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Arqueólogos encontraram perto de Abydos a tumba de um faraó egípcio ainda não identificado, datada de cerca de 3.600 anos, em mais uma descoberta real importante anunciada pelo Egito em 2025

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 01/03/2026 às 23:19
Em Abydos, faraó, tumba, Egito e Dinastia de Abidos se cruzam numa descoberta de 3.600 anos que reacende a história de um rei sem nome.
Em Abydos, faraó, tumba, Egito e Dinastia de Abidos se cruzam numa descoberta de 3.600 anos que reacende a história de um rei sem nome.
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A descoberta da câmara funerária de um faraó ainda não identificado perto de Abydos, a sete metros de profundidade, expõe um capítulo fragmentado do Segundo Período Intermediário, quando reinos rivais disputavam o controle do Egito e deixaram túmulos vazios, nomes destruídos e perguntas abertas sobre a antiga Dinastia de Abidos.*

O faraó encontrado perto de Abydos continua sem nome, mas sua tumba já mudou o peso histórico da área. Datada de cerca de 3.600 anos, a câmara funerária apareceu numa antiga necrópole do Monte Anúbis, enterrada a sete metros de profundidade, e foi revelada por escavações conduzidas por arqueólogos egípcios e pelo Museu da Universidade da Pensilvânia.

A descoberta chama atenção não apenas pela idade, mas pelo momento histórico que ela ilumina. O túmulo remete ao Segundo Período Intermediário, fase em que o Egito estava fragmentado, com reinos rivais disputando espaço e autoridade. É justamente nesse cenário confuso que um rei sem identidade reaparece, mesmo depois de ter o nome praticamente apagado da história.

Abydos volta ao centro de uma história ainda incompleta

Em Abydos, faraó, tumba, Egito e Dinastia de Abidos se cruzam numa descoberta de 3.600 anos que reacende a história de um rei sem nome.

Abydos já era uma cidade central do antigo Egito, e a nova descoberta reforça esse papel. A tumba foi encontrada perto dessa importante área do Alto Egito, a cerca de 10 quilômetros do rio Nilo, dentro de uma zona funerária associada ao Monte Anúbis.

Não se trata de um sepultamento isolado num ponto periférico, mas de um achado inserido em uma paisagem sagrada e política de grande relevância.

A estrutura descoberta é uma grande câmara funerária de calcário, com entrada decorada e salas cobertas por abóbadas de cinco metros de altura feitas de tijolos de barro. Mesmo vazia, a arquitetura preservada sugere ambição real.

A ausência do corpo e dos objetos não diminui o peso da descoberta, porque o tamanho, a posição e o acabamento da construção apontam claramente para um sepultamento de elite, ligado à realeza.

O estado atual da tumba também diz muito sobre o passado do local. Quando os arqueólogos chegaram, a câmara já estava vazia, aparentemente saqueada havia muito tempo por ladrões de túmulos. Isso ajuda a explicar por que o nome do governante se perdeu.

Os textos hieroglíficos existiam na entrada, em tijolos rebocados, mas não resistiram às depredações antigas.

Ainda assim, alguns elementos sobreviveram o suficiente para manter o caso aberto. Ao lado das inscrições apagadas, havia cenas pintadas das deusas irmãs Ísis e Néftis, figuras diretamente associadas ao universo funerário egípcio.

Mesmo com o nome destruído, a tumba preservou sinais suficientes para provar que ali estava um faraó, não apenas um ocupante de alta posição.

O nome sumiu, mas os candidatos continuam na mesa

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A grande frustração do achado é também o que o torna fascinante. O faraó foi encontrado, mas sua identidade não. Segundo Josef Wegner, professor de arqueologia egípcia da Universidade da Pensilvânia e um dos líderes da escavação, o nome estava originalmente nas inscrições, mas foi perdido com a ação dos saqueadores antigos.

Entre os possíveis candidatos estão reis como Senaiib e Paentjeni, conhecidos por monumentos em Abydos e associados a esse mesmo período, mas cujos túmulos ainda não haviam sido localizados. A hipótese é plausível porque ambos governaram na época a que a tumba pertence.

