Barcelona prepara a demolição de mais de 30 edifícios industriais em 19 hectares para erguer um macrobairro com 3.360 moradias, ruas sem carros e ampla vegetação. Das casas planejadas, 1.884 serão subsidiadas. O investimento supera 85 milhões de euros, com obras previstas entre 2028 e 2029.
Barcelona está prestes a vivenciar uma das maiores transformações urbanas das últimas décadas. A cidade espanhola vai demolir mais de 30 edifícios industriais, oficinas e garagens que ocupam 56.814 metros quadrados em uma área degradada para dar lugar a um macrobairro residencial com 3.360 unidades habitacionais. O projeto, gerido pela empresa pública Barcelona Sagrera Alta Velocitat (BSAV), é uma resposta direta à crise habitacional que a cidade enfrenta, combinando moradias subsidiadas e empreendimentos privados em um ambiente que prioriza pedestres, vegetação e restrição ao tráfego de veículos.
As estruturas que serão demolidas estão concentradas em ruas como Santander, Rambla Prim, Via Trajana e Bonaventura Gispert, e começarão a desaparecer a partir de meados de 2027. Os projetos técnicos para as demolições já estão em andamento, com protocolos especiais devido à possível presença de amianto nos telhados, o que pode elevar os custos estimados em cerca de 5,15 milhões de euros. A compensação pela realocação de empresas e construções soma aproximadamente 30 milhões de euros. Barcelona não está apenas construindo casas, está redesenhando uma parte inteira da cidade que ficou esquecida por décadas.
O que Barcelona planeja construir no lugar dos edifícios industriais
O macrobairro que vai substituir os galpões e oficinas abandonadas não é um conjunto habitacional convencional. Barcelona projetou o espaço como uma “nova varanda da cidade em direção ao rio Besòs”, com prioridade para vegetação, amplos espaços públicos, ruas exclusivamente pedestres e restrição severa ao tráfego rodoviário. O terreno de 19 hectares será transformado em um bairro misto que integra moradia, comércio, serviços e áreas verdes em um desenho urbano que reflete as tendências mais atuais de planejamento sustentável.
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Das 3.360 casas planejadas, a distribuição é estratégica: 1.884 unidades serão oficialmente protegidas, muitas de propriedade do município, com o objetivo de aliviar a demanda por moradias populares em Barcelona. As outras 1.476 corresponderão a empreendimentos privados. Esse equilíbrio entre moradia social e mercado livre visa criar um bairro socialmente diverso, evitando a gentrificação que frequentemente acompanha grandes projetos de renovação urbana. Barcelona aprendeu com erros do passado e tenta, desta vez, incluir a população que mais precisa.
Por que Barcelona levou décadas para iniciar esta transformação
A área onde o macrobairro será construído carrega o peso de uma lacuna ferroviária histórica que dividiu Barcelona durante décadas. A presença de linhas de trem, galpões industriais e infraestrutura logística obsoleta impediu que a região se desenvolvesse como bairro residencial, mesmo estando localizada em uma posição estratégica da cidade. Os terrenos ficaram presos entre o uso industrial decadente e a impossibilidade de renovação enquanto a questão ferroviária não fosse resolvida.
O que desbloqueou o projeto foi a construção da futura estação La Sagrera, cuja conclusão está prevista para daqui a cerca de seis anos. Com a estação de alta velocidade em construção, Barcelona finalmente pode integrar a área ao tecido urbano da cidade, conectando o novo bairro ao anel viário de Sant Martí e a outras infraestruturas de transporte. O investimento total em desenvolvimento urbano ultrapassa 85 milhões de euros, um valor que reflete tanto a escala da transformação quanto o compromisso de corrigir uma divisão urbana que penalizou moradores da região por gerações.
Como será o cronograma das obras em Barcelona
Segundo o portal Cronista, o plano segue uma sequência definida. Os contratos para os projetos técnicos de demolição foram adjudicados em março de 2026, com conclusão dos planos prevista para setembro do mesmo ano. A demolição dos mais de 30 edifícios industriais deve começar a partir de meados de 2027, após a conclusão dos protocolos de segurança que incluem a remoção de materiais potencialmente tóxicos como o amianto. Barcelona não quer repetir erros de obras anteriores que ignoraram riscos ambientais.
Assim que o terreno estiver limpo, as obras de urbanização e construção terão início entre 2028 e 2029. O prazo estimado para a conclusão de toda a urbanização, construção e comercialização das casas é de aproximadamente 10 anos, o que significa que o macrobairro só estará plenamente habitado por volta de 2038. Elementos como o Instituto Salvador Seguí, a casa rural Can Riera e o muro de contenção do córrego Horta serão preservados durante as obras, minimizando impactos na área educacional e no patrimônio local.
O que o macrobairro de Barcelona significa para a crise habitacional

imagem: BSAV
Barcelona enfrenta uma das crises habitacionais mais agudas da Europa, com preços de aluguel que subiram de forma vertiginosa na última década e uma oferta de moradia popular que não acompanha a demanda. O macrobairro com 1.884 unidades subsidiadas representa o maior bloco de moradia protegida que a cidade vai colocar no mercado em um único projeto, um volume que pode aliviar parte da pressão sobre famílias que estão sendo expulsas dos bairros centrais pelos preços.
O projeto também visa revitalizar a área circundante de Sant Andreu, posicionando a região como um novo polo residencial atraente e moderno em Barcelona. A conexão com a estação La Sagrera garantirá acesso rápido ao centro da cidade e a outras localidades da Espanha por trem de alta velocidade, o que tende a valorizar o bairro e atrair moradores que hoje são forçados a viver em periferias distantes por falta de opções acessíveis. Barcelona está apostando que esse macrobairro pode ser, ao mesmo tempo, solução habitacional e motor de transformação urbana.
O modelo urbano que Barcelona está seguindo com este projeto
O macrobairro se insere em uma tendência mais ampla de Barcelona de repensar o espaço urbano em favor das pessoas. A cidade já é referência mundial com o modelo de superquadras (superilles), que restringe o tráfego de veículos em áreas residenciais e devolve ruas aos pedestres. O novo bairro leva esse conceito ao extremo: ruas sem carros, vegetação abundante e espaços públicos projetados para convivência, não para circulação motorizada.
Essa abordagem reflete uma mudança de paradigma que Barcelona vem implementando há anos. Em vez de projetar cidades para carros e adaptar o que sobra para as pessoas, a cidade espanhola faz o contrário: projeta para pessoas e restringe o espaço dos veículos ao mínimo necessário. O macrobairro de 19 hectares é a aplicação mais ambiciosa desse princípio, e seu sucesso ou fracasso será observado por urbanistas do mundo inteiro como teste de viabilidade de um modelo que promete transformar a forma como as cidades europeias crescem.
Barcelona vai demolir galpões industriais e construir um macrobairro com 3.360 casas, ruas sem carros e muita vegetação. Você acha que cidades brasileiras deveriam adotar projetos parecidos? Ruas sem carros melhoram ou complicam a vida urbana? Deixe sua opinião nos comentários.

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