País africano com grandes reservas minerais enfrenta limites agrícolas severos e passa a testar biomassa marinha como insumo para recuperar solos degradados, reduzir dependência externa e criar alternativas produtivas em um território marcado por escassez hídrica e condições climáticas extremas.
A Namíbia reúne alguns dos maiores ativos minerais do continente africano, com produção relevante de urânio e diamantes, inclusive em operações offshore.
Ainda assim, o país enfrenta dificuldades estruturais para garantir segurança alimentar e estabilidade produtiva.
A principal razão está fora do subsolo: a escassez de água e a limitação de terras agricultáveis impõem obstáculos persistentes à expansão do setor agrícola.
-
Zawoja, a vila mais longa da Polônia, se estende por 18 km entre montanhas, pode levar um dia inteiro para ser atravessada a pé e reúne casas, estradas e faixas de terra em um dos formatos rurais mais curiosos da Europa
-
Ídolo da Seleção Brasileira mira alto luxo na Flórida e compra 2 apartamentos de uma vez por R$ 25 milhões em arranha-céu de 45 andares, com beach club privativo, bar de vinhos, sala de karaokê e simulador de realidade virtual
-
Por que a porta do micro-ondas tem uma tela cheia de furinhos e como esse detalhe permite enxergar a comida sem deixar a energia escapar?
-
Cerca de 700 moradores vivem dentro da cratera de um vulcão ainda ativo em Cabo Verde, casas e vinhas se espalham sobre a lava já solidificada e, a cada erupção que enterra a aldeia, a população volta e reconstrói tudo no mesmo lugar, num dos assentamentos mais extremos do planeta
Nesse cenário, projetos recentes passaram a testar o uso de biomassa marinha como insumo para recuperação de solos degradados, levando algas cultivadas no oceano para áreas áridas do interior.
Embora a mineração sustente parte importante da economia nacional, especialistas em desenvolvimento regional destacam que a dependência de recursos minerais não resolve problemas ligados à produção de alimentos.
A maior parte do território namibiano apresenta restrições severas para o cultivo, com rios intermitentes e chuvas irregulares.
Dados citados em estudos e relatórios técnicos indicam que apenas cerca de 1% a 2% do país possui características adequadas para a agricultura em bases convencionais.
Limitações agrícolas em um país rico em minerais
O contraste entre abundância mineral e fragilidade agrícola se acentua quando se observa a dinâmica territorial.

Mesmo fora das áreas desérticas formais, grandes extensões apresentam solos pobres, sujeitos à erosão e à perda contínua de nutrientes.
Em regiões de transição, o avanço das dunas e a ação dos ventos reduzem a estabilidade do terreno, dificultando o manejo agrícola de longo prazo.
Além disso, análises demográficas mostram que a população da Namíbia segue em crescimento, o que amplia a pressão sobre um sistema produtivo já limitado.
Segundo organismos internacionais que acompanham o país, a expansão da agricultura enfrenta um teto físico, já que novas áreas férteis são escassas e a irrigação depende de fontes hídricas restritas.
Nesse contexto, a busca por alternativas técnicas passou a ser tratada por pesquisadores e formuladores de políticas públicas como uma necessidade estratégica.
Deserto do Namibe e condições climáticas extremas
Ao longo da costa atlântica, o deserto do Namibe é apontado por estudos climatológicos como um dos ambientes mais áridos do planeta.
Em algumas áreas, a precipitação anual registrada fica abaixo de 10 milímetros, valor inferior ao observado em outros desertos conhecidos.
Nessas condições, a vida depende menos da chuva e mais da umidade trazida pela neblina costeira, fenômeno associado à corrente fria de Benguela.
A combinação entre baixa umidade do solo, forte insolação e grande amplitude térmica dificulta a manutenção de matéria orgânica.
Mesmo quando há aporte de água, a infiltração rápida e a evaporação reduzem a eficiência do cultivo.
Técnicos agrícolas que atuam no país apontam que, sem intervenção estrutural no solo, fertilizantes convencionais tendem a apresentar resultados limitados.
Corrente de Benguela e produtividade marinha
Em contraste com a aridez continental, o oceano adjacente apresenta alta produtividade biológica.
A corrente fria de Benguela promove ressurgência de nutrientes, criando condições favoráveis para o crescimento de algas ao longo da costa sul da África.
Pesquisadores marinhos descrevem essa região como uma das mais ricas em biomassa do Atlântico Sul.
A partir dessa característica, projetos-piloto passaram a cultivar algas em estruturas submersas, com foco no aproveitamento da biomassa para diferentes finalidades.
Entre as espécies utilizadas, a Macrocystis pyrifera, conhecida como kelp gigante, é citada em literatura científica por seu rápido crescimento em ambientes ricos em nutrientes.
A proposta defendida por empresas e centros de pesquisa envolvidos é transformar parte dessa biomassa em insumos agrícolas capazes de melhorar a estrutura física do solo, aumentar a retenção de água e estimular a atividade biológica subterrânea.
Fazendas de algas e processamento industrial
Na costa próxima à cidade de Lüderitz, a empresa Kelp Blue informou ter implantado uma fazenda experimental de algas com mais de 30 hectares em operação.

