como parque em dias secos e como corredor de drenagem durante tempestades, com capacidade para conduzir grande volume de água.

No Reino Unido, os SuDS, sigla em inglês para sistemas sustentáveis de drenagem, orientam o planejamento de novos empreendimentos e obras de infraestrutura.

Em 2025, o governo britânico publicou padrões nacionais para drenagem sustentável com foco em reduzir risco de enchentes, armazenar escoamento e melhorar a qualidade da água antes que ela chegue a rios e córregos.

A Nova Zelândia também aparece entre os países que tratam a biorretenção como parte do desenho viário.

Em Auckland, guias técnicos orientam o dimensionamento de jardins de chuva e estruturas semelhantes em corredores de ruas, incluindo recomendações sobre materiais, manutenção, segurança e integração com o espaço público.

Impacto dos jardins de chuva em ruas e calçadas

A instalação de jardins de chuva pode modificar a forma como calçadas e vias lidam com temporais.

Em vez de concentrar toda a água na superfície pavimentada, o projeto direciona parte do escoamento para uma área vegetada e preparada para receber o volume temporário.

Essa mudança tende a reduzir a velocidade da água nas sarjetas e a quantidade de enxurrada circulando sobre o pavimento.

De acordo com manuais técnicos de drenagem, a diminuição do escoamento superficial ajuda a limitar processos de erosão, carreamento de sedimentos e desgaste de áreas urbanas sujeitas a chuvas fortes.

O resultado, no entanto, depende da escolha correta do local e da manutenção.

Entradas obstruídas por lixo, solo compactado, vegetação inadequada ou falta de limpeza reduzem a capacidade de infiltração.

Como ocorre com bueiros e galerias, a eficiência do sistema está ligada à conservação contínua.

Também há restrições físicas.

Nem toda calçada comporta um jardim de chuva, porque o projeto precisa considerar largura livre para pedestres, acessibilidade, inclinação da via, redes subterrâneas, tipo de solo e proximidade de edificações.

Em áreas com pouco espaço, biovaletas, canteiros pluviais e poços de infiltração podem ser avaliados como alternativas ou complementos.

Infraestrutura verde depende de escala e manutenção

A adoção de jardins de chuva não elimina a necessidade de obras de macrodrenagem, mas acrescenta uma camada de controle na origem do problema.

Cada ponto de retenção reduz uma parcela do volume que chegaria rapidamente ao sistema público durante uma tempestade.

Quando essas estruturas são combinadas a pavimentos permeáveis, telhados verdes, reservatórios e bacias de retenção, a drenagem urbana passa a operar de forma distribuída.

Essa abordagem é adotada em planos de cidades-esponja e sistemas sustentáveis de drenagem porque atua em diferentes etapas do caminho da água.

No caso brasileiro, a expansão do modelo depende de projetos adaptados ao clima local, às características do solo e à capacidade de manutenção de cada município.

Sem esse planejamento, a solução pode perder eficiência ou se transformar em uma área degradada dentro do espaço urbano.

A experiência internacional mostra que jardins de chuva são mais eficazes quando fazem parte de uma rede de intervenções, e não quando aparecem como obras isoladas.

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Itagibe Barbosa Lohmann
Itagibe Barbosa Lohmann
05/05/2026 22:32

Só falta alguém acreditar na execução deste tipo de projeto no Brasil. Me engana que eu gosto.

Ana Maria
Ana Maria
05/05/2026 06:28

Uma coisa que já ajudaria bastante é mudar o sistema de calçadas, que na maioria das cidades brasileiras é apenas de cimento, e faz com que a água bata e deslize com velocidade para os bueiros . Mudar para um sistema que tenha a parte do meio de cimento e dois de grama, como tem sido feito há alguns anos na cidade de Curitiba. Em um desses pedaços de grama estão sendo plantadas flores e arbustos. É sempre a prefeitura junto com a população. No meu bairro plantamos árvores frutíferas de médio porte pensando nos pássaros da região

Mônica Monteiro
Mônica Monteiro
04/05/2026 21:24

Duas cidades brasileiras instalaram esses jardins de chuva, segundo a sua reportagem.
Mas isso não quer dizer que o país aderiu essa estratégia. Nosso país tem dimensões continentais e pela sua discrição o Brasil está longe de incorporar essas valetas nas grandes cidades onde ocorrem a maioria das enchentes. Nada no Brasil funciona como deveria e isso com certeza também não irá funcionar.

Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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