O arranha-céu One Seaport em Manhattan, torre de 60 andares, está inclinado 8 centímetros após a construtora Pizzarotti processar a incorporadora Fortis alegando que a fundação foi barateada com técnicas inadequadas para solo mole, e o prédio permanece vazio enquanto painéis de vidro são removidos por segurança.
O arranha-céu mais caro já abandonado na cidade de Nova York fica no endereço 161 Maiden Lane, na orla do East River, no sul de Manhattan, e custou US$ 400 milhões para ser erguido. O One Seaport deveria ser um marco residencial de luxo com unidades menores custando a partir de US$ 1 milhão e coberturas de até US$ 7 milhões, mas topógrafos e engenheiros confirmaram que a torre está inclinada, e a Fortis paralisou a construção sem que ninguém consiga garantir que o arranha-céu vai parar de se mover. Compradores que haviam feito depósitos de centenas de milhares de dólares retiraram seus recursos, e o edifício se transformou de símbolo de ambição imobiliária em exemplo do que acontece quando se economiza na fundação.
A inclinação foi medida em aproximadamente 8 centímetros para fora do eixo central, e o arranha-céu permanece inclinado sem que engenheiros possam garantir estabilização. Pode parecer pouco em termos absolutos, mas num arranha-céu de 60 andares cada milímetro de desvio gera tensão desigual sobre a estrutura, compromete o funcionamento dos poços de elevador e cria risco de que painéis da fachada de vidro se soltem. Operários já começaram a remover seções da cortina de vidro exterior para aliviar peso e evitar que os painéis caiam de forma descontrolada sobre a calçada, medida emergencial que não resolve o problema de fundo mas reduz o perigo imediato para quem circula pela região.
O que a construtora alega sobre a fundação do arranha-céu

A Pizzarotti, empreiteira italiana contratada pela incorporadora Fortis Property Group para erguer a torre, processou sua contratante com uma acusação específica. Segundo o processo judicial, a Fortis teria optado por técnicas de melhoramento do solo em vez de cravar estacas profundas até a rocha matriz, decisão motivada pela economia de tempo e dinheiro que resultou numa base incapaz de suportar o peso do arranha-céu de forma uniforme, deixando-o inclinado. O solo na orla do East River é composto por sedimentos, areia e aterro acumulado ao longo de séculos, material que se compacta de maneira irregular quando submetido a cargas de centenas de milhares de toneladas.
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A diferença entre as duas técnicas é decisiva. Estacas profundas atravessam todo o solo mole até atingir a rocha sólida que existe abaixo, criando uma fundação ancorada em material que não se move. O melhoramento do solo, por outro lado, tenta fortalecer o próprio terreno existente com injeção de argamassa e compressão, procedimento mais rápido e barato que pode funcionar para construções menores, mas que a Pizzarotti considera inadequado para um arranha-céu de 60 andares sobre solo instável. A Fortis contesta as alegações, e a disputa segue nos tribunais sem resolução.
Por que o arranha-céu continua inclinando e o que pode acontecer

O problema não é estático. A Pizzarotti alerta que o solo sob o arranha-céu ainda não terminou de se acomodar, o que significa que a inclinação pode aumentar com o tempo se nenhuma intervenção for realizada na fundação. À medida que o terreno continua cedendo de forma desigual, a estrutura acumula tensão em pontos que não foram projetados para suportá-la, criando uma cascata de riscos que os engenheiros classificam como crescentes.
Os problemas derivados da inclinação do arranha-céu são múltiplos. Painéis de vidro da fachada podem rachar ou se desprender por causa da deformação da estrutura, e num edifício de 60 andares qualquer fragmento que caia representa perigo letal para pedestres. Os poços de elevador, projetados para serem perfeitamente verticais, ficam desalinhados quando o prédio se inclina, comprometendo a segurança dos sistemas de transporte interno. Além disso, a exposição prolongada aos elementos sem manutenção acelera a deterioração: água penetra em frestas, metais corroem e materiais fadigam, tornando cada dia sem solução mais caro do que o anterior.
O precedente da Torre Millennium em São Francisco e a solução possível
O One Seaport não é o primeiro arranha-céu moderno a enfrentar problemas de inclinação. A Torre Millennium, em São Francisco, afundou cerca de 46 centímetros e inclinou vários centímetros para um lado após a construção, gerando escândalo e batalha judicial semelhante à que ocorre agora em Manhattan. A solução aplicada naquele caso foi o chamado underpinning: perfuração de novas estacas através da fundação existente até atingir a rocha matriz, criando uma base mais profunda e estável sob o edifício já construído.
A mesma abordagem foi sugerida para o arranha-céu de Manhattan, mas a execução é extraordinariamente complexa e cara. Perfurar sob uma estrutura de 60 andares que já está inclinado exige estabilização prévia, equipamentos especializados e um investimento que pode ultrapassar US$ 100 milhões, valor que se soma aos US$ 400 milhões já gastos na construção. E nada disso pode avançar enquanto os tribunais não definirem quem é responsável e quem vai pagar. O arranha-céu permanece num limbo simultâneo: jurídico, porque a disputa entre Pizzarotti e Fortis está em andamento, e estrutural, porque cada mês sem intervenção agrava a situação.
O custo humano por trás do arranha-céu abandonado
Por trás das disputas legais e dos relatórios de engenharia existem pessoas reais afetadas. Compradores que depositaram milhões de dólares em apartamentos que deveriam ser suas casas perderam tempo, dinheiro e, em alguns casos, o imóvel para o qual planejavam se mudar. Jovens profissionais que economizaram por anos para comprar o primeiro apartamento de luxo, casais que queriam uma residência à beira-mar e investidores que confiaram no projeto tiveram de recomeçar suas buscas do zero.
O bairro também paga o preço. A orla leste do sul de Manhattan passava por uma transformação que o arranha-céu deveria consolidar, e em vez de um marco residencial a região ganhou um arranha-céu inclinado e vazio que ninguém sabe como consertar. Empreiteiros, subcontratados e centenas de trabalhadores ligados ao projeto sofrem as consequências econômicas de uma obra paralisada que não gera receita. O caso do One Seaport demonstra que, na construção civil, economizar na fundação pode parecer inteligente no orçamento, mas quando a física cobra a conta, o preço é sempre maior do que tudo o que se tentou poupar.
E você, acha que o arranha-céu pode ser salvo ou deveria ser demolido? Quem deveria pagar a conta: a incorporadora ou a construtora? Deixe sua opinião nos comentários.


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