O Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics está na fase final de preparação para emitir títulos em rupias indianas, ampliando uma estratégia de financiamento em moedas locais que já inclui operações em rands sul-africanos e yuans chineses. Segundo o TV Brics, a confirmação foi feita pela presidente da instituição, Dilma Rousseff, durante a coletiva de imprensa realizada após a 11ª reunião anual do Conselho de Governadores do banco, em Moscou, nos dias 14 e 15 de maio.
A emissão em rupias representa mais um passo de uma estratégia de longo prazo que visa reduzir a dependência do banco em relação ao dólar americano. Atualmente, quase 30% dos projetos do Banco dos Brics já são financiados em moedas nacionais, com o yuan chinês concentrando a maior fatia desses investimentos. A meta estabelecida na estratégia quinquenal da instituição é que, até 2031, mais de 45% dos projetos sejam financiados em moedas locais dos países membros, um salto significativo que exige a abertura de mercados de capitais em moedas que até recentemente não tinham expressão no financiamento internacional de infraestrutura.
Dilma Rousseff foi direta ao explicar a importância da emissão em rupias para o Banco dos Brics: “O banco, pela característica dele de ser um banco do Sul Global, tem de criar a sua própria sustentação com seus recursos. Quanto mais forem os nossos recursos, mais autonomia nós temos diante de programas. Emitir em moeda local é uma questão crucial.” A fala posiciona a diversificação de moedas não como alternativa ao dólar por razões ideológicas, mas como necessidade operacional de uma instituição que quer ter capacidade de financiar projetos sem depender de uma moeda controlada por um país que não faz parte do grupo.
De rands a rupias: a expansão das moedas do Banco dos Brics

O Banco dos Brics começou suas operações de captação em moedas locais com a emissão de títulos em yuans chineses, aproveitando o tamanho e a liquidez do mercado de capitais chinês. Depois, expandiu para o rand sul-africano, criando um precedente para moedas de economias menores dentro do grupo. Agora, com a emissão em rupias indianas em fase final, o banco adiciona a moeda da quinta maior economia do mundo ao seu portfólio de captação.
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Cada nova moeda incorporada ao sistema de emissão do banco amplia o número de investidores institucionais que podem comprar títulos do Brics sem precisar converter para dólares. Um fundo de pensão indiano que compra títulos em rupias elimina o risco cambial que teria ao investir em papéis denominados em dólares. Um investidor sul-africano que adquire títulos em rands faz o mesmo. Essa lógica multiplica a base de captação do banco sem depender dos mercados de dívida denominados na moeda americana.
O yuan como pilar e a meta de 45% até 2031
O ministro das Finanças da Rússia e presidente do Conselho de Governadores do banco, Anton Siluanov, detalhou os números atuais da estratégia de moedas locais do Brics. “Quase 30% dos projetos já são financiados em moedas nacionais e, segundo nossa estratégia até 2031, a participação desses projetos deverá superar 45%. Atualmente, o yuan chinês ocupa posição central tanto na captação de recursos quanto nos investimentos”, afirmou Siluanov. A concentração no yuan é natural: a China é o maior acionista do banco e possui o mercado de capitais mais desenvolvido entre os membros.
A meta de 45% até 2031 significa que, em cinco anos, quase metade de toda a carteira de projetos do Banco dos Brics será financiada sem passar pelo dólar. Para alcançar esse percentual, a instituição precisa diversificar além do yuan, incorporando moedas como a rupia, o rand e potencialmente o real brasileiro e o rublo russo. A emissão em rupias indianas é um passo concreto nessa direção e abre caminho para que outras moedas do grupo sejam incluídas no portfólio de captação nos próximos anos.