De acordo com descrições divulgadas pela própria companhia, o sistema utiliza linhas submersas fixadas ao fundo marinho, permitindo a colheita parcial da biomassa sem a remoção completa das plantas.
Após a retirada, o material segue para processamento em terra, onde passa por etapas de limpeza e transformação.
O objetivo declarado é produzir compostos orgânicos e bioestimulantes voltados ao uso agrícola.
Técnicos envolvidos no projeto afirmam que esses produtos podem contribuir para melhorar a retenção de umidade e reativar processos microbianos em solos degradados.
Especialistas independentes, no entanto, ressaltam que os resultados ainda dependem de monitoramento contínuo e de avaliações em escala maior para comprovar impactos consistentes no longo prazo.
Debate científico sobre carbono marinho
Além do uso agrícola, o cultivo de algas tem sido associado a discussões sobre captura de carbono no ambiente marinho.
Parte da literatura científica reconhece que florestas de kelp absorvem dióxido de carbono durante o crescimento.
Por outro lado, organizações ambientais e pesquisadores alertam que a maior parte desse carbono pode retornar ao sistema com a decomposição da biomassa, o que limita o potencial de armazenamento permanente.

Esse debate ganhou espaço principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde projetos de créditos de carbono marinho são analisados com cautela.
No caso da Namíbia, representantes do setor afirmam que o foco permanece nos efeitos diretos, como geração de empregos costeiros e fornecimento de insumos para a agricultura local.
Experiências com algas no leste africano
O uso de algas como alternativa econômica também aparece em outros países africanos.
No Quênia, reportagens internacionais relatam que comunidades costeiras ampliaram o cultivo após sucessivas perdas agrícolas associadas à seca.
Em 2022, a produção nacional foi estimada em cerca de 100 toneladas, com exportações destinadas a mercados como China, França e Estados Unidos.
Na Tanzânia, o setor apresenta maior escala.
Dados de organizações internacionais e do governo local indicam que dezenas de milhares de agricultores participam da cadeia produtiva, especialmente em regiões costeiras e em Zanzibar.
Analistas do setor apontam que a atividade ganhou relevância por demandar poucos insumos além de água do mar e mão de obra, tornando-se acessível em áreas com limitações agrícolas severas.
Algas como alternativa a plásticos de uso único
Na Namíbia, políticas públicas recentes voltadas à redução de plásticos de uso único ampliaram o interesse por materiais alternativos.
Informações oficiais indicam que canudos plásticos foram proibidos a partir de 1º de janeiro de 2024, enquanto garrafas plásticas descartáveis passaram a ser alvo de restrições a partir de 2025.
Nesse contexto, pesquisas acadêmicas e parcerias industriais investigam o uso de derivados de algas em revestimentos biodegradáveis para embalagens.
Estudos conduzidos por universidades e empresas de biomateriais descrevem compostos capazes de substituir camadas plásticas em papéis usados para alimentos, mantendo resistência à gordura e à umidade.
Pesquisadores envolvidos afirmam que o avanço dessas iniciativas depende de testes adicionais e de viabilidade econômica em escala industrial.
Com projetos em estágios distintos e resultados ainda em avaliação, o cultivo de algas passou a integrar o debate sobre como países com territórios áridos podem diversificar sua base produtiva sem ampliar a pressão sobre recursos hídricos escassos, e até que ponto essa biomassa marinha conseguirá se consolidar como ferramenta estável para enfrentar desafios agrícolas e ambientais em regiões desérticas?


Ao escrever artigos para a população, os jornalistas podiam pesquisar melhor as referências para ajudar a comunidade científica a propagar informações corretas. Assim, as algas, na taxonomia, não são do reino das plantas, e sim pertencentes aos Protoctistas (protozoarios e algas). Embora verdinhas, fazendo fotossíntese, possuem características que não as identificam como plantas conforme texto da reportagem. Uma boa notícia também ampliar conhecimentos de seus leitores.
O título induz a erro. Na África existem 55 países e a matéria faz referência unicamente a Namíbia. Imaginem um título “América Latina promove limpeza de rio”, e você descobre que a reportagem é sobre o Rio Tietê.