De uma viagem de barco ao topo do capitalismo global: a trajetória improvável de Rafaela Aponte-Diamant
Durante décadas, o transporte marítimo operou longe dos holofotes. No entanto, por trás de quase tudo o que o mundo consome — alimentos, eletrônicos, roupas, combustíveis — existe uma engrenagem silenciosa movida por navios gigantescos, rotas oceânicas e decisões estratégicas bilionárias. É nesse cenário que surge Rafaela Aponte-Diamant, hoje considerada a mulher self-made mais rica do mundo, segundo a Forbes.
Aos 80 anos, Rafaela lidera pelo terceiro ano consecutivo o ranking de mulheres que construíram suas próprias fortunas. Seu patrimônio é estimado em US$ 37,7 bilhões (cerca de R$ 215 bilhões), valor diretamente ligado à sua participação de 50% na MSC (Mediterranean Shipping Company), a maior empresa de transporte marítimo do planeta.
A informação foi divulgada pela Forbes, conforme o ranking global de bilionários de 2025, que posiciona Rafaela como a 44ª pessoa mais rica do mundo e a 5ª mulher mais rica do planeta — um feito ainda mais expressivo em um setor historicamente dominado por homens.
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Atualmente, apenas 113 mulheres bilionárias construíram suas fortunas sem herança direta. Em contrapartida, 293 mulheres da lista herdaram ao menos parte de seus patrimônios. Ao todo, das 3.028 pessoas bilionárias do mundo, apenas 406 são mulheres, o que representa 13,4% do total — um crescimento tímido em relação ao ano anterior.
O império da MSC: 900 navios, milhões de contêineres e bilhões em receita
A ascensão financeira de Rafaela Aponte-Diamant acompanha o crescimento acelerado da MSC, empresa fundada em 1970, em Genebra, na Suíça, ao lado do marido, Gianluigi Aponte. O negócio começou de forma modesta, mas hoje controla uma frota colossal de 900 navios, capazes de transportar mais de 4,8 milhões de contêineres, segundo dados do banco internacional Alphaliner.
Embora a MSC não divulgue oficialmente seus números financeiros, o analista marítimo John McCown estima que a empresa tenha faturado mais de US$ 28 bilhões apenas em 2022, impulsionada por um boom global no transporte marítimo durante e após a pandemia.
Além do transporte de contêineres, o grupo MSC expandiu agressivamente sua atuação. Atualmente, também controla:
- a MSC Cruises, uma das maiores operadoras de cruzeiros do mundo;
- a Medlog, braço de logística terrestre;
- a Terminal Investment Limited, operadora global de terminais portuários;
- além de operações com balsas de passageiros no Mediterrâneo.
Desde 2019, famílias do setor marítimo passaram a acumular fortunas recordes, em razão da explosão dos custos logísticos globais. Ainda assim, poucas trajetórias chamam tanta atenção quanto a de Rafaela, que transformou um setor invisível em um império financeiro global.
Do empréstimo de US$ 200 mil ao controle absoluto de um gigante global
A história de Rafaela Aponte-Diamant não começa em conselhos administrativos nem em grandes corporações. Ela conheceu Gianluigi Aponte nos anos 1960, durante uma viagem de barco à ilha italiana de Capri. Na época, Gianluigi trabalhava como capitão, transportando turistas entre Nápoles e resorts da costa italiana.
Rafaela, por sua vez, era filha de um banqueiro israelense radicado na Suíça, mas isso não garantiu uma trajetória automática rumo à riqueza. Pouco tempo depois, Gianluigi mudou-se para Genebra, onde passou a trabalhar como corretor em um banco suíço. Ainda assim, em 1970, decidiu abandonar a estabilidade financeira e assumir um risco elevado.
Com um empréstimo de US$ 200 mil (cerca de R$ 1,1 milhão), o casal comprou seu primeiro navio cargueiro, batizado de Patricia. No mesmo ano, fundaram oficialmente a MSC. Em vez de competir diretamente com gigantes consolidados, optaram por uma estratégia pouco explorada: adquirir navios de segunda mão e operar em rotas menos concorridas, como as ligações entre Europa e África.
A estratégia funcionou. O segundo navio recebeu o nome de Rafaela e, em 1979, a frota já somava 17 embarcações. Em 1988, o casal entrou no setor de cruzeiros com a compra do navio Monterey — decisão que se mostraria visionária. No mesmo período, criaram a Medlog e, anos depois, a Terminal Investment Limited.
Mais de 50 anos após a fundação da MSC, a empresa permanece sob controle absoluto da família. Rafaela e Gianluigi são os únicos acionistas. Gianluigi ocupa o cargo de presidente executivo, enquanto o filho do casal, Diego Aponte, atua como presidente do grupo. Rafaela, além de integrar o conselho da MSC Foundation, também se dedica pessoalmente à decoração dos navios de cruzeiro, imprimindo sua identidade ao negócio.
Você acredita que histórias como a de Rafaela Aponte-Diamant mostram que ainda é possível construir impérios globais começando do zero, ou esse tipo de trajetória se tornou exceção no mundo atual?