O problema é que, sem a inscrição preservada, a arqueologia precisa trabalhar com cruzamentos de contexto, arquitetura e cronologia, não com uma identificação definitiva.

Esse vazio de nome transforma a descoberta numa espécie de quebra-cabeça político. O Egito daquele período não era um bloco estável comandado por uma única autoridade incontestável.

Havia fragmentação, disputa regional e uma sucessão de reis menos conhecidos do que os grandes nomes do Império Novo ou do Antigo Império. Um túmulo sem nome, nesse contexto, não é uma exceção absurda. É quase um retrato da própria época.

A perda da identidade também amplia o valor do local para pesquisas futuras. Quando um túmulo real aparece sem o nome do ocupante, cada detalhe da construção passa a ter peso maior.

A forma da entrada, o tipo de abóbada, a posição dentro do cemitério e as relações com outras tumbas deixam de ser coadjuvantes e viram pistas centrais.

O período em que o Egito estava dividido ajuda a explicar a descoberta

Em Abydos, faraó, tumba, Egito e Dinastia de Abidos se cruzam numa descoberta de 3.600 anos que reacende a história de um rei sem nome.

O túmulo data do Segundo Período Intermediário, entre 1640 a.C. e 1540 a.C., fase que ligou o Império Médio ao Império Novo. Foi uma era politicamente instável, marcada por fragmentação territorial e por uma disputa entre diferentes poderes regionais.

Em vez de um Egito unificado sob um único centro forte, o quadro era o de vários reinos competindo entre si.

Wegner descreveu essa fase como uma espécie de período de “estados em guerra”, que mais tarde daria origem ao Novo Reino do Egito. Entre esses polos estava a Dinastia de Abidos, um conjunto de reis que governou parte do Alto Egito.

Ao mesmo tempo, o Delta do Nilo era controlado pelos hicsos, enquanto outros núcleos rivais também disputavam poder.

A tumba recém-descoberta não surgiu numa fase de estabilidade monumental, mas em um Egito quebrado em pedaços.

É justamente por isso que o achado tem alcance maior do que o encontro de uma câmara funerária antiga. Ele ajuda a preencher um pedaço de uma cronologia ainda mal compreendida.

A fragmentação do período dificulta listas completas de reis, sucessões seguras e atribuições de monumentos. Cada novo túmulo pode reorganizar a leitura sobre quem governou, quando governou e como esses reinos se relacionavam.

A descoberta também reforça que o Segundo Período Intermediário não deve ser visto apenas como um intervalo obscuro entre fases mais famosas.

Foi um momento decisivo de mudança social, política e tecnológica, e compreender sua fragmentação ajuda a entender como o Egito se reunificou depois sob governantes muito mais poderosos.

A arquitetura sugere um rei importante dentro da Dinastia de Abidos

Um dos aspectos mais relevantes do achado é sua posição dentro de um complexo funerário maior associado ao poderoso Neferhotep I, faraó de um período anterior.

O novo túmulo foi construído nesse ambiente mais amplo, o que indica não só continuidade espacial, mas também uma tentativa de se ligar simbolicamente a uma tradição real já consolidada.

Segundo Wegner, a arquitetura da tumba mostra conexões com sepultamentos reais do Império Médio e também com construções do período intermediário posterior.

Isso dá ao monumento um valor duplo: ele pertence ao caos político de sua época, mas preserva traços formais que dialogam com tradições reais anteriores.

Não é uma obra improvisada de um reino menor sem repertório; é uma construção que busca legitimidade numa linguagem arquitetônica conhecida da realeza egípcia.

O arqueólogo afirmou ainda que o túmulo parece ser o maior e mais antigo do grupo ligado à Dinastia de Abidos.

Essa observação é decisiva porque sugere que o ocupante pode ter sido um governante de grande peso dentro dessa linhagem regional, talvez até anterior a nomes já mais bem documentados. Se isso se confirmar, o achado pode alterar a ordem em que esses reis são posicionados pelos estudiosos.

Essa possibilidade ganha força quando se lembra que a equipe de Wegner já havia descoberto em 2014 a tumba de Seneb-Kay, outro governante da Dinastia de Abidos. Agora, o novo rei parece ser provavelmente um predecessor desse faraó.

