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Em 80 anos construindo 22 mil barragens, o Brasil atingiu mais de 4 milhões de pessoas — e a lei aprovada em 2024 para proteger os atingidos ainda não saiu do papel

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 07/05/2026 às 06:00
Atualizado em 07/05/2026 às 06:03
Comunidade ribeirinha brasileira atingida por barragem hidrelétrica
Mais de quatro milhões de brasileiros foram atingidos por barragens entre 1940 e 2022, segundo levantamento do MAB. Hoje o país tem 22 mil estruturas registradas, 70% delas voltadas para energia.
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Em oito décadas construindo hidrelétricas e mineradoras, o país acumulou 22 mil barragens registradas — e mais de quatro milhões de brasileiros foram atingidos por elas. A Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas, aprovada em 2024 depois de mais de três décadas de luta, ainda não foi regulamentada.

Publicado em 11 de março de 2026 pelo Brasil de Fato, um levantamento do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) traz um número pouco conhecido.

Segundo o movimento, entre 1940 e 2022 mais de quatro milhões de pessoas foram atingidas por construções e rompimentos de barragens no país.

Conforme registrou o documento, esse total veio de pesquisa analisada pelo próprio movimento, que organiza atingidos há 35 anos.

Por isso, a entidade trata o dado como o piso provável — e não o teto.

De acordo com entrevista à Agência Pública, a coordenadora nacional confirmou outro dado público: “hoje, no Brasil, nós temos cerca de 22 mil barragens”.

Cerca de 70% delas atendem ao setor de energia.

Para efeito de comparação, o portal já mostrou como Belo Monte completou dez anos ainda cercada por ações judiciais e críticas sociais.

Portanto, o cenário descrito pelo movimento une duas escalas que raramente aparecem juntas na imprensa.

De um lado, uma infraestrutura imensa que sustenta a matriz elétrica. De outro, milhões de pessoas que perderam a casa, a roça ou o rio.

Comunidade ribeirinha brasileira atingida por barragens hidrelétricas no Brasil
Mais de quatro milhões de brasileiros foram atingidos por barragens entre 1940 e 2022, segundo levantamento do MAB. Hoje o país tem 22 mil estruturas registradas, 70% delas voltadas para energia.

Tudo começou nos anos 1970 — quando ninguém ouvia o atingido

O movimento se organizou no fim da década de 1970, segundo registro da própria entidade.

Naquele período, o Brasil vivia a ditadura militar e tocava obras gigantescas como a Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Como resultado, famílias inteiras eram retiradas das margens de rios sem indenização adequada.

Por consequência, surgiram comissões locais que depois viraram um movimento nacional.

Em seguida, em 14 de março de 1991, o primeiro Congresso Nacional marcou a fundação oficial do MAB, conforme registrou a Agência Pública.

Trinta e cinco anos depois, o movimento está presente em vinte estados brasileiros e mantém atuação contínua.

Como definiu uma representante do MAB à Agência Pública: “É um processo onde os atingidos são sujeitos da sua própria construção do processo de formação, organização e luta”.

Mariana mudou a luta — e abriu uma frente nova contra a mineração

Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), atingiu Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

A lama de rejeitos desceu o rio Doce e chegou ao mar — episódio até então sem precedente no país.

Depois desse desastre, a luta do MAB ganhou uma camada nova.

Antes, o movimento se concentrava em barragens de geração elétrica. A partir de 2015, passou a tratar também de mineração.

Conforme resumiu um ativista citado pelo Brasil de Fato em 2024: “Se no início a luta era contra a construção, hoje lidamos com rompimentos de barragens de mineração e ausência de reparação.”

Vista aérea de barragem hidrelétrica brasileira em manhã de neblina
No fim dos anos 1970, obras como Itaipu deslocaram populações inteiras sem indenização adequada — daí veio a semente do MAB.

A PNAB existe desde 2024 — só que ainda não saiu do papel

A principal reivindicação do MAB ao longo de décadas era simples: uma lei nacional que reconhecesse os atingidos como sujeitos de direito.

Esse objetivo foi alcançado em 2024 com a sanção da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens, conhecida pela sigla PNAB.

De fato, o texto havia passado pela Câmara em 2022, ainda na gestão de Jacques Wagner (PT-BA) como presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado.

