Arqueólogos encontram sementes e ferramentas de 800 anos preservadas no clima seco de Gran Canaria. Entenda como as cavernas funcionavam como silos e túmulos.
Um fenômeno geológico e climático permitiu que arqueólogos recuperassem tesouros biológicos raros no monólito de Roque Bentayga, na Gran Canaria. Em um complexo de mais de 100 câmaras escavadas em tufo vulcânico, a ausência de umidade e a temperatura constante agiram como um conservante natural para materiais que normalmente desaparecem com o tempo. As informações são do site Aventuras na História.
A descoberta, detalhada no Journal of Archaeological Science: Reports, trouxe à luz sementes de cevada, fragmentos de couro e tecidos animais dos séculos 10 a 13, oferecendo uma janela científica sem precedentes para a vida dos povos indígenas Amazigh antes da ocupação europeia.
O milagre da conservação biológica
O que mais impressionou os pesquisadores durante as escavações no complexo C008 foi a integridade dos materiais orgânicos. Enquanto a maioria dos sítios arqueológicos apresenta apenas pedras e cerâmicas, as cavernas de Bentayga funcionaram como cápsulas do tempo devido à sua extrema secura.
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Entre os itens resgatados, destacam-se:
- Têxteis e couros: Fragmentos de materiais macios de origem animal.
- Botânica antiga: Levas de cevada, sementes e juncos que não sofreram decomposição.
- Mortalhas vegetais: Fibras tecidas que envolviam corpos em rituais fúnebres.
- Madeiras trabalhadas: Utensílios de madeira que preservam as marcas das ferramentas da época.

A prova material da revolução agrícola
Além da biologia, os arqueólogos celebraram uma vitória histórica no campo da tecnologia pré-hispânica. Pela primeira vez, a ciência obteve uma prova física direta de que os antigos habitantes das Canárias possuíam instrumentos específicos para a colheita de cereais.
Até então, o conhecimento sobre a agricultura local era baseado em suposições. No entanto, a análise de uma lâmina de basalto revelou resquícios de plantas ricas em sílica, confirmando seu uso no campo. Além disso, a descoberta de feixes de cevada com marcas de corte sugere o uso de ferramentas similares a foices.
Esse achado comprova que o processo de sedentarização desses povos era avançado, envolvendo a separação sistemática entre o grão e o talo para armazenamento em massa.
De celeiros a cemitérios: A evolução do uso das cavernas
A cronologia estabelecida por testes de radiocarbono indica que a função dessas estruturas artificiais mudou drasticamente ao longo dos séculos. Inicialmente projetadas como silos de alta eficiência para garantir a segurança alimentar da população, as câmaras passaram por uma readequação cultural.
- Séculos 10 ao 13: O foco principal era o armazenamento em celeiros protegidos.
- Séculos 12 e 13: O local passou a abrigar sepultamentos coletivos.
- Diversidade demográfica: Foram encontrados restos mortais de adultos, indicando um cemitério.
- Processamento de alimentos: O achado de uma peça de obsidiana sugere que, além de grãos, o local também servia para tratar derivados de carne.
Embora a pesquisa ainda precise de validação final pelos pares acadêmicos, os dados atuais já reescrevem capítulos da história das Ilhas Canárias. O domínio da engenharia para esculpir montanhas a 1.414 metros de altitude demonstra uma adaptação brilhante ao terreno vulcânico.
Com informações do site Aventuras na História

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