Leilão bilionário reposiciona o Galeão no mercado de infraestrutura e recoloca o aeroporto no centro da aviação brasileira, com mudanças no contrato, nova operadora e impacto direto sobre a malha aérea do Rio de Janeiro.
A espanhola Aena venceu em 30 de março de 2026 o leilão de venda assistida do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o Galeão, com uma proposta de R$ 2,9 bilhões.
O valor ficou 210,88% acima da contribuição inicial mínima prevista no edital, fixada em R$ 932 milhões, e garantiu à empresa o direito de assumir a concessão do terminal até maio de 2039, dentro de um processo de repactuação elaborado para substituir a relicitação que vinha sendo discutida para o ativo.
Realizada na B3, em São Paulo, a disputa reuniu três concorrentes.
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Além da Aena, participaram do certame a Zurich Airport International e a atual concessionária do aeroporto, a RIOgaleão, formada pelo grupo brasileiro Vinci Compass e pela operadora Changi, de Singapura.
A sessão teve dezenas de lances em viva-voz, o que refletiu o interesse dos grupos pelo terminal.
O leilão foi estruturado pelo Ministério de Portos e Aeroportos e pela Agência Nacional de Aviação Civil, com aval do Tribunal de Contas da União, dentro de um modelo classificado como venda assistida.
Nesse formato, o contrato é readequado para permitir a transferência do controle da concessão a um novo operador, sem interrupção da administração do aeroporto.

Nova concessão do Galeão muda regras do contrato
Pelas regras aprovadas para o novo arranjo contratual, a futura concessionária terá de recolher à União uma contribuição variável de 20% sobre o faturamento bruto anual até o fim do contrato.
O modelo substitui a lógica anterior de pagamentos fixos e integra a repactuação negociada para tentar restabelecer o equilíbrio econômico da concessão.
Também está prevista a saída da Infraero da estrutura societária do aeroporto, encerrando a participação estatal de 49% no negócio.
A mudança faz parte do redesenho contratual aprovado para o Galeão.
Entre as alterações incluídas na nova modelagem estão a revisão de compromissos assumidos pela concessionária, a retirada da exigência de construção de uma terceira pista e a criação de mecanismos voltados ao reequilíbrio econômico-financeiro.
O contrato ainda prevê compensações em caso de restrições operacionais no Aeroporto Santos Dumont, tema apontado pelo governo como relevante para a previsibilidade da demanda no sistema aeroportuário do Rio de Janeiro.
Embora o resultado do leilão já tenha definido a vencedora, a transferência efetiva da operação ainda depende da formalização da compra das ações da concessionária, da obtenção das aprovações regulatórias e do cumprimento das demais condições previstas no processo.
A expectativa divulgada pela própria Aena é de que essa etapa seja concluída no segundo semestre de 2026.
Recuperação do Galeão e redistribuição dos voos no Rio
O Galeão chega a essa nova fase depois de anos de perda de movimento.
O terminal foi afetado pela redução do fluxo após os grandes eventos realizados no país, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, e depois sofreu os efeitos da pandemia sobre a demanda por voos nacionais e internacionais.
Esse histórico ajuda a explicar a crise da concessão original e a necessidade de rediscutir as bases do contrato.
Ao longo desse período, o aeroporto perdeu participação no mercado doméstico e viu sua movimentação cair em relação ao volume projetado no início da concessão.
Nos últimos anos, porém, o cenário começou a mudar.
A reorganização do sistema aeroportuário carioca, com limites ao volume de operações no Santos Dumont, contribuiu para devolver ao Galeão parte do tráfego perdido e alterou a distribuição dos voos entre os principais terminais da cidade.
Dados oficiais apresentados pelo governo indicam que Santos Dumont e Galeão movimentaram juntos 18,9 milhões de passageiros em 2023.
Em 2025, esse total chegou a 23,5 milhões, sinalizando recuperação da demanda e redistribuição do fluxo aéreo no Rio de Janeiro.
No caso específico do Galeão, a Aena informou que o aeroporto recebeu 17,8 milhões de passageiros em 2025, dos quais 5,7 milhões em voos internacionais.
Segundo a empresa, o terminal foi o terceiro mais movimentado do país em volume total de passageiros e uma das principais portas de entrada aérea do Brasil para o exterior.
Aena amplia operação no Brasil com o aeroporto do Rio
Com a vitória no leilão, a companhia espanhola amplia sua presença no país.
Antes da operação, a Aena já administrava 17 aeroportos no Brasil, entre eles Congonhas, Recife, Maceió, João Pessoa e Aracaju.
Com o Galeão, a empresa passa a somar 18 ativos no mercado brasileiro.
A operação também tem peso para a estratégia da companhia no país.
Levantamento divulgado pela Reuters informou que o negócio coloca a Aena na posição de maior operadora aeroportuária do Brasil em participação no fluxo de passageiros, com fatia próxima de 28% do mercado.
O mesmo levantamento apontou que o Galeão registrou Ebitda de quase R$ 500 milhões em 2024, com margem de 48%, e chegou ao processo sem dívida pendente.
Esses dados ajudam a dimensionar o interesse demonstrado pelos concorrentes no leilão.
Governo vê novo ciclo para a infraestrutura aeroportuária
No governo federal, o resultado foi apresentado como um indicativo de continuidade do interesse privado em projetos de infraestrutura.
O Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que o certame inaugura uma nova etapa da concessão do Galeão e reforça a confiança de investidores em modelos de repactuação para ativos considerados relevantes.
Na avaliação do ministério, o aeroporto pode recuperar espaço como hub internacional à medida que o mercado aéreo avance e a malha do Rio de Janeiro seja reorganizada.
Essa leitura foi apresentada pelo governo ao comentar o desfecho do leilão.
No centro da disputa está um ativo relevante para a logística e para o turismo.
Hoje, o Galeão é o principal aeroporto da capital fluminense, o segundo do país em tráfego internacional e um terminal com capacidade instalada superior ao movimento registrado nos anos mais críticos da concessão.
A nova concessão redefine as bases contratuais do aeroporto e transfere a operação para um grupo que já atua em outros terminais brasileiros.
A expectativa oficial é de que o novo arranjo permita continuidade operacional, previsibilidade regulatória e recuperação gradual da movimentação do Galeão nos próximos anos.


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