A retenção de água por megabarragens turcas no alto curso do Tigre transformou um dos berços da civilização humana em um território marcado por salinização, colapso ecológico, crise sanitária e insegurança alimentar crescente no Iraque
Diante de você está o rio Tigre, um dos cursos d’água mais importantes da história da humanidade, com cerca de 1.900 quilômetros de extensão. Ele nasce na cordilheira do Tauro, no sudeste da Turquia, atravessa aproximadamente 402 quilômetros da Síria e segue por cerca de 1.416 quilômetros dentro do Iraque, onde se torna a principal fonte de água doce do país. Ainda que hoje muitas vezes ofuscado por guerras e crises políticas, o Tigre continua sendo vital para a sobrevivência de milhões de pessoas.
Arqueólogos e cientistas comprovaram que foi nessa região, há cerca de 8 mil anos, que os primeiros grupos humanos passaram a praticar agricultura organizada, domesticar animais e fundar cidades como Eridu e Uruk. Foi ali que surgiram a escrita, a roda, os primeiros códigos de leis e sistemas agrícolas estruturados. Os alicerces da sociedade humana moderna nasceram às margens do Tigre e do Eufrates, rios que, por milênios, sustentaram populações inteiras em um ambiente naturalmente árido.
A informação foi divulgada por análises técnicas e reportagens especializadas sobre recursos hídricos no Oriente Médio, segundo as quais quase 99% da água potável, do uso doméstico e da irrigação no Iraque depende diretamente dos rios Tigre e Eufrates. Não existe, na prática, uma fonte alternativa viável em larga escala. Por isso, qualquer alteração significativa no fluxo desses rios tem impactos imediatos e profundos a jusante.
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O rio Tigre como eixo histórico e vital do Iraque

Apesar de seu papel central, o Tigre passou a ser cada vez mais controlado fora das fronteiras iraquianas. Na região de nascente, a Turquia intensificou a retenção de água por meio de grandes barragens, redirecionando volumes crescentes para geração de energia e irrigação agrícola. Essa mudança alterou um equilíbrio hidrológico que permaneceu relativamente estável por milhares de anos.
Para compreender essa decisão, é necessário observar as pressões internas enfrentadas pela Turquia. Em menos de 40 anos, a população do país cresceu de cerca de 45 milhões para mais de 85 milhões de habitantes, enquanto a urbanização acelerada elevou a demanda por energia, água e alimentos. Megacidades como Istambul e Ancara passaram a consumir volumes cada vez maiores de eletricidade, enquanto setores industriais como aço, cimento e têxtil exigem fornecimento energético constante e de baixo custo.
O problema estrutural é que a Turquia não é autossuficiente em energia fóssil. Entre 2021 e 2022, os gastos com importação de petróleo e gás natural ultrapassaram 90 bilhões de dólares, pressionando a lira turca e o equilíbrio macroeconômico. Nesse contexto, reduzir a dependência externa tornou-se uma prioridade estratégica do Estado.
Por que a Turquia passou a reter a água do Tigre em megabarragens
É nesse cenário que surge o Projeto do Sudeste da Anatólia (GAP), o maior empreendimento hídrico já implementado pela Turquia em uma única região. Administrado pela State Hydraulic Works, o projeto cobre mais de 75 mil quilômetros quadrados, o equivalente a quase 10% do território turco, e afeta diretamente entre 8 e 9 milhões de pessoas. O investimento total estimado gira em torno de 32 bilhões de dólares.
O núcleo do GAP é formado por 14 grandes barragens construídas nos rios Tigre e Eufrates, interligadas por milhares de quilômetros de canais de irrigação. O teste decisivo ocorreu com a barragem de Atatürk, no rio Eufrates, concluída em 1992. Com 169 metros de altura, 1.819 metros de comprimento e um reservatório capaz de armazenar cerca de 49,2 km³ de água, a usina possui capacidade instalada de 2.400 MW e produz, em média, 8.900 GWh de eletricidade por ano.
Graças a esse sistema, o sudeste da Anatólia deixou de depender das chuvas irregulares e passou a contar com irrigação estável ao longo de todo o ano. Essa mudança transformou completamente a estrutura agrícola local. Culturas tradicionais, resistentes à seca, deram lugar a lavouras de alto valor econômico, especialmente o algodão.
Estudos agrícolas indicam que são necessários entre 7.000 e 10.000 litros de água para produzir apenas 1 kg de algodão bruto. Antes do GAP, a produção regional não ultrapassava 150 mil toneladas por ano. Em menos de uma década, esse número quase triplicou, alcançando cerca de 400 mil toneladas em 2001. Atualmente, o sudeste da Anatólia responde por quase 60% de todo o algodão produzido na Turquia, grande parte destinada à exportação.
Como a barragem de Ilisu transformou a escassez em crise humanitária no Iraque
O ponto de inflexão ocorreu com a construção da barragem de Ilisu, localizada diretamente no rio Tigre. Diferente de Atatürk, Ilisu bloqueia a principal fonte de água do Iraque. A obra custou cerca de 1,7 bilhão de dólares e enfrentou oposição internacional intensa, com retirada de financiamentos europeus entre 2000 e 2009 após relatórios apontarem impactos ambientais, sociais e culturais severos.
Mesmo assim, a Turquia decidiu financiar o projeto com recursos próprios. A construção começou em 2006, sofreu um ataque armado em 2014, mas nunca foi interrompida. Em 2018, a barragem foi oficialmente concluída, com 135 metros de altura, 1.829 metros de comprimento e um reservatório de aproximadamente 10,22 km³ de água.
Sem um tratado internacional juridicamente vinculante para a repartição das águas do Tigre e do Eufrates, a Turquia, situada a montante, passou a deter vantagem decisiva. Ancara classifica os rios como transfronteiriços, e não internacionais, o que elimina a obrigação legal de garantir vazões mínimas ao Iraque.
Quando o reservatório de Ilisu começou a ser preenchido, estações hidrológicas iraquianas registraram que, durante a estação seca, o rio Tigre passou a fornecer apenas 30% a 40% de sua vazão média histórica em diversas regiões. Províncias como Basra, Dhi Qar e Maysan enfrentaram colapso no abastecimento. A salinidade da água ultrapassou níveis seguros, tornando-a imprópria para consumo e até para contato direto.
Entre 2018 e 2022, somente em Basra, mais de 100 mil pessoas foram hospitalizadas por doenças relacionadas à água contaminada, como diarreia aguda, intoxicação por sal e problemas dermatológicos. Paralelamente, a agricultura entrou em colapso. Cerca de um terço da população iraquiana depende direta ou indiretamente do setor agrícola, que perdeu dezenas de milhares de hectares irrigáveis.
Além disso, as barragens a montante retêm entre 70% e 90% dos sedimentos que historicamente fertilizavam as planícies iraquianas. Sem esses sedimentos, o solo empobrece rapidamente, a salinização avança e a água salgada do Golfo Pérsico passa a penetrar cada vez mais rio acima. O impacto mais visível ocorre nos pântanos da Mesopotâmia, onde ecossistemas inteiros entraram em colapso e populações tradicionais, como o povo Ma’dan, foram forçadas a migrar.
No fim, a crise do rio Tigre expõe um dilema central do século XXI: quando o direito ao desenvolvimento de um país colide com o direito à sobrevivência de outro, a água deixa de ser apenas um recurso natural e passa a ser uma variável estratégica de segurança, estabilidade e justiça global.
Fonte: Descoberta Simples 24 pontos