Quatro novos acionistas e três à espera
A reunião de Moscou também trouxe novidades sobre a composição do Banco dos Brics. Siluanov informou que quatro novos acionistas passaram a integrar a instituição recentemente: Emirados Árabes Unidos, Bangladesh, Egito e Argélia. A entrada desses países amplia a base geográfica do banco para o Oriente Médio, o Sudeste Asiático e o Norte da África, regiões onde o financiamento em moedas locais pode ter demanda especialmente forte por parte de governos que buscam alternativas ao sistema financeiro ocidental.
Além dos quatro novos membros, está sendo analisada a entrada de mais três países: Uzbequistão, Colômbia e Etiópia. Se esses três forem aceitos, o Banco dos Brics passará a reunir economias que representam parcelas significativas da população mundial e do PIB dos países em desenvolvimento. Para a estratégia de emissão em moedas locais, cada novo membro é potencialmente uma nova moeda a ser incorporada ao sistema de captação, ampliando a diversificação que Dilma Rousseff considera essencial para a autonomia da instituição.
Tokenização: o próximo passo que o banco estuda
Durante a cerimônia de abertura da reunião em Moscou, Dilma Rousseff anunciou a elaboração de uma nova estratégia quinquenal para o Banco dos Brics com três prioridades: financiamento em moedas nacionais, fortalecimento dos mercados locais de capitais e estudo da possibilidade de tokenização. A tokenização, que consiste em transformar ativos financeiros em tokens digitais registrados em blockchain, poderia permitir que títulos do banco fossem negociados em plataformas descentralizadas, reduzindo custos de intermediação e ampliando o acesso de investidores menores a papéis que hoje circulam apenas entre grandes instituições.
A menção à tokenização indica que o Banco dos Brics não está apenas buscando alternativas ao dólar, mas explorando alternativas à própria infraestrutura financeira tradicional. Se títulos emitidos em rupias, rands ou yuans puderem ser tokenizados e negociados em plataformas digitais acessíveis a investidores de qualquer país membro, o banco criaria um mercado de dívida paralelo ao sistema convencional de bolsas e clearinghouses dominado pelo Ocidente. É uma ambição de longo prazo que depende de regulamentação e de infraestrutura tecnológica, mas que já está no radar estratégico da instituição.
Autonomia financeira como estratégia de sobrevivência
A insistência de Dilma Rousseff na emissão em moedas locais não é retórica. Para o Banco dos Brics, depender de captações em dólares significa depender de condições de mercado definidas pelo Federal Reserve americano e de um sistema de pagamentos onde transações podem ser bloqueadas por sanções unilaterais. Cada título emitido em rupias, rands ou yuans é um pedaço de financiamento que não pode ser interrompido por decisões políticas de Washington.
A lógica é especialmente relevante para a Rússia, que enfrenta sanções ocidentais e não pode acessar mercados de dívida em dólares ou euros. Mas beneficia igualmente outros membros que querem reduzir sua exposição a uma moeda que oscila ao sabor de decisões de política monetária e geopolítica americanas. O Banco dos Brics, ao diversificar suas fontes de captação para moedas locais, constrói uma infraestrutura financeira que funciona independentemente do humor de qualquer banco central específico.
Rupias hoje, 45% em moedas locais até 2031
O Banco dos Brics prepara a emissão de títulos em rupias indianas, já opera com rands e yuans e mira ter mais de 45% dos projetos financiados em moedas nacionais até 2031. Dilma Rousseff posiciona essa estratégia como essencial para a autonomia de uma instituição que nasceu para financiar o Sul Global sem depender das estruturas dominadas pelo Ocidente. Com quatro novos acionistas, três na fila de entrada e o estudo de tokenização no horizonte, o banco acelera uma transformação que pode redesenhar a forma como países emergentes financiam infraestrutura.
Você acha que o Banco dos Brics conseguirá atingir a meta de 45% de financiamento em moedas locais até 2031? Conte nos comentários o que pensa sobre a emissão em rupias, se o Brasil deveria ter títulos do banco em reais e como avalia a estratégia de reduzir a dependência do dólar. Queremos ouvir a sua opinião.

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