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África enterrou milhões de toneladas de algas no deserto — e o que aconteceu no país com 11% do urânio mundial espantou cientistas: solo infértil reagiu, microrganismos voltaram e a água parou de sumir

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 06/01/2026 às 14:28
Assista o vídeoNamíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.
Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.
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País africano com grandes reservas minerais enfrenta limites agrícolas severos e passa a testar biomassa marinha como insumo para recuperar solos degradados, reduzir dependência externa e criar alternativas produtivas em um território marcado por escassez hídrica e condições climáticas extremas.

A Namíbia reúne alguns dos maiores ativos minerais do continente africano, com produção relevante de urânio e diamantes, inclusive em operações offshore.

Ainda assim, o país enfrenta dificuldades estruturais para garantir segurança alimentar e estabilidade produtiva.

A principal razão está fora do subsolo: a escassez de água e a limitação de terras agricultáveis impõem obstáculos persistentes à expansão do setor agrícola.

Nesse cenário, projetos recentes passaram a testar o uso de biomassa marinha como insumo para recuperação de solos degradados, levando algas cultivadas no oceano para áreas áridas do interior.

Embora a mineração sustente parte importante da economia nacional, especialistas em desenvolvimento regional destacam que a dependência de recursos minerais não resolve problemas ligados à produção de alimentos.

A maior parte do território namibiano apresenta restrições severas para o cultivo, com rios intermitentes e chuvas irregulares.

Dados citados em estudos e relatórios técnicos indicam que apenas cerca de 1% a 2% do país possui características adequadas para a agricultura em bases convencionais.

Limitações agrícolas em um país rico em minerais

O contraste entre abundância mineral e fragilidade agrícola se acentua quando se observa a dinâmica territorial.

Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.
Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.

Mesmo fora das áreas desérticas formais, grandes extensões apresentam solos pobres, sujeitos à erosão e à perda contínua de nutrientes.

Em regiões de transição, o avanço das dunas e a ação dos ventos reduzem a estabilidade do terreno, dificultando o manejo agrícola de longo prazo.

Além disso, análises demográficas mostram que a população da Namíbia segue em crescimento, o que amplia a pressão sobre um sistema produtivo já limitado.

Segundo organismos internacionais que acompanham o país, a expansão da agricultura enfrenta um teto físico, já que novas áreas férteis são escassas e a irrigação depende de fontes hídricas restritas.

Nesse contexto, a busca por alternativas técnicas passou a ser tratada por pesquisadores e formuladores de políticas públicas como uma necessidade estratégica.

Deserto do Namibe e condições climáticas extremas

Ao longo da costa atlântica, o deserto do Namibe é apontado por estudos climatológicos como um dos ambientes mais áridos do planeta.

Em algumas áreas, a precipitação anual registrada fica abaixo de 10 milímetros, valor inferior ao observado em outros desertos conhecidos.

Nessas condições, a vida depende menos da chuva e mais da umidade trazida pela neblina costeira, fenômeno associado à corrente fria de Benguela.

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A combinação entre baixa umidade do solo, forte insolação e grande amplitude térmica dificulta a manutenção de matéria orgânica.

Mesmo quando há aporte de água, a infiltração rápida e a evaporação reduzem a eficiência do cultivo.

Técnicos agrícolas que atuam no país apontam que, sem intervenção estrutural no solo, fertilizantes convencionais tendem a apresentar resultados limitados.

Corrente de Benguela e produtividade marinha

Em contraste com a aridez continental, o oceano adjacente apresenta alta produtividade biológica.

A corrente fria de Benguela promove ressurgência de nutrientes, criando condições favoráveis para o crescimento de algas ao longo da costa sul da África.

Pesquisadores marinhos descrevem essa região como uma das mais ricas em biomassa do Atlântico Sul.

A partir dessa característica, projetos-piloto passaram a cultivar algas em estruturas submersas, com foco no aproveitamento da biomassa para diferentes finalidades.

Entre as espécies utilizadas, a Macrocystis pyrifera, conhecida como kelp gigante, é citada em literatura científica por seu rápido crescimento em ambientes ricos em nutrientes.

A proposta defendida por empresas e centros de pesquisa envolvidos é transformar parte dessa biomassa em insumos agrícolas capazes de melhorar a estrutura física do solo, aumentar a retenção de água e estimular a atividade biológica subterrânea.

Fazendas de algas e processamento industrial

Na costa próxima à cidade de Lüderitz, a empresa Kelp Blue informou ter implantado uma fazenda experimental de algas com mais de 30 hectares em operação.

Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.
Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.

De acordo com descrições divulgadas pela própria companhia, o sistema utiliza linhas submersas fixadas ao fundo marinho, permitindo a colheita parcial da biomassa sem a remoção completa das plantas.

Após a retirada, o material segue para processamento em terra, onde passa por etapas de limpeza e transformação.

O objetivo declarado é produzir compostos orgânicos e bioestimulantes voltados ao uso agrícola.

Técnicos envolvidos no projeto afirmam que esses produtos podem contribuir para melhorar a retenção de umidade e reativar processos microbianos em solos degradados.

Especialistas independentes, no entanto, ressaltam que os resultados ainda dependem de monitoramento contínuo e de avaliações em escala maior para comprovar impactos consistentes no longo prazo.

Debate científico sobre carbono marinho

Além do uso agrícola, o cultivo de algas tem sido associado a discussões sobre captura de carbono no ambiente marinho.

Parte da literatura científica reconhece que florestas de kelp absorvem dióxido de carbono durante o crescimento.

Por outro lado, organizações ambientais e pesquisadores alertam que a maior parte desse carbono pode retornar ao sistema com a decomposição da biomassa, o que limita o potencial de armazenamento permanente.

Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.
Namíbia testa uso de algas marinhas para recuperar solos do deserto, ampliar produção agrícola e reduzir dependência de insumos importados.

Esse debate ganhou espaço principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde projetos de créditos de carbono marinho são analisados com cautela.

No caso da Namíbia, representantes do setor afirmam que o foco permanece nos efeitos diretos, como geração de empregos costeiros e fornecimento de insumos para a agricultura local.

Experiências com algas no leste africano

O uso de algas como alternativa econômica também aparece em outros países africanos.

No Quênia, reportagens internacionais relatam que comunidades costeiras ampliaram o cultivo após sucessivas perdas agrícolas associadas à seca.

Em 2022, a produção nacional foi estimada em cerca de 100 toneladas, com exportações destinadas a mercados como China, França e Estados Unidos.

Na Tanzânia, o setor apresenta maior escala.

Dados de organizações internacionais e do governo local indicam que dezenas de milhares de agricultores participam da cadeia produtiva, especialmente em regiões costeiras e em Zanzibar.

Analistas do setor apontam que a atividade ganhou relevância por demandar poucos insumos além de água do mar e mão de obra, tornando-se acessível em áreas com limitações agrícolas severas.

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Algas como alternativa a plásticos de uso único

Na Namíbia, políticas públicas recentes voltadas à redução de plásticos de uso único ampliaram o interesse por materiais alternativos.

Informações oficiais indicam que canudos plásticos foram proibidos a partir de 1º de janeiro de 2024, enquanto garrafas plásticas descartáveis passaram a ser alvo de restrições a partir de 2025.

Nesse contexto, pesquisas acadêmicas e parcerias industriais investigam o uso de derivados de algas em revestimentos biodegradáveis para embalagens.

Estudos conduzidos por universidades e empresas de biomateriais descrevem compostos capazes de substituir camadas plásticas em papéis usados para alimentos, mantendo resistência à gordura e à umidade.

Pesquisadores envolvidos afirmam que o avanço dessas iniciativas depende de testes adicionais e de viabilidade econômica em escala industrial.

Com projetos em estágios distintos e resultados ainda em avaliação, o cultivo de algas passou a integrar o debate sobre como países com territórios áridos podem diversificar sua base produtiva sem ampliar a pressão sobre recursos hídricos escassos, e até que ponto essa biomassa marinha conseguirá se consolidar como ferramenta estável para enfrentar desafios agrícolas e ambientais em regiões desérticas?

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Marilise Aroni
Marilise Aroni
09/01/2026 07:16

Ao escrever artigos para a população, os jornalistas podiam pesquisar melhor as referências para ajudar a comunidade científica a propagar informações corretas. Assim, as algas, na taxonomia, não são do reino das plantas, e sim pertencentes aos Protoctistas (protozoarios e algas). Embora verdinhas, fazendo fotossíntese, possuem características que não as identificam como plantas conforme texto da reportagem. Uma boa notícia também ampliar conhecimentos de seus leitores.

Márcio Sampaio
Márcio Sampaio
07/01/2026 10:35

O título induz a erro. Na África existem 55 países e a matéria faz referência unicamente a Namíbia. Imaginem um título “América Latina promove limpeza de rio”, e você descobre que a reportagem é sobre o Rio Tietê.

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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