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Brasil está convertendo resíduos da cana-de-açúcar em asfalto mais resistente, durável e ecológico, em uma tecnologia que promete revolucionar estradas, reduzir a pegada de carbono da infraestrutura e dar novo destino a milhões de toneladas de bagaço

Escrito por Ana Alice
Publicado em 03/05/2026 às 23:42
Atualizado em 03/05/2026 às 23:44
Resíduo da cana-de-açúcar é testado no Brasil para melhorar o asfalto e reduzir uso de material mineral em rodovias. (Imagem: Ilustrativa)
Resíduo da cana-de-açúcar é testado no Brasil para melhorar o asfalto e reduzir uso de material mineral em rodovias. (Imagem: Ilustrativa)
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Pesquisadores brasileiros avaliam o uso da cinza do bagaço da cana em misturas asfálticas, unindo reaproveitamento de resíduos, engenharia de pavimentos e desempenho técnico em trecho experimental no Paraná.

Um resíduo gerado nas usinas de açúcar e etanol passou a ser estudado no Brasil como alternativa para melhorar o desempenho de misturas asfálticas.

A cinza do bagaço da cana-de-açúcar, formada após a queima do bagaço usado na produção de energia, foi avaliada por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, como substituta parcial do fíler mineral, material fino usado na composição do asfalto.

O resultado, segundo o estudo publicado na revista científica Scientific Reports, é uma mistura convencional modificada com um subproduto agrícola abundante no país.

A pesquisa não trata de uma estrada “feita de cana”, mas de um pavimento asfáltico que incorpora a cinza em parte da composição.

No experimento, esse resíduo substituiu 5% dos agregados minerais totais em uma mistura de asfalto-borracha, tecnologia empregada em pavimentos sujeitos a tráfego pesado.

A proposta analisada pelos pesquisadores combina reaproveitamento de material industrial e avaliação de desempenho mecânico em laboratório e em campo.

Como a cinza da cana entra no asfalto

A cinza não substitui todo o asfalto nem funciona como uma camada vegetal aplicada sobre a pista.

Sua função é ocupar parte da fração fina da mistura, no lugar de material mineral tradicional.

Essa parcela miúda ajuda a preencher espaços entre os agregados, interfere na aderência interna da massa asfáltica e pode alterar a resistência do pavimento à deformação.

No estudo, a cinza apresentou partículas menores, superfície mais irregular e menor densidade em comparação ao fíler convencional.

De acordo com os autores, essas características influenciaram parâmetros da mistura sem comprometer o teor de vazios definido no projeto, um indicador usado para avaliar se o revestimento mantém condições técnicas adequadas de desempenho.

A escolha da cana-de-açúcar tem relação direta com a disponibilidade desse resíduo no país.

A Conab estimou a safra brasileira 2025/2026 em 673,2 milhões de toneladas de cana, volume que mantém a cultura entre as principais bases do agronegócio nacional.

Esse contexto explica o interesse de pesquisadores em encontrar usos técnicos para subprodutos ligados à cadeia sucroenergética.

Teste com asfalto de cana no Paraná

Após a etapa de laboratório, a mistura modificada foi aplicada em um trecho experimental da BR-158, entre Campo Mourão e Maringá, no Paraná.

A iniciativa fez parte de uma pesquisa de mestrado do engenheiro civil Vinícius Milhan Hipólito, vinculada à Universidade Estadual de Maringá, e avaliou o comportamento funcional e estrutural do pavimento com cinza de bagaço de cana-de-açúcar.

Em entrevista ao portal Estradas, Hipólito afirmou que o experimento demonstrou resultados positivos em desempenho mecânico, além de contribuir para reduzir o uso de agregado mineral e o custo da mistura asfáltica.

A afirmação foi feita no contexto da divulgação do estudo sobre o trecho experimental, sem indicar adoção em larga escala da tecnologia nas rodovias brasileiras.

