Moradores do entorno do Açude Jangurussu, em Fortaleza, denunciam desde o início de março que a construção de um condomínio bloqueou o escoamento natural da água, elevou a pressão sobre a barragem antiga e ampliou o temor de transbordo e danos às comunidades mais baixas
Moradores do entorno Açude Jangurussu denunciam, desde março, que a construção de um condomínio estaria bloqueando o escoamento natural da água, elevando a pressão sobre a parede do reservatório e o temor de rompimento.
Vistoria no local
Técnicos do Ibama-CE, da Defesa Civil de Fortaleza e da Secretaria Executiva Regional 9 estiveram no açude em 13 de março para vistoriar a situação. A comunidade aguarda laudo.
Segundo a análise inicial de técnicos do Ibama e da SER 9, obras de um condomínio bloquearam o escoamento natural da água. Com a água empoçada, houve erosão da parede do açude.
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A Seuma informou que elabora relatório técnico e que as demandas identificadas serão encaminhadas aos órgãos responsáveis.
A construtora afirmou que a obra possui licenças e projetos aprovados pelos órgãos municipais e que estão previstas medidas de drenagem para reduzir impactos.
Estrutura de 1922
Embora muitos chamem o local de lagoa, a estrutura é um açude antigo. Registros históricos e o livro “Jangurussu”, de Raimundo Moacir da Costa, apontam que as obras foram concluídas em 1922.
A barragem foi construída nas terras do Sítio Jangurussu, pertencente a João Francisco Ribeiro Neto, numa área rural próxima a Messejana. Em 2026, o Açude Jangurussu deverá completar 104 anos.
Na época, a obra foi executada pela Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, a Ifocs, órgão que hoje corresponde ao Dnocs.
O período coincide com a fase de 1919 a 1945, quando o órgão intensificava a construção de pequenos e médios açudes estratégicos no Ceará para combater os efeitos das secas.
Segundo Edinaldo Felipe, morador do bairro, em 1922 aquela água abastecia a região durante os períodos de seca, quando Fortaleza praticamente ainda se concentrava na praia.
Mudança de função
Reportagens publicadas nos anos 1980 lembram que o açude continuava servindo como espaço de pesca, lavagem de roupas e lazer da comunidade.
Nos anos recentes, porém, a poluição severa passou a impedir o consumo da água. Conforme o último laudo laboratorial de qualidade da Seuma, em outubro de 2024, a amostra analisada não atendia aos padrões legais.
Segundo Edinaldo, hoje o açude funciona apenas como espaço de lazer e confraternização, mesmo com toda a problmeática da poluição gerada por ligações clandestinas de residências e comércios da área.
O Açude Jangurussu não faz parte da rede de abastecimento humano da Capital. Conforme a Cogerh, a água de Fortaleza provém dos açudes Pacoti, Pacajus, Riachão e Gavião.
Comunidades afetadas pela situação do açude
Edinaldo afirma que o sangradouro do açude escorre para a Lagoa do São Cristóvão e deságua no Rio Cocó. Ele observa que outros recursos hídricos vêm sendo soterrados por empreendimentos imobiliários.
A diarista Ivonete Félix, moradora do bairro há 30 anos, relata que os impactos já atingem a Travessa Paraisópolis e vilas do entorno, onde o transbordo ameaça invadir casas, principalmente nas áreas mais baixas do Jangurussu.
Diagnóstico do reservatório
Segundo o Plano Mestre Urbanístico e de Mobilidade do Fortaleza 2040, o açude integra a bacia do Rio Cocó, tem profundidade média de 1,87 metro e volume de 241.900 m³, equivalentes a 241 milhões de litros.
O documento aponta impactos da urbanização. A partir de 1960, a região começou a ser mais ocupada com a chegada de migrantes do interior do Estado.
Em 1978, houve a instalação do Aterro Sanitário do Jangurussu, depois conhecido como Rampa. Por 20 anos, ele funcionou como depósito para todo o lixo da Capital e gerou estigma na localidade.
O plano detalha despejo de esgoto clandestino, presença de chorume da área de transbordo, aterramento do leito para ocupação e quase inexistênica de matas ciliares.
Com informações de Diário do Nordeste.

