Movimento crescente de brasileiros rumo ao Paraguai combina busca por menor carga tributária, custo de vida reduzido e afinidade política, impulsionado por redes sociais e programas migratórios que facilitaram recorde histórico de pedidos de residência no país vizinho.
Em Ciudad del Este, a movimentação recente revelou filas que atravessaram a noite e avançaram pela manhã, reunindo brasileiros interessados em formalizar a residência no Paraguai, fenômeno que ganhou força ao longo de 2025 e manteve ritmo elevado nos primeiros meses de 2026.
Nesse fluxo, aparecem empresários, aposentados, famílias com filhos e trabalhadores que apontam como motivação central a tributação mais baixa, o custo de vida reduzido e a sensação de maior alinhamento com o ambiente político do país vizinho.
Ao longo da fronteira, o cenário mistura improviso com expectativa, criando uma rotina marcada por longas esperas e adaptação às condições do local.
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Cadeiras de praia, bancos plásticos, barracas, cangas e pequenos acampamentos passaram a compor o cotidiano de quem aguarda atendimento do MigraMóvil, iniciativa itinerante da Direção Nacional de Migrações criada para descentralizar serviços e agilizar a emissão de documentos.
Para 2026, o planejamento oficial prevê 22 operativos distribuídos ao longo do ano, reforçando a estratégia de ampliar o alcance do programa.
Os dados oficiais ajudam a dimensionar esse movimento e evidenciam a intensidade da procura registrada recentemente.
Segundo a Direção Nacional de Migrações, o Paraguai contabilizou 47.687 solicitações de residência em 2025, maior número já registrado, com brasileiros liderando o fluxo ao somarem 23.526 pedidos, equivalentes a 58% do total entre estrangeiros.
Motivos que levam brasileiros a buscar o Paraguai
Entre os relatos coletados na fronteira, o fator econômico aparece como principal ponto de convergência entre perfis distintos de migrantes.
Empresários destacam menor burocracia, regras trabalhistas mais flexíveis e um ambiente tributário percebido como mais previsível para investimentos.
Por outro lado, aposentados mencionam a necessidade de preservar renda e reduzir despesas fixas, enquanto famílias associam a mudança a valores culturais e educacionais.
Nesse contexto, a cabeleireira Delly Fragola, de Anápolis, afirmou que o Brasil “não tem mais oportunidades” para o seu negócio.
Já o empresário Dilberto Wegrnen, de Cascavel, avaliou que o Paraguai oferece condições mais favoráveis para empreender, atribuindo o interesse crescente à combinação entre impostos menores e custos operacionais reduzidos.
Depois de acompanhar conteúdos na internet, o arquiteto aposentado Marcelo Mendes decidiu rever planos de mudança para a Europa e passou a considerar o país vizinho como alternativa viável.
“A gente não está aguentando o Brasil”, disse, ao explicar a decisão de buscar melhores condições financeiras.
Vinda do Rio de Janeiro, a professora aposentada Zena Cheraze relatou que também buscava reduzir gastos com saúde e encontrar maior estabilidade no novo destino.
Redes sociais impulsionam mudança para o Paraguai
Com a expansão desse movimento, as redes sociais passaram a desempenhar papel relevante na disseminação de informações e no incentivo à migração.
Influenciadores brasileiros que vivem no Paraguai ou frequentam a região de fronteira divulgam conteúdos destacando vantagens econômicas, como impostos mais baixos, aluguel acessível e energia mais barata.
Além da exposição dessas condições, muitos oferecem serviços de assessoria para facilitar processos de residência, abertura de empresas e aquisição de imóveis.
Diante desse volume de informações, parte dos interessados chega ao país sem pleno domínio das exigências burocráticas envolvidas.
Em consequência, surgem dúvidas sobre documentação, prazos e etapas, frequentemente esclarecidas durante a própria espera nas filas dos mutirões.
Nesse ambiente, a convivência prolongada transforma a fila em espaço de troca de experiências e compartilhamento de orientações práticas entre desconhecidos.
A empresária Roberta Viegas, que se mudou do Rio de Janeiro com a família, passou a orientar novos interessados e, ao mesmo tempo, relativiza o discurso de facilidade.
“Tem muita gente vendendo que o Paraguai é ‘mil maravilhas’, por interesse próprio”, afirmou, ao destacar a necessidade de avaliação individual antes da mudança.
Impostos baixos e energia barata atraem brasileiros
No centro desse interesse está o modelo tributário paraguaio, frequentemente citado como diferencial competitivo em relação ao Brasil.
Consolidado ao longo das últimas décadas, o sistema conhecido como 10-10-10 estabelece alíquotas de 10% para IVA, imposto de renda da pessoa física e imposto de renda das empresas.
Em termos comparativos, a carga tributária do Paraguai gira em torno de 14,5% do PIB, enquanto no Brasil esse índice alcança 32,0% do PIB, ampliando a diferença percebida por investidores.
Outro fator recorrente nos relatos é o custo da energia elétrica, considerado significativamente inferior ao brasileiro.
Estimativas apontam que, em média, a eletricidade no Brasil pode custar 2,8 vezes mais do que no Paraguai, resultado da estrutura energética e da disponibilidade de geração no país vizinho.
Sob a ótica governamental, esse conjunto de características é utilizado como argumento para atrair investimentos e reforçar a imagem de estabilidade econômica.
Limitações do modelo econômico e social paraguaio
Apesar do interesse crescente, o modelo paraguaio apresenta limitações que influenciam a experiência de quem decide migrar.
Entre os principais pontos estão direitos trabalhistas mais restritos, menor cobertura de proteção social e desafios estruturais no sistema público de saúde.
Assim, enquanto investidores e aposentados podem se beneficiar das condições locais, trabalhadores dependentes de serviços públicos enfrentam um cenário mais desafiador.
Esse contraste contribui para explicar por que parte das expectativas criadas nas redes sociais não se confirma integralmente na prática.
Embora os pedidos de residência tenham aumentado de forma expressiva, os dados indicam que a permanência definitiva ocorre em ritmo menor.
Grande parte das autorizações concedidas corresponde a residências temporárias, o que sugere um movimento de experimentação antes de decisões de longo prazo.
Ideologia, educação e adaptação no novo país
Além das questões econômicas, fatores ideológicos também aparecem com frequência nos relatos de brasileiros que buscam o Paraguai.
Muitos associam o país a um ambiente mais conservador, com menor intervenção estatal e maior autonomia para decisões familiares.
Nesse contexto, o debate sobre ensino domiciliar surge como elemento relevante para famílias com filhos em idade escolar.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu que o homeschooling depende de regulamentação específica para ser aplicado.
Já no Paraguai, a percepção de menor interferência estatal contribui para o interesse de parte dos migrantes.
Dados recentes indicam que cerca de 263 mil brasileiros vivem no Paraguai, formando uma das maiores comunidades no exterior.
Ainda assim, a experiência prática varia conforme o perfil de cada migrante, envolvendo fatores econômicos, culturais e pessoais.
O vendedor Leonardo Ribeiro, que se mudou de Marília para Ciudad del Este, relatou ter encontrado menos diferenças do que esperava e manifestou intenção de retornar ao Brasil.
Esse tipo de trajetória evidencia que a decisão de migrar envolve múltiplas variáveis e nem sempre resulta em permanência definitiva.
