A Via Mar, rodovia de 145 km e seis pistas que vai ligar Joinville à Grande Florianópolis, é vendida como a solução para o caos da BR-101 em Santa Catarina. Mas a letra miúda revela detalhes que pouca gente comenta: ela terá pedágio, vai custar bilhões e esbarra em desafios de engenharia que podem atrasar tudo.
Quem já encarou o trânsito da BR-101 no litoral de Santa Catarina sabe o tamanho do problema. Uma viagem entre Joinville e a Grande Florianópolis, que deveria ser rápida, costuma passar de três horas em dia normal, e vira pesadelo em feriados ou quando há acidente. É justamente esse gargalo que o governo catarinense promete resolver com a Via Mar, uma nova rodovia anunciada como obra histórica, com previsão de começar a sair do papel já em 2026.
A promessa é sedutora: cortar o trajeto de três horas para cerca de uma. Só que, antes de comemorar, vale ler as entrelinhas do projeto. A Via Mar não será de graça, não é simples de construir e tem um cronograma que depende de muita coisa dar certo. Reunimos aqui o que costuma ficar de fora das manchetes mais animadas sobre a nova rodovia de Santa Catarina.
O que é a Via Mar, em resumo

Antes da letra miúda, o básico. A Via Mar é planejada como uma rodovia paralela à BR-101, com cerca de 145 quilômetros de extensão, seis pistas no total, três em cada sentido, e velocidade máxima de 120 km/h. Como detalha a NSC Total, o traçado terá viadutos, pontes e até túnel, ligando Joinville ao contorno viário da Grande Florianópolis e passando por cidades como Guaramirim, Navegantes e Itajaí.
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O custo estimado da obra fica entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões, e o projeto foi dividido em cinco lotes para facilitar a execução. Na teoria, será uma das rodovias mais modernas do país, pensada desde o início para alta capacidade e tráfego veloz. Se entregar o que promete, a Via Mar pode mesmo transformar a mobilidade no litoral de Santa Catarina e tirar boa parte da pressão de cima da BR-101. O detalhe é que esse “se” carrega bastante peso.
A novidade que pouca gente comenta: o pedágio
Aqui está o ponto que muita reportagem esquece de destacar. A Via Mar será a primeira rodovia estadual de Santa Catarina com pedágio, segundo apurou a Gazeta do Povo. Ou seja, o alívio no trânsito virá com uma cobrança a cada viagem, algo a que o motorista catarinense não está acostumado nas estradas do próprio estado.
Isso acontece por causa do modelo de financiamento. A obra será tocada por uma parceria público-privada, em que o Estado banca a primeira fase, com cerca de R$ 1 bilhão, e depois é ressarcido por uma concessionária, que assume o restante da construção e a operação da rodovia. Para ter retorno do investimento bilionário, essa empresa cobrará pedágio de quem usar a Via Mar. Na prática, o motorista troca o tempo perdido na BR-101 por um custo financeiro na nova rodovia, e cada um vai ter que fazer essa conta no próprio bolso.
Solo mole e arrozais: os desafios de engenharia
Construir 145 quilômetros de rodovia de alto padrão no litoral de Santa Catarina não é tarefa trivial. O caminho da Via Mar atravessa trechos de solo mole, áreas de arrozais e regiões que vão exigir estruturas elevadas, como longos viadutos e pontes, para vencer terrenos instáveis e alagadiços. Tudo isso encarece a obra e complica o cronograma.
Não é detalhe pequeno. Solo mole significa fundações mais caras e demoradas, e o litoral catarinense tem justamente esse tipo de terreno em vários pontos. Quanto mais viaduto, ponte e túnel uma rodovia precisa, maior o risco de atraso e de estouro de orçamento. A Via Mar é ambiciosa, mas o desafio técnico de fazê-la atravessar a planície litorânea de Santa Catarina é grande, e o papel aceita qualquer promessa.
Quando fica pronta? O prazo realista
E chega a pergunta que todo mundo faz: quando dá para usar? O governo de Santa Catarina pretende iniciar as obras da Via Mar ainda em 2026, mas o prazo mínimo estimado para conclusão, depois de contratada a concessionária, é de cerca de três anos. Na prática, isso joga a entrega para o fim da década, e só se nada atrasar pelo caminho.
E atraso, em obra de rodovia no Brasil, é quase regra. A própria BR-101 em Santa Catarina é exemplo disso, com gargalos famosos, como o do Morro dos Cavalos, que se arrastam por anos a fio mesmo com bilhões previstos. A Via Mar surge justamente em meio a críticas sobre a lentidão das obras viárias no estado, o que aumenta a desconfiança de parte da população. A promessa de desafogar a BR-101 é boa, mas a história recente recomenda comemorar só quando o asfalto estiver pronto.
Por que isso importa para SC e o país
Apesar das ressalvas, é inegável que a Via Mar mira um problema real e caro. O litoral norte de Santa Catarina concentra alguns dos portos mais movimentados do Brasil, como os de Itajaí e Navegantes, além do polo industrial de Joinville e de um turismo que explode no verão. Quando a BR-101 trava, não é só o passeio que sofre: a economia inteira da região sente, com cargas atrasadas e custos maiores.
Por isso, uma rodovia que realmente desafogue esse corredor teria impacto que vai muito além do tempo de viagem. Significaria logística mais eficiente, menos acidentes e mais competitividade para um dos estados mais produtivos do país. O caso da Via Mar resume bem o dilema da infraestrutura brasileira: as soluções existem e são anunciadas com festa, mas dependem de financiamento, engenharia e prazo para deixarem de ser promessa. Para Santa Catarina, o teste de verdade começa quando a primeira máquina entrar em campo.
A Via Mar é a cara dos grandes projetos brasileiros: empolgante no anúncio e cheia de perguntas em aberto. De um lado, a chance real de transformar a viagem entre Joinville e Florianópolis e aliviar a sufocada BR-101. De outro, o pedágio, o solo mole, os bilhões e o prazo que só o tempo vai confirmar. Saber dos dois lados ajuda a cobrar que a obra saia mesmo do papel.
E você, toparia pagar pedágio numa nova rodovia em Santa Catarina para escapar do trânsito da BR-101, ou acha que o estado deveria primeiro consertar o que já existe? Conta nos comentários a sua opinião.


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