Em vez de uma descoberta isolada, o que se desenha é a ampliação de um mapa funerário real que ainda está longe de completo.

2025 já soma outra descoberta real e reacende o Egito dos reis

O novo achado foi a segunda descoberta anunciada em 2025 de uma tumba de rei egípcio antigo. Em 18 de fevereiro, o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito informou que uma equipe arqueológica egípcia-britânica identificou perto de Luxor uma antiga tumba do século XV a.C. como sendo a do faraó Tutmés II, do Novo Império.

A comparação entre os dois anúncios ajuda a medir a diferença entre períodos muito distintos da história egípcia. Tutmés II pertence a uma fase de maior centralização e projeção política, quando os faraós do Novo Império estavam entre as figuras mais poderosas da região.

Já o novo faraó de Abydos emerge de uma fase fragmentada, menos compreendida e muito mais difícil de reconstruir. Um nome já conhecido foi confirmado em Luxor; um nome perdido ressurge agora em Abydos.

Essa diferença faz a descoberta recente ganhar um interesse particular. Enquanto uma identificação confirmada reforça o que já se conhece, um túmulo sem nome amplia o campo de investigação.

Ele obriga os pesquisadores a olhar de novo para cronologias incertas, dinastias regionais e padrões arquitetônicos que talvez ainda escondam outros reis.

Wegner foi direto ao dizer que o trabalho em cemitérios reais é lento e meticuloso. Isso explica por que os resultados não aparecem rapidamente, mesmo quando o potencial histórico da área é enorme.

As escavações continuam em andamento, e a própria equipe admite que pode haver outros túmulos na mesma região, perto do sepultamento de Neferhotep I.

O vazio da tumba não diminui a força do achado

É tentador imaginar que uma tumba vazia valha menos do que um sepultamento intacto, mas esse raciocínio simplifica demais a arqueologia. No caso de Abydos, a ausência do corpo e dos objetos não apaga a relevância do conjunto.

A profundidade da estrutura, sua escala, a decoração da entrada e o contexto dinástico fazem do local uma peça histórica de grande valor.

Além disso, o fato de os ladrões de túmulos terem apagado o nome do faraó torna a descoberta ainda mais expressiva em outro sentido.

O próprio saque antigo passa a integrar a narrativa do monumento. Ele mostra que aquela tumba já era alvo valioso em tempos remotos e que sua memória foi atacada muito antes da arqueologia moderna tentar recuperá-la.

O silêncio atual da câmara é, paradoxalmente, parte da informação que ela transmite.

Há também um contraste histórico inevitável. Quase um milênio antes desse período, as pirâmides de Gizé já haviam sido erguidas nos arredores do Cairo para receber faraós do Antigo Império.

Séculos depois, muitos governantes do Novo Império seriam enterrados no Vale dos Reis, perto de Luxor, incluindo Tutancâmon.

A tumba de Abydos pertence a um intervalo menos monumental para o imaginário popular, mas não menos importante para entender a evolução do poder real no Egito.

Quando um faraó desconhecido surge num momento de fragmentação política, a descoberta ajuda a lembrar que a história egípcia não foi feita apenas por nomes célebres e eras de unificação.

Ela também foi moldada por períodos de transição, competição regional e realeza incerta, exatamente como esse túmulo agora volta a sugerir.

A tumba encontrada perto de Abydos não devolveu ainda o nome do faraó, mas já devolveu densidade histórica a um dos períodos mais difíceis de reconstruir no antigo Egito.

A profundidade da câmara, a decoração ligada a Ísis e Néftis, a posição junto ao complexo de Neferhotep I e a possível ligação com a Dinastia de Abidos transformam o achado em muito mais do que uma curiosidade arqueológica de 2025.

No fim, talvez o dado mais forte seja justamente a ausência. Um rei sem nome, numa tumba saqueada, em um Egito dividido, força os pesquisadores a reabrirem perguntas sobre poder, sucessão e memória real.

Se você tivesse que apostar, o que pesa mais nesse caso: a chance de esse faraó ser um nome já conhecido como Senaiib ou Paentjeni, ou a possibilidade de Abydos ainda esconder uma linhagem inteira de reis quase apagados da história?

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Bruno Teles

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