Mesmo após fraturas, Covid-19 e quase nove décadas de trabalho pesado, produtor mineiro segue ativo no campo, preserva saberes manuais do fumo de corda e inspira gerações em uma das regiões mais tradicionais do Brasil
Aos 89 anos, Seu Orestes não diminuiu o ritmo. Pelo contrário. Enquanto muitos já reduziram atividades, ele acorda às 3 horas da manhã, trabalha na roça, toca boiada a pé por quilômetros, cuida da criação, participa da produção de fumo de corda artesanal e mantém uma rotina que impressiona até os mais jovens. Morador da comunidade de Água Limpa, a cerca de 4 quilômetros do centro de Poço Fundo (MG), ele é considerado por muitos como o “rei do fumo de corda” da região.
A história de Seu Orestes é um retrato fiel da agricultura familiar mineira, marcada por resistência, tradição e trabalho manual. A informação foi divulgada pelo canal Jean na Roça, que acompanhou de perto um dia inteiro da rotina do produtor, registrando detalhes do trabalho, da família e do processo artesanal que sustenta gerações há décadas.
Uma vida inteira dedicada ao campo desde os 7 anos de idade

A ligação de Seu Orestes com o trabalho rural começou cedo. Aos 7 anos, ele já acompanhava o pai nas lavouras de fumo, aprendendo na prática o que mais tarde se tornaria o sustento da família. Desde então, nunca deixou o campo. Ao longo da vida, trabalhou com fumo, café, gado, porcos, galinhas e cultivo diversificado, sempre utilizando métodos tradicionais.
-
Havan vai “dar” uma BMW X1 para comemorar 40 anos: gigante do varejo coloca carro de luxo como prêmio, libera bilhetes a cada R$ 40 em compras e abre corrida nacional entre clientes
-
Escorpião pré-histórico com mais de um metro, pinças enormes e 415 milhões de anos é confirmado como um dos primeiros grandes predadores terrestres da Terra
-
Tesouro de Gessel coloca a Alemanha no centro de um mistério da Idade do Bronze com 117 artefatos de ouro, sinais solares e uma origem ainda desconhecida
-
Aranha fluorescente aparece em área quase intocada da África e revela dezenas de espécies que a ciência ainda não conhecia
Nascido na região da Cachoeirinha, ele passou toda a vida no município de Poço Fundo e nunca pensou em sair. Segundo ele, “a vida boa é aqui”. Mesmo após quebrar a perna em um acidente simples, tropeçando na única pedra existente no caminho da propriedade, e enfrentar duas infecções por Covid-19, Seu Orestes retornou ao trabalho assim que possível.
Hoje, ele afirma que a cabeça continua firme e a disposição também. O trabalho nunca parou, apenas se adaptou ao tempo e à experiência adquirida.
Fumo de corda artesanal: técnica, ciência e tradição passada de geração em geração
A produção de fumo de corda é o coração da rotina da família. O processo começa ainda na roça, com a colheita das folhas maduras, que passam por etapas rigorosas até chegarem ao ponto ideal. As folhas são penduradas em estaleiros, instaladas manualmente e deixadas para curar lentamente.
Após cerca de 10 dias, o fumo atinge o ponto certo para ser trabalhado. Em seguida, ocorre a retirada do talo, a torção manual na rodinha, a formação das cordas e, por fim, o armazenamento nos chamados paus de fumo, feitos com madeiras específicas como eucalipto, chapéu-de-peixe e pororoca, que garantem resistência e qualidade.
Cada rolo pode pesar entre 60 e 100 quilos, dependendo do estágio da folha. Antigamente, todo o processo era feito apenas na força do braço. Hoje, a família utiliza um motorzinho, mas a essência do trabalho permanece manual. Segundo Seu Orestes, “o fumo bom depende da terra”, e a região de Poço Fundo é considerada uma das melhores do Brasil para a produção de fumo azulão e fumão.
Família numerosa, trabalho coletivo e rotina que começa antes do amanhecer
A estrutura da produção é totalmente familiar. Seu Orestes tem 12 filhos, mais de 30 netos e inúmeros sobrinhos que participam direta ou indiretamente da lida. Durante os dias de instalação do fumo, a casa se enche. Mulheres, homens, jovens e crianças ajudam no processo, respeitando os limites de cada um.
A rotina começa cedo. Às 3h da manhã, ele e a esposa, Dona Lia, já estão de pé. Em muitos períodos da vida, trabalharam virando noites inteiras, especialmente na época da colheita. Hoje, mesmo com a idade avançada, Seu Orestes segue chegando à lavoura por volta das 5h da manhã.
A alimentação nos dias de trabalho coletivo também é organizada pela família. Durante a semana, cada um leva sua marmita. Aos domingos, Dona Lia prepara café da manhã, almoço e café da tarde para todos que ajudam na produção.
Criação de gado, boiada de carro e uma vida que se move no ritmo da roça
Além do fumo, Seu Orestes mantém boiada de carro, vacas, porcos, galinhas e até peixes. Alguns bois chegam a trabalhar por até 25 anos, quando bem tratados. Ele explica que, apesar do avanço dos tratores, ainda prefere o boi para arar a terra e puxar implementos.
Mesmo após décadas montando a cavalo, ele afirma que raramente caiu. O único acidente mais grave foi a fratura na perna, que não diminuiu sua vontade de trabalhar. Para ele, o segredo da longevidade está no movimento constante, na alimentação simples e na convivência com a família.
Hoje, Seu Orestes é visto como uma referência local. “Vale ouro”, dizem os vizinhos. Um homem simples, trabalhador e símbolo de uma cultura que resiste ao tempo.


-
-
2 pessoas reagiram a isso.