Os dados técnicos informados na pesquisa apontaram ganhos em diferentes ensaios.

Em laboratório, a mistura com cinza registrou aumento de 40% na estabilidade Marshall e de 22% no ensaio de tração indireta.

Nas amostras de campo, houve alta de 18% no módulo de resiliência, crescimento de 73% no Flow Number e redução de 28% na taxa de deformação permanente em 10 mil ciclos no ensaio de fluência dinâmica.

Outro teste, o Hamburg Wheel Tracking Device, indicou redução de 11% na deformação permanente em 20 mil ciclos.

Esses indicadores são usados para medir como a mistura reage à pressão repetida do tráfego, especialmente em vias que recebem veículos pesados.

A deformação permanente, por exemplo, está associada ao surgimento de trilhas de roda, afundamentos e irregularidades na pista.

Por isso, os resultados interessam à engenharia de pavimentos, embora não substituam a necessidade de acompanhamento em longo prazo.

Menos extração mineral e mais uso de resíduo

O aspecto ambiental da proposta está no aproveitamento de um material que sobra após a queima do bagaço da cana.

Esse bagaço costuma ser usado pelas próprias usinas como biomassa para geração de energia.

Depois da combustão, permanece a cinza, que pode ter diferentes destinos conforme sua composição, volume disponível e viabilidade logística.

Ao substituir uma parcela do fíler mineral, a cinza pode reduzir a demanda por materiais extraídos de jazidas, como pó de pedra.

Essa redução, no entanto, depende da proporção usada na mistura, da distância entre a usina e a obra, do controle de qualidade do resíduo e das exigências técnicas do projeto.

Dessa forma, o potencial ambiental precisa ser avaliado caso a caso, com base em dados de produção, transporte e desempenho.

O estudo também indica uma possibilidade de uso com maior valor agregado para um subproduto da cadeia da cana.

Na prática, a aplicação em pavimentação só pode avançar de forma segura se a cinza tiver padronização granulométrica, composição conhecida e comportamento compatível com as normas usadas em obras rodoviárias.

Sem esses requisitos, o material não pode ser tratado como substituto direto em qualquer tipo de asfalto.

Pesquisa ainda exige monitoramento em rodovias

A pesquisa brasileira mostra viabilidade técnica para uma mistura específica, com teor definido de cinza, tipo determinado de ligante e condições próprias de execução.

Esse recorte é importante para evitar uma leitura mais ampla do que os dados permitem.

Até o momento, as informações disponíveis indicam aplicação experimental, e não uso comercial generalizado em estradas brasileiras.

Outro ponto necessário é diferenciar o material estudado de uma solução pronta para qualquer rodovia.

O asfalto continua sendo uma mistura convencional, formada por agregados minerais, ligante asfáltico e outros componentes.

A inovação está na substituição parcial de uma fração fina por cinza de bagaço de cana, conforme as condições testadas pelos pesquisadores.

Para a engenharia civil, o avanço relatado no estudo se insere em uma linha de pesquisa que busca incorporar resíduos industriais e agroindustriais a materiais de construção.

No caso da cana-de-açúcar, a disponibilidade nacional amplia o interesse científico, mas não elimina etapas como validação em diferentes regiões, análise de durabilidade, avaliação econômica e compatibilidade com processos de usinagem.

O comportamento do pavimento ao longo dos anos ainda é um ponto central.

Rodovias estão expostas a chuva, calor, variações de carga, excesso de peso, falhas de drenagem e manutenção irregular.

Ensaios laboratoriais e trechos experimentais fornecem dados iniciais, mas a adoção em escala depende de monitoramento contínuo e comparação com misturas já consolidadas.

A pesquisa, portanto, não transforma a cana em estrada de forma literal.

Ela mostra que um resíduo da produção sucroenergética pode ser incorporado a uma parte da mistura asfáltica e apresentar desempenho técnico em condições controladas e em um trecho experimental.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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