De lá, seguiu para sanção. A celebração veio em abril de 2024, quando o movimento completou trinta e três anos.

Contudo, dois anos depois da aprovação, a lei segue sem regulamentação efetiva.

Sem o decreto que define como o estado vai operar a política, atingidos não conseguem acessar reassentamento, indenização ou participação formal na reconstrução.

Por isso, o movimento organizou de 11 a 14 de março de 2026 a Jornada Nacional de Lutas, com cerca de cinquenta atividades em vinte estados.

A pauta principal foi a regulamentação da PNAB.

Esse roteiro lembra outro caso recente, quando comunidades do Nordeste cobraram regulamentação dos parques eólicos — outra área do setor de energia que avançou rápido sem amparo legal claro.

Rio Grande do Sul: dois anos depois das enchentes, ainda sem casa

O caso mais visível da inação está no Rio Grande do Sul.

Em 27 de abril de 2026, o site oficial do MAB publicou que os atingidos pelas enchentes de 2024 “seguem sem casa e sem direitos”, dois anos depois do desastre.

Segundo o movimento, o quadro tem três falhas estruturais:

  • Falta de moradia permanente para famílias deslocadas
  • Cadastros oficiais com lacunas e duplicidades
  • Atingidos sem participação nos processos de reconstrução

Da mesma forma, esse padrão também aparece em casos urbanos.

Na zona leste de São Paulo, o bairro Jardim Pantanal sofre anualmente com enchentes provocadas pelo fechamento das comportas da Barragem de Penha — repetição que o MAB documenta há mais de uma década.

Atingidos por barragens em comunidade rural brasileira após cheia
Em 2024, enchentes no Rio Grande do Sul atingiram milhares de famílias. Dois anos depois, segundo o MAB, parte segue sem moradia permanente.

A saúde dos atingidos por barragens entra no radar da Fiocruz

Outra frente nova é a saúde pública.

Em abril de 2026, o MAB anunciou pesquisa conjunta com a Fiocruz sobre o impacto sanitário em comunidades atingidas, com atividades em São Paulo.

O estudo busca medir efeitos de longo prazo — algo que praticamente não existia em registros oficiais até agora.

Da mesma forma, o calendário de mobilização do movimento ganhou peso simbólico.

Conforme decisão da ONU, 14 de março virou o Dia Internacional de Luta contra as Barragens, em Defesa dos Rios e da Vida, marcado por entidades de mais de cinquenta países.

Por que esse número não para de crescer no Brasil

O Brasil mantém vinte e duas mil estruturas registradas, sendo cerca de setenta por cento delas voltadas para energia.

Por outro lado, novos projetos seguem entrando na pauta de leilões e licitações.

Como consequência, cada nova barragem cria, em alguma medida, um novo grupo de atingidos.

Sem a regulamentação da PNAB, esses grupos continuam dependendo de acordos pontuais — modelo que o movimento descreve como “indenização caso a caso”.

Por isso, fica a pergunta: o Brasil consegue manter sua matriz elétrica sem atingir mais um milhão de pessoas nas próximas duas décadas?

A resposta depende, em grande parte, de quanto a lei aprovada em 2024 vai pesar de fato.

Manifestantes do MAB em ato pela regulamentação da PNAB no Brasil
Em março de 2026, atingidos por barragens fizeram cerca de 50 atividades em 20 estados durante a Jornada Nacional de Lutas. A pauta principal foi a regulamentação da PNAB.

O que ainda não está claro sobre os atingidos por barragens

Por outro lado, alguns dados merecem cuidado.

O total de quatro milhões de pessoas atingidas vem de pesquisa do próprio movimento, e não de censo oficial — embora a Agência Nacional de Águas (ANA) e o IBGE possam confirmar partes do recorte.

Além disso, “atingido” é um conceito mais amplo que “desalojado”.

Pode incluir perda de meios de subsistência, contaminação de águas e fragmentação comunitária — e não só o deslocamento físico da casa.

Ainda assim, o sentido geral é difícil de contestar.

Trinta e cinco anos depois da fundação do MAB, o Brasil convive com a maior infraestrutura hidráulica da América do Sul.

Por outro lado, segue com uma dívida social que nem o estado nem o setor produtivo terminaram de pagar.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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